“quando descobres que estás a andar num cavalo morto, a melhor estratégia é desmontares”

O provérbio é índio e permite-nos diferenciar a sabedoria desses face ao pensamento de um ocidental. Vejamos como os ocidentais resolveriam o problema de “descobrir que estão a andar num cavalo morto”:

a) compram um chicote mais rijo;

b) mudam de cavaleiro;

c) nomeiam um comité para estudar o cavalo;

d) visitam outros sítios para verem como eles andam nos cavalos mortos;

e) dão financiamento acrescido para aumentar a performance do cavalo;

f) estudam usos alternativos para os cavalos mortos;

g) promovem o cavalo morto a uma posição de supervisão.

Qualquer semelhança destas hipóteses com cenários reais da actualidade política, nacional ou municipal, não é uma coincidência. Cada uma destas hipóteses podia ser esmiuçada e comparada com situações concretas.
Divirta-se!

Declaração Jerónimo Sousa sobre encontro com PS

Declaração de Jerónimo de Sousa
Secretário-geral do PCP
Encontro com o Partido Socialista
Lisboa, 4 de Junho de 2013

No encontro que acabámos de realizar manifestaram-se algumas das mais significativas diferenças de opinião e mesmo divergências quanto às soluções e respostas indispensáveis para tirar o País da situação para onde foi atirado por anos de política de direita e pelo chamado memorando de entendimento subscrito por PS, PSD e CDS com a troika estrangeira e pela acção devastadora do actual governo.
Expressámos ao PS a nossa convicção que não há nem crescimento económico nem criação de emprego sem rejeitar o Pacto de Agressão; que não é possível dinamizar o investimento público e privado ou pôr o país a crescer, sem renegociar a dívida e estabelecer, negociada ou unilateralmente, um montante para o serviço da dívida compatível com aqueles objectivos.
A demissão do governo e a realização de eleições são, sem dúvida, uma exigência e um imperativo nacionais.
Mas a questão essencial e decisiva reside em assegurar que à derrota do governo se some a ruptura com a política de direita, que se rejeitem e abandonem as manobras para perpetuar o Pacto de Agressão sem a troika, por via da subordinação às políticas e directivas da União Europeia como o PS sustenta e defende. Ou que se pretenda, de outra forma, manter a política de austeridade e consolidação orçamental como o PS explicitamente assumiu no seu Congresso.
É por isso que muitos portugueses, onde se incluem milhares de socialistas, não compreendem nem aceitam que a direcção do PS continue a reafirmar a sua disponibilidade para encontrar na direita – PSD e CDS – parceiros de futura governação, indiciando assim a vontade de prosseguir a mesma política que levou o país à situação em que se encontra.
Só com uma política patriótica e de esquerda, que inscreva como objectivos recuperar a soberania económica, orçamental e monetária e repor os direitos e rendimentos roubados aos trabalhadores e ao nosso povo, é possível dar solução aos problemas nacionais, assegurar os direitos sociais constitucionalmente consagrados, criar emprego e elevar as condições de vida dos portugueses, dar futuro a milhares de pequenas e médias empresas hoje condenadas à falência.
Os que insistem em manter o país amarrado ao memorando de entendimento com a troika e subordinado à União Europeia e ao federalismo são responsáveis por bloquear o caminho para a política alternativa indispensável ao País.
Aos que aspiram a uma verdadeira mudança na vida política, a todas as forças e personalidades empenhadas em romper com a política de direita, a todos os trabalhadores e ao povo português dizemos que esse objectivo estará tão mais perto de ser realizado quanto mais força e mais influência o PCP tiver.

Comunicação Social e Manutenção Político-partidária

A importância da comunicação social para os políticos é óbvia. Para ganhar eleições, no curto e longo prazo, os candidatos ou os partidos políticos têm de atrair os eleitores. A maior parte das pessoas não está motivada para seguir activamente, e atenciosamente, a vida política (Iyengar & McGrady, 2005). Ao invés, as pessoas formam opiniões e preferências baseadas no que vêem e lêem nos meios de comunicação. De resto, os candidatos que gerem melhor, com mais eficácia, os meios de comunicação, são normalmente quem vence as eleições.

Como resultado de alterações que ocorreram nas campanhas políticas nos últimos 50 anos, as instituições políticas que tradicionalmente organizavam e agregavam as preferências das pessoas atrofiaram e foram substituídas pelos meios de comunicação (Polsby, 1983). Aliás, o uso/manipulação da comunicação social para promoção de objectivos políticos é essencial para a sobrevivência política, além de ser prática usual.

Com o aumento do número de canais de comunicação a competição pelas audiências também aumentou, e tal afectou a forma das notícias políticas, ajudando os políticos e os seus partidos a evitar o escrutínio de aspectos importantes respeitantes ao candidato e à forma de governar, tais como posições políticas que permitiriam aos eleitores tomar decisões políticas informadas. De modo crescente, a necessidade de cativar as audiências tomou precedência sobre a “antiga” norma jornalística de informar os leitores/espectadores (Kalb, 1998). As forças de mercado requerem que as notícias sejam apresentadas num formato de entretenimento e com um valor de interesse – mesmo que as histórias sejam duvidosas do ponto de vista cívico ou de relevância educacional (Kalb, 1998). Assim, na cobertura das campanhas políticas, a incerteza e o suspense associados à representação dos candidatos como jogadores estratégicos na tentativa de manipular os eleitores, é mais provável de captar e segurar a atenção do público que outros aspectos mais reais, com substância, da campanha (Patterson, 1993).

Dado que existem, hoje em dia, formas menos rigorosas de jornalismo, tendo em conta as necessidades do mercado, os meios de comunicação são hodiernamente menos capazes de resistir activamente a fontes institucionais e governamentais (Iyengar & McCgrady, 2005). O resultado é uma forma de “relatar” diferencial, em que a ideia do jornalista independente com a capacidade de desafiar as fontes oficiais cessou de existir (Dorman & Farhang, 1987; Bennet, 2000). Ganha especial importância a influência que as elites políticas podem exercer no público em geral, dado que os seus pontos de vista são raramente desafiados pelos meios de comunicação de massas mais genéricos, isto porque os jornalistas têm cuidado para não irritar e alienar as fontes nas quais têm que basear-se para criar as suas histórias (Iyengar & McGrady, 2005).

As elites políticas são assim mais capazes de manipular, e estão mais dependentes dos meios de comunicação que nunca (Iyengar & McGrady, 2005). É axiomático que aqueles que são capazes de influenciar o conteúdo e imagem das notícias têm sucesso em melhorar a sua permanência no tribunal da opinião pública, e ao fazê-lo estar na mó de cima, como é o recente caso de José Sócrates.

Pense-se agora no impacto, não esquecendo os jogos de bastidores, que o comentador político que entra pelas tv’s adentro pode ter. Impacto esperado e calculado quer por quem vai comentar quer por quem o convidou a ter esse espaço de opinião. No significado do comentador ter desempenhado funções políticas e estar agora a comentar as dos que exercem actualmente. Questione-se não apenas sobre Sócrates mas sobre todos os outros, na RTP, na SIC, na TVI e nos outros canais de televisão. Perceba-se o que dizem essas escolhas das linhas editoriais desses mesmos canais. Falei das televisões mas falo também dos jornais, de quem lá escreve as suas opiniões e, mais uma vez, de que os convidou.

Na imagem/representação global do país, dos seus problemas e soluções, a velha pergunta de Harold Lasswell “quem diz, o quê, a quem, como (através de que canal), e com que efeito?” coloca-se cada vez mais pertinente como forma de desconstruir esta construção social da realidade. A bipartidarização partidária, a bipartidarização das soluções para a crise que vivemos também se constrói aqui. Da mesma maneira que também foi aqui que se foi ignorando a crise, os seus aspectos e os seus actores. A manutenção dos partidos-políticos e a manutenção de algumas figuras que ganharam notoriedade por terem desempenhado funções enquanto membros desses mesmos partidos também se constrói aqui. A desconstrução, a resistência e a solução para uma sociedade mais informada passa por uma comunicação social cujos meios não estejam intrinsecamente ancorados a indivíduos ou instituições do controlo social formal.

Como é que as pessoas que apenas lêem notícias ou as visionam (são a maioria), as tais que não estão motivadas para seguir activamente a vida política (e por isso são menos activas na procura de outras informações/vias informação), conseguem ter diferentes perspectivas sobre o mundo onde vivem se a maioria dos canais que veiculam notícias têm como produtores de opinião mais do mesmo?

Vivemos na sociedade líquida, consumista e individualizada de Zygmund Bauman, onde os meios de comunicação o que nos trazem, no lugar de discussões relacionadas com os nossos modos de existência público e privado, “são lições públicas sobre a vacuidade da vida pública e sobre o vazio das esperanças postas em tudo o que seja menos privado que os problemas e as soluções particulares. Os solitários indivíduos entram hoje numa ágora e não se encontram a não ser com outros que estão tão sós como eles mesmos. Voltam para casa tranquilizados com a sua solidão reforçada.” (Bauman, 2001, p. 231)

Há, a acrescer ao que foi dito, uma desvinculação das “elites” com as comunidades de origem, as “elites” são cada vez mais globais ao contrário da maioria da população que é cada vez mais localizada (basta ir ver a origem de alguns políticos e as suas práticas antes, durante e após eleições). E é neste pano de fundo que também se jogam as relações de poder que permitem o aumento da desigualdade social que os meios de comunicação social veiculam e que contribuem para as nossas representações sociais e para a construção social da realidade.

É certo que o leitor/espectador não é tábua rasa onde se inscreve o que lê e vê, que ele interage, que os efeitos da acção dos meios de comunicação, quer no geral quer no particular, são bastante complexos, que há uma componente cognitiva-afectiva-emocional. Contudo, o ponto aqui é outro. Se o discurso disseminado é na sua grande maioria o mesmo, quem não procura informar-se estará exposto a uma visão restrita e hegemónica acerca do mundo onde vive. Não admira pois que exista de forma transversal uma bipolarização do discurso e das práticas, nos meios de comunicação social e noutras esferas da vida.

Referências:

Bauman, Z. (2001). A Sociedade Individualizada: Vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar. 

Dorman, W. A., & Farhang, M. (1987). The U.S. Press and Iran: Foreign policy and the journalism defense. Los Angeles: University of California Press;
Kalb, M. (1998). The Rise of the New News. Discussion Paper D-34. Joan Shorenstein Center, Harvard University;
Patterson, T. (1993). Out of Order. New York: Knopf;
Polsby, N. W. (1983). Consequences of Party Reform. New York: Oxford University Press;
Iyengar, S., & McGrady, J. (2005). Mass media and political persuasion. In Brock et al. (eds.) Persuasion: Psychological Insights and Perspectives.
London: Sage Publications.

PS & PSD aprovam Orçamento Câmara Municipal Silves para 2013

Vereadora da CDU
Executivo da CM de Silves
Rosa Palma
14 de Dezembro de 2012

Declaração de Voto

PSD e PS aprovam em Silves

o pior orçamento da historia da democracia

 

A proposta de Plano e Orçamento da Câmara Municipal de Silves para 2013 ascende a 37,1 milhões de euros, valor que estará empolado na ordem dos 4/5 milhões de euros, se tomarmos em linha de conta a taxa média de execução orçamental dos últimos anos.

É curioso verificar o que é dito no preâmbulo do plano e orçamento (ideia repetida na Declaração de Voto do PSD), citamos: “…entendeu  este  executivo (Maioria PSD) apresentar o mais baixo orçamento dos últimos anos … operando  uma redução de 10 milhões de euros num ano … tal reflete uma extrema contenção de custos …” É hilariante esta constatação porque entre o orçamento virtual dos 47 milhões (ano anterior) e os 37 milhões previstos para 2013 (também virtual) ninguém pode concluir que houve qualquer redução de custos, na medida em que a execução real do orçamento se tem  situado  na ordem  dos 32/33 milhões de euros!!! Não se podem comparar números à margem ou acima da execução orçamental. Das duas uma, ou são ignorantes, ou então, tomam-nos por tolos.

O investimento previsto para 2013 aponta para os 8 milhões de euros que em cerca de 65% (5,2 milhões de euros) se resume a rubricas gerais, ou seja, não há investimento definido em concreto. Outra parte do investimento previsto (centenas de milhares de euros) refere-se a obras já realizadas mas em dívida. O conjunto destes valores significativos estão expostos às maiores discricionariedades, são contrário aos princípios da especialidade e da transparência que devem ser apanágio de qualquer orçamento, e iludem a verdadeira dimensão do investimento programado que acaba por ser meramente residual.

Para além do referido anteriormente, a CDU é obrigada a votar contra este orçamento, porque:

  1. As transferências para as Juntas de Freguesia do concelho repetem o valor do ano transacto, que foram  objecto de  uma diminuição brutal de 26% relativamente a 2011 (de 2010 para 2011 o corte foi de 10%);

– sendo extremamente grave que à data de hoje, nem um cêntimo foi transferido para as oito Juntas de Freguesia – por conta do Orçamento de 2012;

  1. As colectividades, associações e clubes que nada receberam em 2012 (!), no ano de 2013 são confrontadas com valores que colocam em causa a sua sobrevivência; na área da cultura o corte é de 300%, enquanto na área desportiva, a redução aproxima-se dos 200%;

  2. Consideramos da maior gravidade que o município de Silves sob a égide do PSD, ao não ter assumido os compromissos orçamentais de 2012, designadamente, os relativos à maioria esmagadora das colectividades, associações e clubes (não pagou um cêntimo), não os tenha assumido no orçamento para 2013, conforme era prática antiga, e exigiam o bom nome e a boa-fé da autarquia;

  3. A par disto, constatamos que as transferências do Estado para a autarquia (ex-FEF) são idênticas às de 2012; no ano transacto o Governo efectuou cortes de 4,96  por cento nas transferências directas para os Municípios;

  4. O plano e orçamento foram entregues em mão no dia da votação, e desde logo foram votados! Uma espécie de “orçamento-relâmpago”!

         O orçamento da CMS para 2013 não se explica somente pela crise do capitalismo financeiro que assola o país. São também reflexo e consequência da desastrosa gestão financeira realizada sob a liderança do PSD local ao longo dos últimos anos, incluindo as opções políticas erradas e a ausência de estratégia a médio/longo prazo.

Registamos com profunda  tristeza, estupefacção e indignação o comportamento dos Vereadores do PS (não é a primeira vez que o fazem)  que através da abstenção, viabilizaram  nestas condições, um orçamento muito mau que fere de morte os interesses das freguesias, do mundo associativo, e o próprio desenvolvimento do concelho de Silves.


A Vereadora Não Permanente,
Rosa Palma
CDU – SILVES

os resultados do Ministro das Finanças em 2 anos

Em 2 anos do seu Governo:

o consumo interno caiu 13,4%

o investimento caiu mais de 25%

o desemprego passou de 10% para 16%

a dívida pública aumentou 22,6%

os juros aumentaram 52%

 

Já era altura de todos percebermos que essa conversa da avaliação positiva só resulta e só pode ser verdadeira se os objectivos esperados fossem estes, se os objectivos esperados não eram estes então não pode ser positiva a avaliação, ou então todos nós temos que descodificar muito bem o que significa isso da avaliação positiva. Significa que curiosamente, só por acaso, talvez, o valor que o seu governo se orgulha de ter cortado na despesa pública, qualquer coisa como, em 2 anos, 8 mil milhões, e nós sabemos onde:

nos subsídios dos trabalhadores, nos despedimentos na função pública, no encerramento de escolas, no encerramento de centros de saúde, no encerramento de um conjunto muito vasto de serviços, no aumento dos preços, nós sabemos de onde vêm.

 

8 mil milhões mais ou menos de corte na despesa pública, é mais ou menos o mesmo, já reparou, que já colocamos na banca. Não há vergonha nisto?! tiram o dinheiro e dizem que cortam na despesa pública para garantir que o podem entregar aos bancos e àqueles que lucram à custa dos portugueses?! Portanto, é preciso ter algum pudor quando se vem aqui anunciar como positivo isto que está que nos está a destroçar o país e os direitos dos portugueses.

Não sei como é que se vê se a avaliação é positiva lá nos gráficos que o senhor ministro usa e nos seus números mas nas ruas e nos locais de trabalho vê-se as condições de vida dos portugueses, e os portugueses hoje vivem pior que há 2 anos.

 

 

Sabemos muito bem o que não é sacrificado, o sr. ministro diz-nos várias vezes fazendo uso desse terrorismo verbal, esse terrorismo social, aliás não é só o sr. ministro que o diz, já vem do anterior governo essa cassete, se não fosse este empréstimo não tínhamos como pagar os vencimentos dos trabalhadores portugueses mas nunca diz, que se não fosse este empréstimo não poderíamos pagar os compromissos com as parcerias público-privadas, se não fosse este empréstimo não podíamos pagar os juros e a agiotagem, esses são sagrados. O que pode ser sacrificado são os vossos salários, as vossas pensões, as do povo português. Vejam bem a componente ideológica e a sua camada de terrorismo verbal que objectivamente o reveste. (…)

 

Einstein chamar-lhe-ia um tolo, porque aquele que persiste na mesma receita para resolver o problema não pode ser outra coisa que um tolo. (…)

 

No lado da despesa há muita que se lhe diga, há muita despesa e nem toda é igual, (…) se poder, ainda, precisar um pouco sobre a dimensão, as áreas e o espectro de áreas em que esse corte incidirá que é para nós sabermos, que é para as pessoas lá em casa saberem onde é que vão ser cortados esses 830 milhões, onde é que  vão ser cortados esses 4 mil milhões depois. Porque essa ideia de corte indiscriminado tem reflexos objectivos, é isso que destrói os hospitais, é isso que destrói o serviço público, é isso que encarece os transportes públicos, é isso que dá cabo das escolas dos nossos filhos, é isso que aumenta as propinas, é esse corte que não é indiscriminado que tem reflexos e que tem objectivos e que provoca profundos transtornos na vida das pessoas.
(…) mas sobre o PS, o PSD e o CDS é muito revelador que estejam disponíveis para renegociar o Estado e não para renegociar a dívida. Então em vez de negociarmos os juros, os prazos e o montante da dívida? não! As imposições dos credores, as imposições das forças estrangeiras, nós submissamente acatamos. Renegociamos é o nosso Estado – chamaram-lhe refundação. Nós chamaremos desfiguração do Estado, chamaremos perversão do Estado, aquilo que for mais adequado, certamente que refundação não é o termo mas, sr. ministro como é que pode estar mais disponível para renegociar o Estado, para renegociar os direitos dos Portugueses, para renegociar a vida dos Portugueses, não é a sua, é a dos outros, é mais fácil negociar com a vida dos outros mas como é que pode estar disponível para isso ao invés de colocar como primeiro objectivo a defesa do interesse do seu país e renegociar a dívida nos seus juros, prazos e montantes?

 

 

Ainda hoje o PCP propôs a indexação dos juros às exportações portuguesas, é irrealista? Já foi feito na história, até de países da Europa, a indexação dos juros da dívida à capacidade de exportação. Propusemos hoje mesmo, vamos propor no Orçamento de Estado, aqui está uma proposta de renegociação da dívida que poderia ser posta em prática fosse o interesse do Governo o interesse do povo.

 

E eu gostava apenas de dizer o seguinte, o sr. ministro tem razão numa coisa, não é renegociar, de facto, é uma expressão que não comporta toda a dimensão do termo, é negociar, porque o país precisa é de um Governo que esteja disponível para negociar a dívida porque este limitou-se a ir lá assinar de cruz este pacto de agressão sobre o povo português.

A estranha beleza da língua portuguesa

Chegou-me por email hoje e não resisto em partilhar a pérola que exemplifica muita da comunicação política feita por aí…

Este texto é dos melhores registos de língua portuguesa que eu tenho lido sobre a nossa digníssima ‘língua de Camões’, a tal que tem fama de ser pérfida, infiel ou traiçoeira.

Um político que estava em plena campanha chegou a uma pequena cidade, subiu para o palanque e começou o discurso:
“Compatriotas”, “companheiros”, “amigos”! Encontramos-nos aqui, “convocados”, “reunidos” ou “juntos” para “debater”, “tratar” ou “discutir” um “tópico”, “tema” ou “assunto”, o qual me parece “transcendente”, “importante” ou de “vida ou morte”.
O “tópico”, “tema” ou “assunto” que hoje nos “convoca”, “reúne” ou “junta” é a minha “postulação”, “aspiração” ou “candidatura” a Presidente da Câmara deste Município.

De repente, uma pessoa do público pergunta:
Ouça lá, porque é que o senhor utiliza sempre três palavras, para dizer a mesma coisa?

O candidato respondeu:
Pois veja, meu senhor, a primeira palavra é para pessoas com nível cultural muito alto, como intelectuais em geral; a segunda é para pessoas com um nível cultural médio, como o senhor e a maioria dos que estão aqui; a terceira palavra é para pessoas que têm um nível cultural muito baixo, pelo chão, digamos, como aquele alcoólico, ali deitado na esquina.

De imediato, o alcoólico levanta-se a cambalear e ‘atira’:
Senhor “postulante”, “aspirante” ou “candidato”: (hic) o “facto”, “circunstância” ou “razão” pela qual me encontro num estado “etílico”, “alcoolizado” ou “mamado” (hic), não “implica”, “significa”, ou “quer dizer” que o meu nível (hic) cultural seja “ínfimo”, “baixo” ou mesmo “rasca” (hic). E com toda a “reverência”, “estima” ou “respeito” que o senhor me merece (hic) pode ir “agrupando”, “reunindo” ou “juntando” (hic) os seus “haveres”, “coisas” ou “bagulhos” (hic) e “encaminhar-se”, “dirigir-se” ou “ir direitinho” (hic) à “leviana da sua progenitora”, à “mundana da sua mãe biológica” ou à “puta que o pariu”!

eu quero é mais deputados como a Rita e o Bernardino na Assembleia da República

É por intervenções e participações destas que não sou a favor de diminuir o número de deputados na Assembleia da República. Com o nosso método eleitoral a redução de deputados só dá jeito aos partidos da maioria da Troika (PSD e PS) porque assim são menos as vozes dissonantes das suas políticas, assim são menos as vozes a defender melhores condições de vida para a maioria da população.
Com esta qualidade eu quero é mais deputados como a Rita e o Bernardino na Assembleia da República. É com pessoas como eles que as coisas mudam porque dizem a quem de direito e nos locais próprios a realidade com que a maioria das pessoas se defronta, e porque defendem alternativas viáveis apesar de serem muitas vezes enquadradas pelos media e pelo governo de utópicas, ou então de cassetes, para que as pessoas deixem de ouvir com atenção o que deviam como qualquer bom preconceituoso treinado ou em treino.

O sr. Ministro falou no aumento das pensões mínimas, fazendo um arredondamento por cima e pensando no aumento dos 8€ que não chegou de facto aos 8€, nós estamos a falar de 0,26€ por dia. O sr. Ministro é o Ministro da Solidariedade Social devia envergonhá-lo vir dizer que aumentou 0,26€ por dia uma pensão na ordem dos 250€. Porque o sr. Ministro acha que estas pessoas passam poucas dificuldades? 256€?

(…)

E o sr. Ministro já nos falou aqui por diversas vezes da mudança de paradigma, a mudança de paradigma não é mudança nenhuma é um retrocesso, é um retrocesso social que nos conduz aos tempos do fascismo e da sopa dos pobres. É que o 25 de Abril permitiu um passo em frente na emancipação das pessoas e na sua condição de dignidade que é o acesso aos direitos fundamentais consagrados na Constituição. A mudança do paradigma que aqui nos traz é do take away para os pobres!? Ó sr. Ministro, eu acho que o sr. Ministro devia-se envergonhar de usar estas expressões aqui no parlamento. Take away para os pobres? Os pobres não precisam de tupperware, os pobres precisam é de ter emprego, um salário digno, precisam de ter uma pensão digna, precisam de ter acesso ao sistema de transportes, precisam de ter acesso ao Serviço Nacional de Saúde, precisam de ter acesso aos serviços sociais e aos serviços públicos.

(…)

Não há discurso de defesa da caridade que cole com a realidade. As pessoas precisam de emprego com direitos e de pensões dignas. (Para ouvir e ver o resto da intervenção, é clicar no vídeo que está no fim do post!)

queria perguntar à sra. deputada Carina Oliveira se não participou aqui há tempos numa vigília contra o encerramento de extensões de saúde em Ourém? Se não é verdade que em Ourém se diminuiu o horário de funcionamento para as 18 horas e que a sra. deputada se manifestou contra essa diminuição? E se a sra. deputada não é a relatora da petição que está apresentada contra o encerramento de serviços no centro hospitalar do Médio Tejo que aguarda o seu relatório porque a sra. deputada não quer comprometer com o encerramento que está a ser feito nessa matéria. Olhe sra. deputada na segunda-feira vou participar num debate em Tomar sobre o centro hospitalr do Médio Tejo, vá lá a sra. deputada fazer o discurso que fez aqui que eu quero ver se tem coragem de o fazer em frente às populações e aos profissionais de saúde

(…)

… depois quanto ao favorecimento de interesses privados e privatização, ó sra. deputada as PPP’s (parcerias público privadas) são privatizações. As PPP’s foram criadas pelo governo anterior PSD/CDS, as PPP’s da Saúde têm origem nesse governo, as outras as rodiviárias são do PS é verdade, mas essas são vossas, são exclusivamente vossas, são pai e mãe das PPP’s da saúde os deputados do PSD e do CDS.

Logo deixo cá outros exemplos como estes. É que não são todos iguais ao contrário do que se diz com o objectivo de levar as pessoas a resignarem-se a mais do mesmo como tem acontecido sucessivamente de uns governos para os outros.

por cá também se defende a Moção de Censura a este (des)Governo

de facto, este Governo vive acima das minhas possibilidades.

Dizemos aqui ao Ministro Mota Soares, rejeitamos totalmente a ideia de que o país é um país de preguiçosos e de aldrabões que andam a enganar o governo e a receber subsídios que não deviam. Isso não são os portugueses, podem ser alguns com quem os senhores se relacionam mas não são os portugueses, os portugueses não são aldrabões e não são preguiçosos. Quem vive à conta do orçamento não são os pobres são os ricos e isso é que os senhores não querem mudar e por isso é que sempre acusam os pobres de serem aldrabões e de serem preguiçosos.  Bernardino Soares

Nada de novo na AR.

Moções de censura apresentadas pelo PCP e BE rejeitadas.

Votos contra PSD/CDS, abstenções PS. A conivência é vergonhosa quer a nível nacional quer a nível local.

Consultas no veterinário

Há 4 anos que tenho um cão. É um facto trivial, bem sei. Não interessa a ninguém, nem mesmo ao meu cão. Mas o meu cão tem-me ensinado várias coisas sobre várias coisas. Podia aqui dar muitos exemplos, mas não tenho especial interesse em dissertar sobre cães, tive uma vizinha que gostava mais do cão do que das pessoas e desconfio das pessoas que gostam mais de cães do que de gente – embora deva confessar que já me tem acontecido. Por exemplo, no caso dessa vizinha: o cão era realmente melhor pessoa do que ela.

Queria destacar aquele que considero o maior ensinamento que o Leão me trouxe. (Se revelo aqui a sua identidade, à revelia dos códigos deontológicos e da comissão nacional de proteção de dados, é porque vai gostar de ler o seu nome no jornal). Que ensinamento foi esse? O Leão fez-me descobrir os médicos veterinários. Não quero alongar-me, não quero sequer a piada estafada: “ai não sabias que havia veterinários?”. Vou direito ao assunto: desde que levo o Leão ao veterinário, tenho meditado sobre as diferenças entre este e os médicos dos animais humanos. E, posto no prato da balança o que anda a passar-se na área da saúde que tem como objeto – sublinho: objeto – os humanos, pondero passar a consultar-me no veterinário. Razões:

– para assuntos correntes da patologia reúno evidência de que é tão competente como os seus colegas que tratam humanos. E os humanos, do ponto de vista biológico, não passam de animais;

– é mais barato;

– tem muito mais tempo para estar com os clientes do que os médicos do centro de saúde;

– os serviços de urgência são muito mais rápidos do que os dos hospitais, não se paga taxa moderadora  e não funcionam com a triagem no sistema de Manchester;

– percebe os clientes sem estes terem de falar. Não que eu goste de não falar quando vou ao médico, mas normalmente não consigo;

– tem menos peneiras: assobia, diz “bichano, bichano!”, põe-se de gatas para tratar gatos, de cócoras para tratar cães, em bicos de pés para tratar cavalos. Os médicos dos humanos só se põem em bicos de pés;

– fruto da caraterística anterior, admite o erro. Quanto aos dos animais humanos, são especialistas no binómio reconhecimento/não-reconhecimento: reconhecem a entidade mórbida, normalmente à custa duma série de exames ultratecnológicos cujo funcionamento foi inventado a leste da medicina, mas não reconhecem a hesitação ou o engano. A nós, confrontados com a crueza dos factos, resta-nos mudar de médico, enquanto eles mudam de paciente – e não é à toa que se chama paciente;

– dá-se ao trabalho de fazer observação clínica: toca, apalpa, avalia a olho clínico, fiel à natureza primeira da medicina, que sabia ler o corpo, dialogava com ele e fazia o seu cuidado numa luta corpo a corpo com a doença. Detesto ir ao médico dos animais humanos e este estar fixado no ecrã do computador, não olhar nem de relance para a zona de que me queixo e se limitar a passar uma série de exames auxiliares de diagnóstico fingindo que eu não estou à sua frente. Quem me garante que em vez de estar a escrever na minha ficha clínica não está a jogar Tetris?

– escuta os familiares, envolvendo a consulta num tom comunicativo em que todos podem exprimir a dor que vai na alma do cão ou do gato. Tecnicamente chama-se a isto modelo sistémico, e é surpreendente que sejam os veterinários a praticá-lo, produzindo com isso o paradoxo de tornar aquela consulta animal muito humana, enquanto muitos dos seus colegas de gente envolvem por vezes o setting clínico numa certa animalidade. É fácil constatar empiricamente o que digo escutando os comentários à saída de certas consultas num serviço de urgência ou num centro de saúde: “pensam que sou algum animal?”.

– não está em fuga para os HPPs, hospitais da CUF e clínicas disto e daquilo, descapitalizando do ponto de vista da competência técnica o serviço nacional de saúde. Os veterinários estão onde é preciso, e não onde se paga como um cão;

– as salas de espera são muito mais divertidas: há vários tipos de bicharada, ótimo para quem gosta de contemplar a diversidade do reino animal, os clientes não contam a história enfadonha das suas maleitas e pode urinar-se nas esquinas.

Há também vantagens do lado do profissional de saúde: generalizando aos humanos os seus métodos, pode assaimar alguns clientes incapazes de se calarem. Por qualquer razão este género de clientes acorre muito aos médicos, atrasando o fluxo das consultas e exacerbando a tendência destes para não terem paciência para ouvir.

Outra vantagem está do lado daqueles que têm realmente vocação para ser médicos, que têm legítimas aspirações a sê-lo e não conseguem entrar em nenhuma das nossas poucas faculdades de medicina. Como é sabido, só acedem a este curso indivíduos com média de candidatura próxima do 19, ou seja, pessoas que não são normais. E do que nós precisamos é de pessoas normais a irem para medicina, pessoas que depois continuem normais e que convertam a medicina numa ciência e prática ao serviço da comunidade e de cada um de nós. Os realmente vocacionados, não entrando nesses cursos onde só entram os raros, iriam cursar veterinária e fariam depois um desses mestrados de agora, um mestrado rápido e em inglês sobre animais humanos – e pronto, toca a atender o pessoal nos centros de veterinária. Porque, afinal, não passamos de animais – nós, os veterinários e os médicos.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Nasceu no Porto, em 1961. Professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano. A evolução deste fenómeno conduziu-o à pesquisa sobre o sentimento de insegurança, a violência urbana, a marginalidade e a exclusão social. Durante vários anos foi cronista dos jornais “O Comércio do Porto”, “A Página da Educação” e “Público”. Mantém actividade literária com o pseudónimo João Habitualmente.

notas de leitura: Carl Jung, o indivíduo e a política

Dizia Jung em 1938* Não há nenhum país civilizado nos dias de hoje onde as camadas baixas da população não estejam num estado de inquietação e de oposição. Em vários países europeus tal condição está também a tomar conta das camadas altas. Este estado de coisas é a demonstração do nosso problema psicológico numa escala gigantesca. Na medida em que as colectividades são meras acumulações de indivíduos, os seus problemas também são acumulações de problemas individuais. Um conjunto de pessoas identifica-se com o homem superior e não pode descer, e o outro conjunto identifica-se com o homem inferior e quer alcançar a superfície.

Jung descreveu a luta entre o ego e o inconsciente como uma luta de poder. Nesta luta quando um complexo inconsciente se apodera do ego há “possessão”. Quando o ego toma o controlo de certos atributos inconscientes do self existe “inflacção”. Jung comparou a transformação progressiva desta luta de poder no processo de individuação a uma sequência de regimes políticos. Ele denomina a unidade inconsciente inicial da psique de tirania do inconsciente. Na situação onde o ego é predominante ele compara-a a um sistema tirânico de um partido. Quando o ego e o inconsciente negoceiam na base da igualdade de direitos, a relação assemelha-se a uma democracia parlamentar.

Portanto, em Portugal, na maior parte das pessoas, vinga a predominância do ego nessa luta de poder?! Que importância tem esta questão? Jung acredita que a solução para os problemas com que nos deparamos de momento começa com uma mudança nos indivíduos, e que apenas a acumulação das mudanças individuais irá produzir uma solução colectiva.

Contudo, a intolerância, contraproducente à mudança do indivíduo, está em crescendo. O dia de hoje mostra com terrível clareza quão pouco as pessoas capazes estão disponíveis para que o argumento do outro seja levado em conta, apesar desta capacidade ser condição fundamental e indispensável para qualquer comunidade humana. Todo aquele que se propõe chegar a acordo com ele próprio deve contar com esse problema básico. Pois, na medida em que ele não admite a validade da outra pessoa, ele nega ao “outro” dentro de si o direito de existir – e vice-versa. A capacidade de diálogo interior é pedra de toque para a objectividade exterior. (Jung**)

Diálogo interior… essa coisa para a qual a sociedade de consumo vai arranjando desculpas para que não tenha lugar, porque não há tempo, porque as tarefas são muitas, porque parar é morrer… muitas vezes morre-se, vai-se definhando, porque não se pára! Parar para termos consciência do nosso auto-desenvolvimento, de forma a entendermos a nossa particularidade, como nos tornamos nós próprios em nós mesmos – a individuação de Jung; não a individualização corrente da sociedade do consumo, feita pela diferenciação do que se tem e deixa de se ter em termos materiais. A análise importante é quem se foi, é, e pode vir a ser. Sendo nós seres humanos animais de hábitos, como tudo, o diálogo interior exige prática.

Claro, este diálogo interior necessita de diálogo e integração com o contexto em que vivemos, as suas regras, as suas instituições, as suas práticas***… – a que a linguagem dá corpo – não o pactuar complacente com o status quo mas o seu questionamento. A nosso ver, tanto a psicologia como a ciência política partilham o objectivo comum de ajudar-nos a pensar o que fazemos.

*Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1958). The collected works of C.G. Jung: Vol. 2. London: Routledge and Kegan Paul.

**Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1977). The collected works of C.G. Jung: Vol. 18. London: Routledge and Kegan Paul.

*** Beger, P. & Luckmann, T. (2010). A construção social da realidade: Tratado de sociologia do conhecimento. Lisboa: Dinalivro.