psicologia e crise

a opinião de Telmo Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, no Expresso:psicologia e crise

e uma outra opinião, a do Professor Luís Fernandes – FPCEUP, retirada do Porto24 onde escreve habitualmente:

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Corria o ano de 1975 e nas montras das lojas de discos aparecia, rutilante, um LP com uma capa sugestiva: um indivíduo de calções e óculos de sol refastelava-se numa cadeira gozando as delícias do verão à sombra dum guarda-sol. Coisa banal? Não. É que o que o rodeava não era a praia, mas uma lixeira. Uma bela lixeira, uma lixeira bem surtida, e ele impávido em cima dos escombros do consumismo como quem está na esplanada. Assim era a capa do Crisis? What crisis?, dos Supertramp.

Sobre o cenário da atual crise já se pronunciaram inúmeras personalidades e entidades. Cruzam-se e atropelam-se análises e opiniões, variando no grau em que são capazes de influenciar a nossa percepção do que se está a passar, daquilo que o causou ou daquilo que nos encaminhará para uma saída. E tantas coisas já se disseram, tantas e às vezes tão contrárias entre si, que já deixei de me preocupar, porque já estou incapaz de realizar uma síntese de tanto elemento disperso. Criei a minha própria versão da crise, acredito nela como um escritor acredita na sua ficção – e assim levo os dias adiante, sentado nas pequenas certezas que me tranquilizam.

De onde saem tantos opinion makers? De vários lados. Consideremos o caso dos bastonários das ordens profissionais. A relevância social de algumas profissões torna os bastonários das respetivas Ordens influentes vozes públicas. Quem não conhece Marinho Pinto? Ou José Manuel Silva? Advocacia e medicina são ofícios antigos, com o papel e a imagem mais do que consolidados.

E os psicólogos? Constituem um corpo profissional ainda jovem no panorama português. Há 30 anos, o cidadão comum sabia apenas dum modo muito vago para que serviam, e foi com a demonstração do valor da psicologia nos mais diversos contextos da vida social que os psicólogos, pouco a pouco, foram complexificando a imagem que deles hoje se tem e se foram afirmando como construtores dum saber e duma prática importantes na nossa sociedade.

Foram aumentando em número à medida que crescia – aliás exageradamente – a oferta universitária de cursos de psicologia. E, num mundo marcado pela desregulação, foram capazes da ordem – da Ordem, que finalmente, ao fim de anos de espera, se tornou realidade.

O grande público sabe quem são Marinho Pinto ou José Manuel Silva, mas poucos ainda saberão quem é Telmo Baptista. Está na hora de saberem que também o bastonário da Ordem dos Psicólogos se pronunciou sobre a crise. Ora vejamos 2 passagens do seu editorial no n.º 2 da revista da Ordem dos Psicólogos portugueses, acabada de dar à estampa em Abril: “A sociedade como um todo tem de lidar com as consequências da crise, o aumento da depressão, do suicídio, das perturbações ansiosas e do stress, o impacto generalizado na qualidade do trabalho, e talvez o pior de tudo, um sentimento de desesperança, que é prenunciador de uma falta de vontade para agir e confrontar a situação em que nos encontramos.”

Não sou capaz de desmentir as suas palavras. Nem de as reiterar, posto que não creio que se baseie em algum estudo sobre as consequências psicológicas da crise. Seja como for, o que diz é verosímil, e cada um de nós no seu contexto próximo encontrará exemplos que o ilustram. Mas há sempre o outro lado. No meio do panorama desanimador que a crise instalou, os psicólogos, pelos vistos, hão de ser dos poucos que têm razões para sorrir: atente-se na esplêndida clientela que a nefanda crise se arrisca a produzir! Atenção malta da comportamental-cognitiva, da centrada no cliente, da psicanálise (a longa e a breve), atenção malta do psicodrama (o moreniano e o psicanalítico), dos grupos de encontro, dos grupos balint, da grupanálise, da musicoterapia, da respiração holotrópica, da bioenergética – atenção, especialmente, malta da terapia pelo grito!

Não basta, porém, enunciar os problemas, é preciso apontar saídas. E é o que faz Telmo Baptista quando alerta: “Por isso temos de ser mais claros na afirmação da psicologia como um conhecimento válido e importante para sair da crise. Nós sabemos muito bem o que são crises, e o que fazer para sair delas.”

Eis aquilo que nunca me tinha ocorrido: que os psicólogos fossem o contrário dos políticos. A vocação destes para empurrarem países inteiros para o sofrimento da crise é simétrica da capacidade dos psicólogos para abrirem o caminho da saída. E, enquanto durar o período datroika, em que os psicólogos pouco poderão fazer pela crise geral, possa ao menos a Ordem tornar realidade para aqueles que representa a excelente frase “nós sabemos muito bem o que são crises e o que fazer para sair delas”.

Mais a sério agora: não ignoro nem discuto as virtualidades da intervenção psicológica perante cenários de crise, sejam pessoais, conjugais, familiares ou organizacionais. Mas tenho às vezes receio de que o fervor na afirmação do poder dos psis (psicólogos, psiquiatras e outros especialistas daquilo a que já alguém chamou sociedade terapêutica) circunscreva os problemas à sua dimensão individual, mascarando involuntariamente as suas raízes sociais.

O reducionismo individualizante tem um problema de focagem: recortando com grande nitidez o indivíduo, desfoca as razões supraindividuais daquilo que ele experimenta como problema aparentemente pessoal. E isto corresponde a esvaziar o conteúdo de denúncia política que pode conter o sofrimento individual, como é bem o exemplo da figura do desempregado de longa duração, agora coagido à “procura ativa de emprego”, como se resultasse da indolência ou duma espécie de desafeção pelo trabalho o estar na situação em que está.

A afirmação dos poderes de tendência neoliberal tem avivado os mecanismos estruturais produtores de desigualdades e dificultado a garantia pelo respeito, pela dignidade e pelos direitos dos cidadãos – porque é nessa dificuldade que reside a grande fonte do mal-estar nas sociedades ditas do bem-estar. O que esta crise tem mostrado é que a atual maneira de governar, na subjugação aos poderes financeiros e a esferas de interesses dificilmente escrutinadas pelos fragilizados mecanismos dos poderes democráticos (eis uma palavra a necessitar de ser repetida), o que esta crise tem mostrado, dizia, é que as aparentes saídas para a sua resolução estão afinal a aprofundar tais mecanismos.

A psicologização dos problemas pactua, embora involuntariamente, bem sei, com o inimigo: porque ajuda à desfocagem das razões e dos agentes que nos trouxeram até este ponto. O advento dos psicofármacos, cujo valor terapêutico não está em causa, também serviu para docilizar as massas castigadas pelo trabalho intensivo, pela rotina e pela insónia – e os que nos tiravam o sono contavam as notas enquanto engolíamos a pastilha.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Consultas no veterinário

Há 4 anos que tenho um cão. É um facto trivial, bem sei. Não interessa a ninguém, nem mesmo ao meu cão. Mas o meu cão tem-me ensinado várias coisas sobre várias coisas. Podia aqui dar muitos exemplos, mas não tenho especial interesse em dissertar sobre cães, tive uma vizinha que gostava mais do cão do que das pessoas e desconfio das pessoas que gostam mais de cães do que de gente – embora deva confessar que já me tem acontecido. Por exemplo, no caso dessa vizinha: o cão era realmente melhor pessoa do que ela.

Queria destacar aquele que considero o maior ensinamento que o Leão me trouxe. (Se revelo aqui a sua identidade, à revelia dos códigos deontológicos e da comissão nacional de proteção de dados, é porque vai gostar de ler o seu nome no jornal). Que ensinamento foi esse? O Leão fez-me descobrir os médicos veterinários. Não quero alongar-me, não quero sequer a piada estafada: “ai não sabias que havia veterinários?”. Vou direito ao assunto: desde que levo o Leão ao veterinário, tenho meditado sobre as diferenças entre este e os médicos dos animais humanos. E, posto no prato da balança o que anda a passar-se na área da saúde que tem como objeto – sublinho: objeto – os humanos, pondero passar a consultar-me no veterinário. Razões:

– para assuntos correntes da patologia reúno evidência de que é tão competente como os seus colegas que tratam humanos. E os humanos, do ponto de vista biológico, não passam de animais;

– é mais barato;

– tem muito mais tempo para estar com os clientes do que os médicos do centro de saúde;

– os serviços de urgência são muito mais rápidos do que os dos hospitais, não se paga taxa moderadora  e não funcionam com a triagem no sistema de Manchester;

– percebe os clientes sem estes terem de falar. Não que eu goste de não falar quando vou ao médico, mas normalmente não consigo;

– tem menos peneiras: assobia, diz “bichano, bichano!”, põe-se de gatas para tratar gatos, de cócoras para tratar cães, em bicos de pés para tratar cavalos. Os médicos dos humanos só se põem em bicos de pés;

– fruto da caraterística anterior, admite o erro. Quanto aos dos animais humanos, são especialistas no binómio reconhecimento/não-reconhecimento: reconhecem a entidade mórbida, normalmente à custa duma série de exames ultratecnológicos cujo funcionamento foi inventado a leste da medicina, mas não reconhecem a hesitação ou o engano. A nós, confrontados com a crueza dos factos, resta-nos mudar de médico, enquanto eles mudam de paciente – e não é à toa que se chama paciente;

– dá-se ao trabalho de fazer observação clínica: toca, apalpa, avalia a olho clínico, fiel à natureza primeira da medicina, que sabia ler o corpo, dialogava com ele e fazia o seu cuidado numa luta corpo a corpo com a doença. Detesto ir ao médico dos animais humanos e este estar fixado no ecrã do computador, não olhar nem de relance para a zona de que me queixo e se limitar a passar uma série de exames auxiliares de diagnóstico fingindo que eu não estou à sua frente. Quem me garante que em vez de estar a escrever na minha ficha clínica não está a jogar Tetris?

– escuta os familiares, envolvendo a consulta num tom comunicativo em que todos podem exprimir a dor que vai na alma do cão ou do gato. Tecnicamente chama-se a isto modelo sistémico, e é surpreendente que sejam os veterinários a praticá-lo, produzindo com isso o paradoxo de tornar aquela consulta animal muito humana, enquanto muitos dos seus colegas de gente envolvem por vezes o setting clínico numa certa animalidade. É fácil constatar empiricamente o que digo escutando os comentários à saída de certas consultas num serviço de urgência ou num centro de saúde: “pensam que sou algum animal?”.

– não está em fuga para os HPPs, hospitais da CUF e clínicas disto e daquilo, descapitalizando do ponto de vista da competência técnica o serviço nacional de saúde. Os veterinários estão onde é preciso, e não onde se paga como um cão;

– as salas de espera são muito mais divertidas: há vários tipos de bicharada, ótimo para quem gosta de contemplar a diversidade do reino animal, os clientes não contam a história enfadonha das suas maleitas e pode urinar-se nas esquinas.

Há também vantagens do lado do profissional de saúde: generalizando aos humanos os seus métodos, pode assaimar alguns clientes incapazes de se calarem. Por qualquer razão este género de clientes acorre muito aos médicos, atrasando o fluxo das consultas e exacerbando a tendência destes para não terem paciência para ouvir.

Outra vantagem está do lado daqueles que têm realmente vocação para ser médicos, que têm legítimas aspirações a sê-lo e não conseguem entrar em nenhuma das nossas poucas faculdades de medicina. Como é sabido, só acedem a este curso indivíduos com média de candidatura próxima do 19, ou seja, pessoas que não são normais. E do que nós precisamos é de pessoas normais a irem para medicina, pessoas que depois continuem normais e que convertam a medicina numa ciência e prática ao serviço da comunidade e de cada um de nós. Os realmente vocacionados, não entrando nesses cursos onde só entram os raros, iriam cursar veterinária e fariam depois um desses mestrados de agora, um mestrado rápido e em inglês sobre animais humanos – e pronto, toca a atender o pessoal nos centros de veterinária. Porque, afinal, não passamos de animais – nós, os veterinários e os médicos.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Nasceu no Porto, em 1961. Professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano. A evolução deste fenómeno conduziu-o à pesquisa sobre o sentimento de insegurança, a violência urbana, a marginalidade e a exclusão social. Durante vários anos foi cronista dos jornais “O Comércio do Porto”, “A Página da Educação” e “Público”. Mantém actividade literária com o pseudónimo João Habitualmente.