demokratia, demo kratos, demo quê?! como?! para quem?! democracia.

Os exemplares!, imaculados morais!, defensores da democracia!, e do que ela representa, deram-nos uma amostra do que é para eles de facto a “democracia”, dúvidas houvessem ainda, para alguns, sobre o quão demo kratos muitos destes indivíduos são.

a democracia não é um cheque em branco Bernardino Soares

Ficam chocadíssimos com a postura dos estudantes [e dos cidadãos portugueses], querem a todo instante que calem e comam o que andaram a cozinhar durantes estes anos com a troika, e com a desculpa da mesma e da crise. Haja coragem, força, motivação e sentido de ideal de academia para os estudantes, haja também sentido de ideal e comunidade para o país. É que demokratia na boca de determinadas pessoas, bem como a sua prática, lembra mais o demo no sentido de divisão do povo e não um governo em que o povo é soberano.

Deixo aqui a lição demo kratos que a Assembleia de República pelos seus “ilustres” deu ao país. Tem sido um comunista a fazer isto e era o totalitarismo autoritário, como foram os demo kratos – os que usam o poder para dividir o povo – é demokratia!… queriam eles!, e que vingasse. Deviam ter nascido noutra época já que parece que não são tolerantes a diferentes opiniões e que estas os fazem clivar em crescentes dissonâncias cognitivas…

Bernardino lembrou, e bem, a poesia de Brecht: “Do rio que tudo arrasta, se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”.

adeus Stéphane Hessel

Faleceu hoje Stéphane Hessel. A humanidade fica mais pobre.

Foi membro da resistência francesa e era o único redactor ainda vivo da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

Partilho, do artigo 21º

Caros amigos de Portugal,
[…]
Que fazer, então? Este mundo estranho e incerto deve desencorajar-nos e deixar-nos cair no pessimismo?
Não!

A nossa capacidade de indignação pode e deve levar-nos a acções construtivas, motivadas pela recusa da passividade e da indiferença.

Saber dizer não. Denunciar. Protestar. Resistir. Indignarmo-nos. Desobedecer, por vezes, ao que não nos parece justo e que põe em causa as liberdades e os direitos fundamentais.
Saber dizer sim. Agir. Combater. Participar na «insur­reição pacífica» que nos permite dar resposta a um mundo que não nos agrada.

Numa palavra: empenharmo-nos.

Stéphane Hessel

dizem os EUA à Venezuela: a nossa democracia é melhor. Carter prova que não!

EUA avisam que se Chávez não poder governar terá de haver novas eleições. 

Olha lá, que lição de democracia tão linda, a ingerência de um país, EUA, na política interna de outro país, Venezuela. Até parece que num, Venezuela, são súbditos de outro, EUA. Se fosse ao contrário já os EUA andavam a arranjar maneira de invadir o outro país… coisa que já fazem por petróleo e outras reservas de bens naturais…

Depois temos a realidade que se impõe e, diz-nos que nas últimas eleições o processo eleitoral na Venezuela foi fiscalizado pela Fundação Carter que diz que “o processo eleitoral na Venezuela é o melhor do mundo”. Já nos EUA embora os senhores estivessem in loco a convite do próprio governo americano, em diversos estados os observadores foram impedidos de realizar o seu trabalho. 

e assim sendo, EUA deviam procurar soluções internas, até porque relativamente à cultura da participação cívica nas eleições na Venezuela votaram 81% dos cidadãos elegíveis enquanto nos EUA votaram 57,5%.

liberdade e democracia: perspectivas do governo e do povo!

Disse o Governo, hoje, em comunicado que ”manifestações como aquela a que se assistiu nas instalações do ISCTE suscitam necessariamente o repúdio da parte de todos quantos prezam e defendem as liberdades individuais, designadamente o direito à livre expressão no respeito pelas regras democráticas”. Comunicado como reacção do Governo aos apupos dos estudantes do ISCTE com que Relvas se viu confrontado quando ia falar numa conferência que a TVI organizou de forma a comemorar os seus 20 anos de existência. Título da conferência “Como vai ser o jornalismo nos próximos 20 anos”.

Condição fundamental para que haja liberdade e democracia é o respeito, o respeito por nós próprios e o respeito pelos outros. Já sabendo o senso comum que para se ser respeitado há que dar-se ao respeito. Ora, este Governo tem em alguns dos seus membros o oposto desta lógica. Ou seja, não se dão alguns dos ministros ao respeito. Dizer que levar Relvas à universidade para versar sobre jornalismo, a não ser que vá falar sobre o totalitarismo e o lápis azul na comunicação social – tem experiência nisso, basta lembrar o caso em que o senhor ameaçou a jornalista do Público, é gozar com a cara da maioria dos portugueses, é pouco. É de facto um insulto. Querem maior prova de falta de respeito por todo um povo que os milhões que andam a injectar nos bancos privados à conta da exploração fiscal e económica de todos nós?!

Depois, muito mais insultuosa é a postura de alguns jornalistas da praça como José Alberto de Carvalho (TVI) que considera que o que os alunos fizeram foi um abuso, que ultrapassaram a sua liberdade de expressão porque interferiram com a do outro, neste caso a de Relvas. Ou seja, a TVI que se autodenominou nas palavras de J. A. Carvalho como sendo um canal de informação de referência (deixem-me rir que é para não chorar) faz uma manipulação do que aconteceu no ISCTE. Fica a parecer que os estudantes amarraram Relvas ao palanque, imobilizando-o, colocando-lhe fita cola na boca, para que ele não abrisse o piu!, ou então que o raptaram da sala! Não foi nada disto que aconteceu. Relvas escolheu, em conferência com J. A. Carvalho (como se pode ver no vídeo acima), ir-se embora. Podia ter ficado, esperava que os apupos acabassem (se acabassem) e falava. Decidiu que não tinha condições, que não estava mais para aturar as palavras que lhe eram dirigidas e saiu da sala. (Dinheiro Vivo foi dos poucos meios de informação que relatou de forma fiel o que se vê no vídeo). Também me parece, no mínimo, pouco inteligente que pensassem que levar Relvas a uma qualquer Universidade não ia causar indignação!…

A postura dos estudantes quanto muito dignifica a academia, traz alento a quem já não tem esperança de que as coisas mudem. É sinal que a academia está viva, que ainda se formam Pessoas na Universidade, seres pensantes e não papagaios. Pessoas que sentem na pele a incerteza do futuro pelo qual lutam dia-a-dia no presente. A academia sempre teve, desde que existe, ao longo dos períodos mais conturbados da nossa história um papel importante na construção da democracia do nosso país, lembro as lutas académicas dos anos 50 e 60. Pelos vistos os jornalistazecos, os comentadorzecos, os politicozecos, e outros tantos, que por aí andam a criticar a postura dos estudantes como se eles tivessem roubado alguém, deviam cultivar-se. Deviam indignar-se e revoltar-se, e comentar, e escrever sim, mas sobre os que há anos vilipendiam os sonhos de muitos, os que se fazem eleger com palavras ocas e depois vendem o povo e o país por meia dúzia de tostões só pra proverem ao seu próprio umbigo. Por certo o canal de televisão TVI, daqui a 20 anos, não irá convidar para falar sobre jornalismo uma figura que obteve o seu grau académico de forma, digamos, pouco transparente e pouco meritória – se aprendeu qualquer coisa com o que se passou ontem!

Num país assolado pela falta de ideais, pela falta de políticas coerentes, sérias e progressistas, pela má distribuição do dinheiro, pelas dificuldades que daí decorrem, pelas pessoas que não têm que comer ou que têm cada vez menos, o jornalismo sério e de referência – tal como a política – precisa de gente séria que o leve a cabo, que o cumpra. Tomara que o exemplo que os estudantes deram hoje se multiplicasse país fora. Podia ser que alguns ganhassem consciência, prefiro-a ao medo, que é a arma que o Governo tem andado a utilizar para estrangular a democracia neste país. Vêm depois qual paladinos falar de democracia e liberdade. Forjem uma consciência, talvez precisassem mesmo de ir frequentar a universidade, ou um trabalho que os colocasse cara-a-cara com as pessoas que todos os dias lutam e trabalham por um país melhor. Este discurso higiénico sobre a democracia e as liberdades deviam ser obrigados a engoli-lo em consciência, tivessem-na e, algum sentido de decência, de carácter.

O país é o reflexo do ideal colectivo que venceu nas últimas eleições, como as políticas deste Governo reflectem o ideal colectivo de país definido e executado pelos seus membros. O que não quer dizer que o ideal colectivo de país definido e executado em vigor seja o mesmo que venceu nas últimas eleições. Basta lembrar as promessas eleitorais e olhar para o que de facto foi, e é, feito.

Contudo, a democracia e a liberdade de expressão política não se esgotam no voto. O problema dos políticos “profissionais” (que muita gente gosta de defender, como se a política não estivesse inerente à maioria das actividades quotidianas de todos nós) é que vivem da bíblia que depois de serem eleitos já não precisam de quem os elegeu para nada; mas o problema maior é que quem neles votou não é o primeiro a pedir-lhes responsabilidades e a exigir que se demitam quando está mais que visto que capacidades para governar o país são inexistentes.

NOTA: Caso alguém tenha dúvidas, ou falta de bom senso, o protesto é uma forma de liberdade de expressão democrática. Para alguns saudosos do Salazarismo é que esta coisa de se ser confrontado com as escolhas políticas que se fazem em nome de todos nós (também isto é participação política) é além de chato, “asfixia democrática”.

P.S.: espero que o curso que a TVI anunciou que irá promover juntamente com o ISCTE não tenha professores do calibre de Relvas.

por cá também se defende a Moção de Censura a este (des)Governo

de facto, este Governo vive acima das minhas possibilidades.

Dizemos aqui ao Ministro Mota Soares, rejeitamos totalmente a ideia de que o país é um país de preguiçosos e de aldrabões que andam a enganar o governo e a receber subsídios que não deviam. Isso não são os portugueses, podem ser alguns com quem os senhores se relacionam mas não são os portugueses, os portugueses não são aldrabões e não são preguiçosos. Quem vive à conta do orçamento não são os pobres são os ricos e isso é que os senhores não querem mudar e por isso é que sempre acusam os pobres de serem aldrabões e de serem preguiçosos.  Bernardino Soares

Nada de novo na AR.

Moções de censura apresentadas pelo PCP e BE rejeitadas.

Votos contra PSD/CDS, abstenções PS. A conivência é vergonhosa quer a nível nacional quer a nível local.

Protesto frente à Assembleia Municipal de Silves, amanhã!

Eu vou. E tu? Vais deixar o destino da tua Junta de Freguesia, das associações e colectividades, e do nosso concelho em mãos alheias?
Partilha.
Participa no protesto amanhã, pelas 21h, frente à Assembleia Municipal de Silves!
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A Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines vai organizar amanhã, dia 27 de Setembro pelas 21h, um protesto junto ao edifício da Assembleia Municipal de Silves (à Praça Al´ Muthamid) com o objectivo de reivindicar o pagamento das verbas que a Câmara Municipal deveria ter transferido no início de 2012 para as Juntas de Freguesia do concelho.
Há cerca de 9 meses que as Juntas de Freguesia estão sem receber as transferências, vivendo uma grave situação financeira o que afecta as suas actividades e o pagamento dos salários aos respectivos funcionários.

A realização deste protesto foi decidida em reunião pública realizada no dia 25 de Setembro do corrente na Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines. Além do presidente da Junta de Freguesia de São Bartolomeu de Messines estiveram ainda presentes os presidentes das Juntas de Freguesia de São Marcos da Serra e de Alcantarilha que manifestaram a sua solidariedade e o apoio a esta iniciativa.Entretanto está a circular no concelho um abaixo-assinado e uma petição online dirigida à Câmara Municipal de Silves exigindo que a autarquia cumpra com os seus compromissos para com as Juntas de Freguesia do Concelho.Divulga esta iniciativa! Solidariza-te! Participa! O Futuro é teu!

Ter memória: o que faz falta é avisar a malta!

Em 1975, Novembro, apesar dos trabalhadores da construção civil em greve se terem manifestado frente à Assembleia da República e terem visto o VI Governo Provisório, após 3 dias de cerco, dizer que iria satisfazer os seus pedidos de aumento de salários e melhores condições de vida, deu-se a contra-revolução que nos trouxe pela mão de uns poucos ao estado a que o país se encontra hoje!
Portugal já não tinha colónias apesar dos fascistas infiltrados nas forças armadas terem tentado adiar a descolonização. De forma a limitar os direitos dos trabalhadores em Portugal, há pouco conquistados e marcar uma posição, o VI Governo Provisório recusou demitir-se e entrou em confronto com os militares ditos revolucionários no geral. O VI Governo não podia permitir que as classes trabalhadoras ditassem as regras, afinal a burguesia já tinha perdido os investimentos feitos em Luanda. Com as divisões no seio do Movimento das Forças Armadas que já vinham detrás e, sem organização de resistência os Comandos controlados pela direita prenderam os militares conotados com a esquerda. Os Comandos que tinham servido na guerra colonial foram usados como meio para quebrar a luta das classes trabalhadoras. O Governo parou as negociações com os trabalhadores e não aumentou os salários como tinha prometido aos trabalhadores da construção civil. O estado social já na altura deu lugar ao estado policial. O VI Governo voltou a armar a polícia e a guarda nacional republicana para conter e lutar contra os trabalhadores em greve pelos seus direitos, para retirar as pessoas das casas que tinham sido ocupadas a seguir ao 25 Abril. Os indivíduos conotados com a esquerda foram removidos da rádio e televisão, os jornais passaram para controlo do Governo. Juntamente com os Comandos a GNR fez rusgas a casas e cooperativas à procura de armas mas nunca as encontraram. Os agricultores conotados com a direita organizaram ataques às cooperativas e à reforma agrícola.
O VI Governo recusou-se a reconhecer a liderança de Angola pelo MPLA e neste contexto os ataques bombistas conotados com Spínola aumentaram, principalmente a escritórios angolanos e moçambicanos, sedes de partidos de esquerda e à embaixada de Cuba.
Quando oiço dizer que o 25 de novembro trouxe a democracia não sei se hei-de rir do ridículo da afirmação ou de chorar porque no fundo o que o VI Governo Provisório colocou em marcha foi o restabelecimento do controlo do país pela burguesia (fascista ou não) e a sua soberania sobre as classes trabalhadoras. Plano sempre encapotado pelo discurso que se vestia de democracia e de liberdade mas que vendia o trabalho português descapitalizado de forma a ser atractivo para investimentos estrangeiros.
Otelo concorre a eleições para a Presidência da República, Eanes na altura Tenente-Coronel, depois de ter dirigido as operações do 25 de Novembro, também concorreu. Ainda que em campanha em Évora os seus seguranças tenham disparado sobre cidadãos portugueses, que se manifestavam desarmados, causando mortos e feridos, Eanes ganhou na mesma as eleições com sessenta e tal por cento dos votos!!!!!! Entretanto Eanes nomeou Mário Soares primeiro-ministro do I e II Governos Constitucionais, afinal tinha sido eleito com o apoio do PS. Outro facto fantástico: ano e meio depois, Spínola* que tinha sido exilado (Espanha e Brasil) pôde regressar a Portugal e foi reintegrado no Exército. O ciclo de sucessivas governações que nos trouxeram aqui começou lá bem atrás e as reivindicações de hoje não são muito diferentes das de antigamente. Podemos ter melhores condições materiais de vida hoje do que há trinta e tal anos atrás, mas como na altura essas condições estão agora em perigo de se tornarem cada vez mais precárias. Se é que o trabalho foi vilipendiado num tão curto espaço de tempo como agora…

*Spínola que queria preservar o aparelho da Pide na sua maioria!, como refere o capitão de Abril, Dinis de Almeida.

Moral da história: as conquistas ou são concretizadas até ao fim ou se ficam pelo meio, e se deixam amenizar pela conquista de umas poucas reivindicações que já foram direitos conquistados, mais tarde ou mais cedo são retiradas uma e outra e outra vez. De facto, a história repete-se. Esperemos que o fim seja outro!

O que faz falta é avisar a malta! O que faz falta!

Para uma análise mais pormenorizada do 25 de Novembro, “a Verdade e a Mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se

notas de leitura: Carl Jung, o indivíduo e a política

Dizia Jung em 1938* Não há nenhum país civilizado nos dias de hoje onde as camadas baixas da população não estejam num estado de inquietação e de oposição. Em vários países europeus tal condição está também a tomar conta das camadas altas. Este estado de coisas é a demonstração do nosso problema psicológico numa escala gigantesca. Na medida em que as colectividades são meras acumulações de indivíduos, os seus problemas também são acumulações de problemas individuais. Um conjunto de pessoas identifica-se com o homem superior e não pode descer, e o outro conjunto identifica-se com o homem inferior e quer alcançar a superfície.

Jung descreveu a luta entre o ego e o inconsciente como uma luta de poder. Nesta luta quando um complexo inconsciente se apodera do ego há “possessão”. Quando o ego toma o controlo de certos atributos inconscientes do self existe “inflacção”. Jung comparou a transformação progressiva desta luta de poder no processo de individuação a uma sequência de regimes políticos. Ele denomina a unidade inconsciente inicial da psique de tirania do inconsciente. Na situação onde o ego é predominante ele compara-a a um sistema tirânico de um partido. Quando o ego e o inconsciente negoceiam na base da igualdade de direitos, a relação assemelha-se a uma democracia parlamentar.

Portanto, em Portugal, na maior parte das pessoas, vinga a predominância do ego nessa luta de poder?! Que importância tem esta questão? Jung acredita que a solução para os problemas com que nos deparamos de momento começa com uma mudança nos indivíduos, e que apenas a acumulação das mudanças individuais irá produzir uma solução colectiva.

Contudo, a intolerância, contraproducente à mudança do indivíduo, está em crescendo. O dia de hoje mostra com terrível clareza quão pouco as pessoas capazes estão disponíveis para que o argumento do outro seja levado em conta, apesar desta capacidade ser condição fundamental e indispensável para qualquer comunidade humana. Todo aquele que se propõe chegar a acordo com ele próprio deve contar com esse problema básico. Pois, na medida em que ele não admite a validade da outra pessoa, ele nega ao “outro” dentro de si o direito de existir – e vice-versa. A capacidade de diálogo interior é pedra de toque para a objectividade exterior. (Jung**)

Diálogo interior… essa coisa para a qual a sociedade de consumo vai arranjando desculpas para que não tenha lugar, porque não há tempo, porque as tarefas são muitas, porque parar é morrer… muitas vezes morre-se, vai-se definhando, porque não se pára! Parar para termos consciência do nosso auto-desenvolvimento, de forma a entendermos a nossa particularidade, como nos tornamos nós próprios em nós mesmos – a individuação de Jung; não a individualização corrente da sociedade do consumo, feita pela diferenciação do que se tem e deixa de se ter em termos materiais. A análise importante é quem se foi, é, e pode vir a ser. Sendo nós seres humanos animais de hábitos, como tudo, o diálogo interior exige prática.

Claro, este diálogo interior necessita de diálogo e integração com o contexto em que vivemos, as suas regras, as suas instituições, as suas práticas***… – a que a linguagem dá corpo – não o pactuar complacente com o status quo mas o seu questionamento. A nosso ver, tanto a psicologia como a ciência política partilham o objectivo comum de ajudar-nos a pensar o que fazemos.

*Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1958). The collected works of C.G. Jung: Vol. 2. London: Routledge and Kegan Paul.

**Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1977). The collected works of C.G. Jung: Vol. 18. London: Routledge and Kegan Paul.

*** Beger, P. & Luckmann, T. (2010). A construção social da realidade: Tratado de sociologia do conhecimento. Lisboa: Dinalivro.

o ps de seguro é igual ao de sócrates

O PS ao abster-se na moção de censura, que o PCP apresentou ao actual Governo PSD CDS-PP, indicia exactamente, ao contrário do que o PS tem dito e que hoje reiterou de que com Sócrates seria diferente, que defende exactamente o mesmo que este governo PSD.

Quanto à conversa de treta que Seguro propaga qual papagaio de que “não consigo imaginar como é que o país consegue ter mais medidas de austeridade”,  é isso mesmo, conversa de treta. Se realmente quisesse mudança e diferença então tinha votado favoravelmente a moção de censura. O problema é que o PS também anda sob toque de vara da outra senhora. Parece que nos ditos “principais partidos” gente de fibra, que defenda o seu país e os interesses do mesmo, é coisa escassa; vassalagem deve ser palavra-senha de acesso às cúpulas…

Violência, Linguagem e Psicologia: enquadramento de uma imagem!

Foto de criança palestiniana lavando o chão do sangue do irmão assassinado por bombas das Forças de Defesa Israelitas (IDF)

Vi esta imagem que o Pedro Pereira Neto tinha partilhado no seu facebook. O texto que originalmente vinha com ela era este~

Alguém no facebook dizia que a censura das fotos de nus e sexo, se devia às crianças, que agora podem ter acesso ao face. Uma criança não tem maldade, essa maldade e repúdio é lhes transmitidas pelos adultos, preocupa me bem mais a violência macabra a que milhares de crianças estão sujeitas diariamente pelos adultos. “Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.” John Lennon

O Pedro por sua vez fez uma observação pertinente:

“se fosse na Síria seria notícia de 1ª página/abertura em todos os media ….. é na Palestina “é um dano colateral que lamentamos”

E é sobre esse enquadramento que muitas vezes se dá a algo que acontece recorrendo, para tal, a umas palavras em detrimento de outras que me quero debruçar. Já pensaram por que é que os agentes do governo se referem a civis mortos por bombas militares como “dano colateral” ou a assassinatos como “privação ilegal da vida?”. Porque estes termos expressam muito pouca emoção. E porquê usar palavras que têm pouca carga emotiva? Porque tu e eu geralmente respondemos somente a coisas que nos preocupam, explica a psicologia. Se as palavras ou imagens ou acções despertam nenhum sentimento em nós, não somos susceptíveis de responder a elas. Se não respondemos a elas, não vamos pensar sobre elas. Se nós não pensamos sobre elas, não vamos fazer nada sobre elas. Se não fizermos alguma coisa sobre elas, então quem está no poder pode continuar a fazer tudo o que deseja. Mesmo que não tenham o nosso consentimento, não despertam sequer a nossa oposição, se não tivermos consciência deste efeito.

No outro extremo do uso de linguagem amorfa, não-emotiva que nos impede de responder e pensar em realidades desagradáveis, existem aqueles que usam a linguagem principalmente pelo seu poder emotivo. Aí usam palavras que funcionam como os nomes dos detergentes ou assassinos em série: palavras que principalmente ou exclusivamente transmitem sentimentos, palavras que têm pouco ou nenhum conteúdo cognitivo. Exemplo disso são as associações contra o aborto que usam palavras cujo objectivo é despertar muitas emoções com muitas referências a matar “inocentes” ou “indefesos” por nascer.

Muitas palavras e expressões transmitem nada mais do que uma atitude positiva ou negativa. Palavras como distinguir um empresário de uma empresária. Um empresário é assertivo; uma empresária é insistente. Um empresário é meticuloso, uma empresária é exigente. Ele perde a paciência, ela é mal-intencionada. Ele fica deprimido, ela é temperamental. Ele é persistente, ela é histérica. Ele está confiante e auto-confiante, ela é arrogante. Ele é um solitário, ela é indiferente. Ele é firme, ela é teimosa. Ele é firme, ela é bombástica. Ele é uma pessoa privada, ela é secreta. Ele toma decisões rápidas, ela é impulsiva. Ele é apenas humano, ela é emocional. A diferença de atitude explica por que termos diferentes são usados para descrever um mesmo comportamento tratando-se de homens e mulheres, uma diferença geralmente designada pelo termo altamente emotivo, “sexismo”.

Como linda, maravilhosa, boa, grande e bela normalmente são usadas para expressar aprovação, considerando-se palavras como tendo um conteúdo emotivo positivo. Palavras como repugnante, desprezível, mau, estúpido e feio são usadas geralmente para expressar desaprovação. Algumas palavras, como tangente e neutrão, não têm conteúdo emotivo, não são usadas para expressar uma atitude, mas são usadas apenas pelo seu conteúdo descritivo ou cognitivo. Muitas palavras, no entanto, são usadas para expressar um significado cognitivo e emotivo, a sua função não é apenas descrever algo ou transmitir informações, mas também expressar uma atitude sobre isso. Por exemplo, o que uma pessoa poderia chamar de “um assassinato bárbaro e selvagem”, outra pode referir-se como “um homicídio.” As suas atitudes diferentes são expressas pela sua escolha de palavras diferentes, embora o seu significado cognitivo seja idêntico (ambas as expressões descrevem o assassinato de um ser humano).

Os profissionais da persuasão seja no aceitar/veicular ideias ou valores, incentivar à compra de produtos ou votar em candidatos, sabem como seleccionar palavras e imagens que são susceptíveis de provocar respostas emocionais. Eles sabem o poder da linguagem carregada, ou seja, linguagem altamente emotiva que visa evocar uma resposta através de emoções, como o medo e a esperança, ao invés de através do pensamento. Como um defensor anti-aborto americano, que ouvi, disse uma vez, basta juntar as palavras “bebé” e “matar” – ninguém resiste a essa!

Na persuasão da opinião pública com o intento de a ganhar para a persecução de determinadas políticas passa-se o mesmo.

A imagem que aqui deixo é arrepiante. Imaginem uma criança vossa conhecida a ter de passar por isto, como vos é próxima o pensamento sobre torna-se impensável! Como colocou Diogo Cunha, um amigo do Pedro, e eu subscrevo na íntegra:

Essa imagem é a manifestação visual da degradação da humanidade; da má divisão do trabalho e do poder, do errado uso do conhecimento, da hierarquização nefasta. É o Terceiro Mundo na medida em que não há nem deuses, nem homens, apenas sobram as brumas da morte. Que imagem terrível, mas, simultaneamente, profética: será esse o futuro? Degeneramos ou regeneramos?