adeus Stéphane Hessel

Faleceu hoje Stéphane Hessel. A humanidade fica mais pobre.

Foi membro da resistência francesa e era o único redactor ainda vivo da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Partilho, do artigo 21º

Caros amigos de Portugal,
[…]
Que fazer, então? Este mundo estranho e incerto deve desencorajar-nos e deixar-nos cair no pessimismo?
Não!

A nossa capacidade de indignação pode e deve levar-nos a acções construtivas, motivadas pela recusa da passividade e da indiferença.

Saber dizer não. Denunciar. Protestar. Resistir. Indignarmo-nos. Desobedecer, por vezes, ao que não nos parece justo e que põe em causa as liberdades e os direitos fundamentais.
Saber dizer sim. Agir. Combater. Participar na «insur­reição pacífica» que nos permite dar resposta a um mundo que não nos agrada.

Numa palavra: empenharmo-nos.

Stéphane Hessel

Zeca Afonso, maior que o pensamento

“Eu sou do tempo em que os polícias andavam pelos jardins a ver quais eram os parzinhos enlaçados para lhes pedirem a identificação e os levarem para a prisão. É importante que estes putos novos saibam que o fascismo não era só um sistema político, mas que era tam­bém um modo de vida que nos envenenava a todos e que conspurcava aquilo que havia de mais caro, mais imediato e mais sincero em todos nós… E que este tipo de “permissividade” que, apesar de tudo, se vive hoje e a naturalidade com que hoje se encaram coisas que eram consideradas grandes pecados são dados resultantes do 25 de Abril…”

Zeca Afonso em Entrevista c/ Viriato Teles, in «Se7e», 26/1/83

liberdade e democracia: perspectivas do governo e do povo!

Disse o Governo, hoje, em comunicado que ”manifestações como aquela a que se assistiu nas instalações do ISCTE suscitam necessariamente o repúdio da parte de todos quantos prezam e defendem as liberdades individuais, designadamente o direito à livre expressão no respeito pelas regras democráticas”. Comunicado como reacção do Governo aos apupos dos estudantes do ISCTE com que Relvas se viu confrontado quando ia falar numa conferência que a TVI organizou de forma a comemorar os seus 20 anos de existência. Título da conferência “Como vai ser o jornalismo nos próximos 20 anos”.

Condição fundamental para que haja liberdade e democracia é o respeito, o respeito por nós próprios e o respeito pelos outros. Já sabendo o senso comum que para se ser respeitado há que dar-se ao respeito. Ora, este Governo tem em alguns dos seus membros o oposto desta lógica. Ou seja, não se dão alguns dos ministros ao respeito. Dizer que levar Relvas à universidade para versar sobre jornalismo, a não ser que vá falar sobre o totalitarismo e o lápis azul na comunicação social – tem experiência nisso, basta lembrar o caso em que o senhor ameaçou a jornalista do Público, é gozar com a cara da maioria dos portugueses, é pouco. É de facto um insulto. Querem maior prova de falta de respeito por todo um povo que os milhões que andam a injectar nos bancos privados à conta da exploração fiscal e económica de todos nós?!

Depois, muito mais insultuosa é a postura de alguns jornalistas da praça como José Alberto de Carvalho (TVI) que considera que o que os alunos fizeram foi um abuso, que ultrapassaram a sua liberdade de expressão porque interferiram com a do outro, neste caso a de Relvas. Ou seja, a TVI que se autodenominou nas palavras de J. A. Carvalho como sendo um canal de informação de referência (deixem-me rir que é para não chorar) faz uma manipulação do que aconteceu no ISCTE. Fica a parecer que os estudantes amarraram Relvas ao palanque, imobilizando-o, colocando-lhe fita cola na boca, para que ele não abrisse o piu!, ou então que o raptaram da sala! Não foi nada disto que aconteceu. Relvas escolheu, em conferência com J. A. Carvalho (como se pode ver no vídeo acima), ir-se embora. Podia ter ficado, esperava que os apupos acabassem (se acabassem) e falava. Decidiu que não tinha condições, que não estava mais para aturar as palavras que lhe eram dirigidas e saiu da sala. (Dinheiro Vivo foi dos poucos meios de informação que relatou de forma fiel o que se vê no vídeo). Também me parece, no mínimo, pouco inteligente que pensassem que levar Relvas a uma qualquer Universidade não ia causar indignação!…

A postura dos estudantes quanto muito dignifica a academia, traz alento a quem já não tem esperança de que as coisas mudem. É sinal que a academia está viva, que ainda se formam Pessoas na Universidade, seres pensantes e não papagaios. Pessoas que sentem na pele a incerteza do futuro pelo qual lutam dia-a-dia no presente. A academia sempre teve, desde que existe, ao longo dos períodos mais conturbados da nossa história um papel importante na construção da democracia do nosso país, lembro as lutas académicas dos anos 50 e 60. Pelos vistos os jornalistazecos, os comentadorzecos, os politicozecos, e outros tantos, que por aí andam a criticar a postura dos estudantes como se eles tivessem roubado alguém, deviam cultivar-se. Deviam indignar-se e revoltar-se, e comentar, e escrever sim, mas sobre os que há anos vilipendiam os sonhos de muitos, os que se fazem eleger com palavras ocas e depois vendem o povo e o país por meia dúzia de tostões só pra proverem ao seu próprio umbigo. Por certo o canal de televisão TVI, daqui a 20 anos, não irá convidar para falar sobre jornalismo uma figura que obteve o seu grau académico de forma, digamos, pouco transparente e pouco meritória – se aprendeu qualquer coisa com o que se passou ontem!

Num país assolado pela falta de ideais, pela falta de políticas coerentes, sérias e progressistas, pela má distribuição do dinheiro, pelas dificuldades que daí decorrem, pelas pessoas que não têm que comer ou que têm cada vez menos, o jornalismo sério e de referência – tal como a política – precisa de gente séria que o leve a cabo, que o cumpra. Tomara que o exemplo que os estudantes deram hoje se multiplicasse país fora. Podia ser que alguns ganhassem consciência, prefiro-a ao medo, que é a arma que o Governo tem andado a utilizar para estrangular a democracia neste país. Vêm depois qual paladinos falar de democracia e liberdade. Forjem uma consciência, talvez precisassem mesmo de ir frequentar a universidade, ou um trabalho que os colocasse cara-a-cara com as pessoas que todos os dias lutam e trabalham por um país melhor. Este discurso higiénico sobre a democracia e as liberdades deviam ser obrigados a engoli-lo em consciência, tivessem-na e, algum sentido de decência, de carácter.

O país é o reflexo do ideal colectivo que venceu nas últimas eleições, como as políticas deste Governo reflectem o ideal colectivo de país definido e executado pelos seus membros. O que não quer dizer que o ideal colectivo de país definido e executado em vigor seja o mesmo que venceu nas últimas eleições. Basta lembrar as promessas eleitorais e olhar para o que de facto foi, e é, feito.

Contudo, a democracia e a liberdade de expressão política não se esgotam no voto. O problema dos políticos “profissionais” (que muita gente gosta de defender, como se a política não estivesse inerente à maioria das actividades quotidianas de todos nós) é que vivem da bíblia que depois de serem eleitos já não precisam de quem os elegeu para nada; mas o problema maior é que quem neles votou não é o primeiro a pedir-lhes responsabilidades e a exigir que se demitam quando está mais que visto que capacidades para governar o país são inexistentes.

NOTA: Caso alguém tenha dúvidas, ou falta de bom senso, o protesto é uma forma de liberdade de expressão democrática. Para alguns saudosos do Salazarismo é que esta coisa de se ser confrontado com as escolhas políticas que se fazem em nome de todos nós (também isto é participação política) é além de chato, “asfixia democrática”.

P.S.: espero que o curso que a TVI anunciou que irá promover juntamente com o ISCTE não tenha professores do calibre de Relvas.

Ter memória: o que faz falta é avisar a malta!

Em 1975, Novembro, apesar dos trabalhadores da construção civil em greve se terem manifestado frente à Assembleia da República e terem visto o VI Governo Provisório, após 3 dias de cerco, dizer que iria satisfazer os seus pedidos de aumento de salários e melhores condições de vida, deu-se a contra-revolução que nos trouxe pela mão de uns poucos ao estado a que o país se encontra hoje!
Portugal já não tinha colónias apesar dos fascistas infiltrados nas forças armadas terem tentado adiar a descolonização. De forma a limitar os direitos dos trabalhadores em Portugal, há pouco conquistados e marcar uma posição, o VI Governo Provisório recusou demitir-se e entrou em confronto com os militares ditos revolucionários no geral. O VI Governo não podia permitir que as classes trabalhadoras ditassem as regras, afinal a burguesia já tinha perdido os investimentos feitos em Luanda. Com as divisões no seio do Movimento das Forças Armadas que já vinham detrás e, sem organização de resistência os Comandos controlados pela direita prenderam os militares conotados com a esquerda. Os Comandos que tinham servido na guerra colonial foram usados como meio para quebrar a luta das classes trabalhadoras. O Governo parou as negociações com os trabalhadores e não aumentou os salários como tinha prometido aos trabalhadores da construção civil. O estado social já na altura deu lugar ao estado policial. O VI Governo voltou a armar a polícia e a guarda nacional republicana para conter e lutar contra os trabalhadores em greve pelos seus direitos, para retirar as pessoas das casas que tinham sido ocupadas a seguir ao 25 Abril. Os indivíduos conotados com a esquerda foram removidos da rádio e televisão, os jornais passaram para controlo do Governo. Juntamente com os Comandos a GNR fez rusgas a casas e cooperativas à procura de armas mas nunca as encontraram. Os agricultores conotados com a direita organizaram ataques às cooperativas e à reforma agrícola.
O VI Governo recusou-se a reconhecer a liderança de Angola pelo MPLA e neste contexto os ataques bombistas conotados com Spínola aumentaram, principalmente a escritórios angolanos e moçambicanos, sedes de partidos de esquerda e à embaixada de Cuba.
Quando oiço dizer que o 25 de novembro trouxe a democracia não sei se hei-de rir do ridículo da afirmação ou de chorar porque no fundo o que o VI Governo Provisório colocou em marcha foi o restabelecimento do controlo do país pela burguesia (fascista ou não) e a sua soberania sobre as classes trabalhadoras. Plano sempre encapotado pelo discurso que se vestia de democracia e de liberdade mas que vendia o trabalho português descapitalizado de forma a ser atractivo para investimentos estrangeiros.
Otelo concorre a eleições para a Presidência da República, Eanes na altura Tenente-Coronel, depois de ter dirigido as operações do 25 de Novembro, também concorreu. Ainda que em campanha em Évora os seus seguranças tenham disparado sobre cidadãos portugueses, que se manifestavam desarmados, causando mortos e feridos, Eanes ganhou na mesma as eleições com sessenta e tal por cento dos votos!!!!!! Entretanto Eanes nomeou Mário Soares primeiro-ministro do I e II Governos Constitucionais, afinal tinha sido eleito com o apoio do PS. Outro facto fantástico: ano e meio depois, Spínola* que tinha sido exilado (Espanha e Brasil) pôde regressar a Portugal e foi reintegrado no Exército. O ciclo de sucessivas governações que nos trouxeram aqui começou lá bem atrás e as reivindicações de hoje não são muito diferentes das de antigamente. Podemos ter melhores condições materiais de vida hoje do que há trinta e tal anos atrás, mas como na altura essas condições estão agora em perigo de se tornarem cada vez mais precárias. Se é que o trabalho foi vilipendiado num tão curto espaço de tempo como agora…

*Spínola que queria preservar o aparelho da Pide na sua maioria!, como refere o capitão de Abril, Dinis de Almeida.

Moral da história: as conquistas ou são concretizadas até ao fim ou se ficam pelo meio, e se deixam amenizar pela conquista de umas poucas reivindicações que já foram direitos conquistados, mais tarde ou mais cedo são retiradas uma e outra e outra vez. De facto, a história repete-se. Esperemos que o fim seja outro!

O que faz falta é avisar a malta! O que faz falta!

Para uma análise mais pormenorizada do 25 de Novembro, “a Verdade e a Mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se

13 de Junho de 2005

Há 7 anos, nessa data, faleceram dois homens indissociáveis da história do nosso país, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade.

Cunhal político, artista plástico e escritor. Andrade poeta. Deixaram-nos vasta obra, ideais, sonhos e histórias de vida inspiradoras.

Em 1968 Andrade questionava nos Afluentes do Silêncio:

 Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras. E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade – eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.

Questionamento tão actual hoje como em 68, sinal de que apesar de terem ocorrido mudanças nas condições de vida do nosso povo muitas coisas não mudaram. Apenas adormeceram subterfugiamente para se tornarem hoje tão prementes quanto o eram antes, talvez nunca tenham deixado de o ser ou então, quem adormeceu fomos nós embalados pelas palavras das supostas boas intenções políticas que traziam veladas caminhos já antes percorridos. A pauperização da humanidade é exponencial à crescente valorização da moeda e das finanças numa cada vez maior exploração do homem pelo homem. Marx e o capital, paradigma actual que nos leva de Andrade a Cunhal.

Cunhal que lutou, com tantos outros seus camaradas na clandestinidade, contra a ditadura fascista de Salazar e continuou a lutar pós 25 de Abril por um país melhor, com futuro, mais igualitário, mais solidário, mais social, mais justo. Cunhal que deixou um legado que outros como ele ajudaram a construir no seio do Partido Comunista Português. Aliás, o historiador Borges Coelho, sustentou confundir-se a vida de Cunhal, “numa boa parte”, com a vida do PCP dizendo de Cunhal que “no fim das contas, é afinal um homem profundamente envolvido nas lutas e sofrimento deste século e transfigurado pelo mito”. Podemos recordá-lo no poema Sophia de Mello Breyner cantado por Francisco Fanhais

É preciso recordá-los, dá-los a conhecer, às suas obras, às suas palavras, às suas ideias. Cada vez mais. Neste tempo que se rege unicamente pelo valor monetário, pelo despotismo, pelo pensamento acrítico, pelo bipartidarismo, pelas muitas exclusões – sejam sociais, económicas, educacionais – é preciso, é urgente recordar gente que passou uma vida a lutar pela liberdade individual e colectiva de se pensar, de se construir, de se ser criativo, de se ser e viver. Como disse Cunhal n’ “O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista” (1970):

No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.

A luta faz-se lutando, e essa não se ganha através do apoio à selecção nacional de futebol!*, faz-se através do apoio e da luta pelos nossos direitos, na escola, na universidade, no local de trabalho, nas associações sociais e desportivas. E aos que ao ler isto perguntam pelos deveres, claro que devemos cumprir com os nossos deveres mas atentemos numa coisa, os nossos deveres não são aqueles que à revelia do contrato social, unilateral e ditatorialmente nos são impostos.

Vivêssemos realmente em democracias nesta (des)União Europeia e nem haveria neste tempo nosso censura a livros em Espanha, o caso do livro Hay Alternativas de Vicenç Navarro, Juan Torres y Alberto Garzón com prólogo de Noam Chomsky, nem a ditadura das políticas de desemprego e a retirada de subsídios de invalidez ou a não atribuição de reformas por invalidez, quando constam na lei e são dever do Governo, a quem deles necessita em Portugal.

 *sendo importante todas as formas de participação, a crítica que aqui é feita é que muitas vezes as pessoas importam-se com o acessório e não com o essencial. A selecção também merece apoio mas o cenário que se vive hoje em dia de preocupação com o EURO 2012 quando o país tem questões mais importantes que precisam da participação de todos os cidadãos para que a sua resolução se efective e a maior parte deles demite-se de participar e tomar essas decisões é no mínimo caricata. É triste quando a realidade ao impôr-se nos transmite um tempo de futebol, fado e família semblante e conteúdo da ditadura que assolou o nosso país durante quarenta anos.

José Jorge Letria, na RTP

“Àqueles que nos vêm por todo o mundo queremos lembrara que a cultura que hoje se faz em Portugal é um dos principais factores de valorização, de prestígio e de internacionalização do nosso país e também, internamente um factor de recuperação da economia e de reforço da coesão nacional e da nossa identidade. (…)

Estamos aqui para relembrar que sem autores não há cultura, nunca houve nem haverá, porque uma coisa não existe sem a outra. (…) Imaginem, por exemplo, o que seria este palco, todos os palcos, sem canções, sem a palavra dos artistas e, sem as imagens das várias formas de expressão criadora que (…) estamos hoje aqui a premiar… Seria tão triste como um mundo sem sonho, a alegria e a imaginação que só a arte consegue, de facto, acrescentar. Por isso, apetece aqui evocar hoje e homenagear José Afonso, que nos deixou há 25 anos e em cuja utopia cabia o sonho de uma terra, onde em cada esquina houvesse um amigo e não apenas uma unidade estatística, impessoal e fria.

Sabe-nos muito bem ouvir dizer em Bruxelas, ou aqui em Lisboa, que a cultura é essencial para que Portugal supere a crise e para que a nossa identidade e confiança se reforcem de facto mas, para que tal aconteça são precisos meios, leis justas e modernas e o investimento que não pode em circunstância alguma ser confundido com o conceito redutor de despesa. O que se aplica na cultura e educação é sempre um investimento no futuro, por muito que tentem fazer-nos crer o contrário. Muito mal andam, e andaram, os países que apostaram no progresso material esquecendo o progresso moral porque ficaram com muito mais rotundas do que com obras de espírito.

Ao público em geral nós pedimos que tenha presente que atrás de cada canção, de cada livro, de cada filme, de cada peça de teatro, de cada quadro, ou de cada bailado, existe pelo menos um autor; e, que o saláriodo autor são os direitos correspondentes à legítima utilização da sua obra ou das suas obras.

Muito mais triste e pobre havia de ser a nossa vida sem todo este trabalho criador. Uma terra sem cultura é uma terra sem alma, sem memória e sem esperança, afinal uma terra sem futuro mas, nós não queremos viver numa terra que possa ser assim. Nós queremos acredita que merecemos melhor e vamos continuar a lutar com firmeza e convicção por aquilo em que verdadeiramente acreditamos, também, e sobretudo, em nome das gerações que hão-de vir. Por isso, os autores mais do que nunca têm de estar unidos, representados e defendidos pela úniva instituição que está em condições de o fazer, e é bom que o seu nome seja aqui frisado, Sociedade Portuguesa de Autores.

Estamos hoje aqui, caros amigos, afinal, para celebrar a alegria, a força e a beleza de quem não vira as costas aos sonho e faz da cultura uma luz que teima em não se apagar, no espírito de quem acredita que nem tudo se resume ao pessimismo, à lógica do cifrão e à ganância do lucro. Fernando Pessoa, Manoel de Oliveira, Siza Vieira, Paula Rêgo ou Agustina Bessa-Luís nunca estarão dependentes da notação das agências de rating, se estivessem não haveria resgate para o nosso inquieto desconsolo que já é tão grande e tão preocupante neste momento. É tudo isto que queremos hoje aqui afirmar para que não restem dúvidas quanto ao papel da cultura. Um papel libertador, crítico e mobilizador, sempre que se fala da soberania, da esperança colectiva e do futuro. Digo bem, do futuro desta pátria secular de grandes criadores que se chama Portugal. Muito obrigado!”

José Jorge Letria, Presidente da Sociedade Portuguesa de Autores em RTP, hoje!

cdu, para um país com futuro

sou obrigado a concordar que as campanhas do PCP são autênticas. E como sou uma pessoa de direita sou insuspeito na análise porque considero que o PCP, ou melhor, o ideal comunista, faz tanto sentido no século XXI como comprar uma charrete para ir para o trabalho. Mas em termos de mobilização, animação, ausência de patranhas ou idas à pesca de figurantes para encherem praças ou palcos o PCP continua a dar lições aos restantes partidos cheios de vícios, marketing e falsidade. E isso tem a ver com uma coisa simples: a genuinidade, a autenticidade dos militantes e principalmente do seu líder, Jerónimo – o dançarino. Just Dance!

Ai essa cabecinha sr. tiago mesquita!
Se não tem vícios, marketing e falsidade é porque o ideal comunista é de facto uma solução, e discordo se si, com o preço do gasóleo e da gasolina actual mais valia andar de charrete, farta de contribuir para alimentar burros que nem isso sabem fazer estou eu.
E se a “cassete” não muda é porque o nosso país não evoluiu. E estivéssemos enganados a história recente infelizmente mostra que não estávamos. O Euro a colapsar, solidariedade europeia zero – até porque a ideia da UE não era essa, os comunistas é que são os utópicos mas os outros é que compram facilmente os discursos populistas de treta, – e até o “Paulinho das Feiras” tem feito a sua campanha com uma das faixas da nossa cassete, a agricultura e a revitalização do tecido produtivo.
No fim do dia há os que preferem viver amedrontados com o estado actual de coisas do que encarar a possibilidade de mudança séria, honesta e progressiva para o país. No dia 5 de Junho basta votarem CDU para um outro rumo.

Em democracia a qualidade da mesma está nas nossas mãos.

por Abril e Maio na Freguesia de S. B. de Messines

A Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines, em parceria e colaboração com as Associações e Instituições locais, vai levar a efeito mais um programa de comemorações do 25 de Abril e 1º de Maio.

Comemorar os princípios e valores que Abril e Maio nos trouxeram, “Criar desassossego” para acordar mentalidades e promover as mudanças necessárias nas mentalidades e atitudes, são as linhas orientadoras do programa deste ano.

O desporto, a música, a literatura, a poesia, a arte em geral como promotora da mudança, estará presente ao longo do mês de Abril e Maio, trazendo para as ruas de Messines, Amorosa e Passadeiras a festa, o convívio e a reflexão.

“Islândia, a aldeia viking que resiste”

Há coisas estranhas. Uma delas é a inexistência de notícias sobre um dos primeiros países sobre o qual se abateu esta crise. Vemos reportagens sobre a Irlanda e sobre a Grécia, mas nada, rigorosamente nada, nos contam sobre essa pequena e gelada ilha que decidiu seguir um caminho diferente: a Islândia. E assim se convence toda a gente que a austeridade, a recessão e a destruição do Estado Social são inevitáveis. Como uma lei da natureza que nem vale a pena discutir.

Em 2009, a esmagadora maioria dos islandeses disse, em referendo, que não queria a “ajuda” do FMI nas condições previstas para pagar as dívidas da sua banca. Irresponsáveis, disseram muitos. Entregavam-se ao suicidio. Foram para eleições e no dia 25 de Abril desse ano tinham um novo governo, dirigido por uma renovada Aliança Social Democrata aliada ao Movimento Verde de Esquerda. Saiam do poder os que foram responsáveis pela cedência dos recursos naturais islandeses a multinacionais e pela privatização dos três principais bancos. Os mesmos bancos que viriam a enfiar a Islândia numa aventura financeira com um fim catastrófico depois de, em 5 anos, emprestarem o correspondente a dez vezes o PIB nacional. Sairam do poder os que fizeram o que, há uns anos, os sábios que agora culpam o excesso de Estado pelo estado em que estamos diziam ser inevitável.

Os islandeses mudaram a Constituição, desvalorizaram a moeda, avançaram com uma reforma fiscal severa, cortaram na despesa sem destruir os serviços públicos de que se orgulham. Houve uma renegociação com o FMI, para garantirem o financiamento, mas, graças à posição firme que os islandeses demonstraram nas ruas e nas urnas, em condições bem diferentes das que aqui, na Irlanda e na Grécia foram aceites. Ou era isto ou a Islândia daria o exemplo ao Mundo de como mandar a dívida às malvas. Os islandeses fizeram sacrifícios. Mas fizeram todos eles e com o objetivo real de sair da crise. No terceiro trimestre de 2010 já tinham saído da recessão.

Esta semana, os islandeses voltaram a rejeitar o pagamento da dívida dos bancos ao Reino Unido e à Holanda. Acham, coisa estranha, que não têm de pagar pelos erros dos banqueiros e pela decisão daqueles países em usar dinheiros públicos para cobrir prejuízos privados.

Neste segundo referendo apenas sessenta por cento votou contra o pagamento, contrariando a posição do governo de esquerda e indo de encontro à posição do Presidente. No anterior, o “não” tinha recebido 93 por cento dos votos. Desta vez o que estava em causa era cobrir o mínimo de vinte mil euros por depositante e não o total pago aos investidores pelos governos britânico e holandês. Desta vez os juros eram entre 3,0 e 3,3 cento, a pagar entre 2016 e 2046, e não os mais de cinco por cento que antes lhes eram exigidos. Desta vez, só dez por cento dos pagamentos viriam dos impostos, sendo o resto conseguido através dos recursos obtidos com a venda de ativos do banco Landsbanki, casa-mãe do Icesave.

Graças ao isolamento financeiro de que são alvo e das ameaças judiciais, é provável que os islandeses acabem por ceder. Mas em condições bem diferentes das que foram aceites pela Irlanda. Porque em vez de comer e calar estão a fazer um braço de ferro. Porque estão a medir forças numa negociação, não estão a aceitar imposições de quem se está nas tintas para a sobrevivência da sua economia. Também eles estavam e estão em estado de necessidade. Mas não aceitaram ser liquidados sem luta.

Holanda e Reino Unido prometem processar a Islândia por tamanha ousadia. A Europa diz que o País só será aceite na União se pagar as suas dívidas. A banca está a fazer um cerco ao País. Mas a verdade é que os desobedientes islandeses estão bem melhor do que os irlandeses e do que os gregos. Orgulhosos por serem a pequena aldeia gaulesa que mostra ao mundo que é possível dizer “não” ao processo global de transferência de recursos públicos para cofres privados. No fim encontrarão uma solução. Os que não resistiram apenas apenas encontraram a rendição.

no Expresso