psicologia e crise

a opinião de Telmo Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, no Expresso:psicologia e crise

e uma outra opinião, a do Professor Luís Fernandes – FPCEUP, retirada do Porto24 onde escreve habitualmente:

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Corria o ano de 1975 e nas montras das lojas de discos aparecia, rutilante, um LP com uma capa sugestiva: um indivíduo de calções e óculos de sol refastelava-se numa cadeira gozando as delícias do verão à sombra dum guarda-sol. Coisa banal? Não. É que o que o rodeava não era a praia, mas uma lixeira. Uma bela lixeira, uma lixeira bem surtida, e ele impávido em cima dos escombros do consumismo como quem está na esplanada. Assim era a capa do Crisis? What crisis?, dos Supertramp.

Sobre o cenário da atual crise já se pronunciaram inúmeras personalidades e entidades. Cruzam-se e atropelam-se análises e opiniões, variando no grau em que são capazes de influenciar a nossa percepção do que se está a passar, daquilo que o causou ou daquilo que nos encaminhará para uma saída. E tantas coisas já se disseram, tantas e às vezes tão contrárias entre si, que já deixei de me preocupar, porque já estou incapaz de realizar uma síntese de tanto elemento disperso. Criei a minha própria versão da crise, acredito nela como um escritor acredita na sua ficção – e assim levo os dias adiante, sentado nas pequenas certezas que me tranquilizam.

De onde saem tantos opinion makers? De vários lados. Consideremos o caso dos bastonários das ordens profissionais. A relevância social de algumas profissões torna os bastonários das respetivas Ordens influentes vozes públicas. Quem não conhece Marinho Pinto? Ou José Manuel Silva? Advocacia e medicina são ofícios antigos, com o papel e a imagem mais do que consolidados.

E os psicólogos? Constituem um corpo profissional ainda jovem no panorama português. Há 30 anos, o cidadão comum sabia apenas dum modo muito vago para que serviam, e foi com a demonstração do valor da psicologia nos mais diversos contextos da vida social que os psicólogos, pouco a pouco, foram complexificando a imagem que deles hoje se tem e se foram afirmando como construtores dum saber e duma prática importantes na nossa sociedade.

Foram aumentando em número à medida que crescia – aliás exageradamente – a oferta universitária de cursos de psicologia. E, num mundo marcado pela desregulação, foram capazes da ordem – da Ordem, que finalmente, ao fim de anos de espera, se tornou realidade.

O grande público sabe quem são Marinho Pinto ou José Manuel Silva, mas poucos ainda saberão quem é Telmo Baptista. Está na hora de saberem que também o bastonário da Ordem dos Psicólogos se pronunciou sobre a crise. Ora vejamos 2 passagens do seu editorial no n.º 2 da revista da Ordem dos Psicólogos portugueses, acabada de dar à estampa em Abril: “A sociedade como um todo tem de lidar com as consequências da crise, o aumento da depressão, do suicídio, das perturbações ansiosas e do stress, o impacto generalizado na qualidade do trabalho, e talvez o pior de tudo, um sentimento de desesperança, que é prenunciador de uma falta de vontade para agir e confrontar a situação em que nos encontramos.”

Não sou capaz de desmentir as suas palavras. Nem de as reiterar, posto que não creio que se baseie em algum estudo sobre as consequências psicológicas da crise. Seja como for, o que diz é verosímil, e cada um de nós no seu contexto próximo encontrará exemplos que o ilustram. Mas há sempre o outro lado. No meio do panorama desanimador que a crise instalou, os psicólogos, pelos vistos, hão de ser dos poucos que têm razões para sorrir: atente-se na esplêndida clientela que a nefanda crise se arrisca a produzir! Atenção malta da comportamental-cognitiva, da centrada no cliente, da psicanálise (a longa e a breve), atenção malta do psicodrama (o moreniano e o psicanalítico), dos grupos de encontro, dos grupos balint, da grupanálise, da musicoterapia, da respiração holotrópica, da bioenergética – atenção, especialmente, malta da terapia pelo grito!

Não basta, porém, enunciar os problemas, é preciso apontar saídas. E é o que faz Telmo Baptista quando alerta: “Por isso temos de ser mais claros na afirmação da psicologia como um conhecimento válido e importante para sair da crise. Nós sabemos muito bem o que são crises, e o que fazer para sair delas.”

Eis aquilo que nunca me tinha ocorrido: que os psicólogos fossem o contrário dos políticos. A vocação destes para empurrarem países inteiros para o sofrimento da crise é simétrica da capacidade dos psicólogos para abrirem o caminho da saída. E, enquanto durar o período datroika, em que os psicólogos pouco poderão fazer pela crise geral, possa ao menos a Ordem tornar realidade para aqueles que representa a excelente frase “nós sabemos muito bem o que são crises e o que fazer para sair delas”.

Mais a sério agora: não ignoro nem discuto as virtualidades da intervenção psicológica perante cenários de crise, sejam pessoais, conjugais, familiares ou organizacionais. Mas tenho às vezes receio de que o fervor na afirmação do poder dos psis (psicólogos, psiquiatras e outros especialistas daquilo a que já alguém chamou sociedade terapêutica) circunscreva os problemas à sua dimensão individual, mascarando involuntariamente as suas raízes sociais.

O reducionismo individualizante tem um problema de focagem: recortando com grande nitidez o indivíduo, desfoca as razões supraindividuais daquilo que ele experimenta como problema aparentemente pessoal. E isto corresponde a esvaziar o conteúdo de denúncia política que pode conter o sofrimento individual, como é bem o exemplo da figura do desempregado de longa duração, agora coagido à “procura ativa de emprego”, como se resultasse da indolência ou duma espécie de desafeção pelo trabalho o estar na situação em que está.

A afirmação dos poderes de tendência neoliberal tem avivado os mecanismos estruturais produtores de desigualdades e dificultado a garantia pelo respeito, pela dignidade e pelos direitos dos cidadãos – porque é nessa dificuldade que reside a grande fonte do mal-estar nas sociedades ditas do bem-estar. O que esta crise tem mostrado é que a atual maneira de governar, na subjugação aos poderes financeiros e a esferas de interesses dificilmente escrutinadas pelos fragilizados mecanismos dos poderes democráticos (eis uma palavra a necessitar de ser repetida), o que esta crise tem mostrado, dizia, é que as aparentes saídas para a sua resolução estão afinal a aprofundar tais mecanismos.

A psicologização dos problemas pactua, embora involuntariamente, bem sei, com o inimigo: porque ajuda à desfocagem das razões e dos agentes que nos trouxeram até este ponto. O advento dos psicofármacos, cujo valor terapêutico não está em causa, também serviu para docilizar as massas castigadas pelo trabalho intensivo, pela rotina e pela insónia – e os que nos tiravam o sono contavam as notas enquanto engolíamos a pastilha.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Europa em crise: economia, mercados e pessoas

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Questões que geram consciência, pense-se nelas!

“Mas a economia e o mercado preocupam pessoas reais em diferentes posições de poder, com diferentes projectos de vida e a capacidade de mobilizar diferentes tipos de recursos dentro de prazos diferentes. Para a maioria – os 99% no Park Zuccotti ou os Indignados em Espanha (e em Portugal também, acrescento eu!) – trata-se de tentar fazer uma vida modesta e ver as próximas gerações começarem um projecto de vida esperançoso.

(…)

O que é a economia para diferentes grupos de pessoas?

Como é que os conceitos dos especialistas são reconfigurados e percebidos e, como é que eles medeiam a prática na vida das pessoas comuns?

(…)

Mas principalmente, o que queremos abordar aqui é, muito simplesmente, como é que as pessoas conseguem obter os recursos materiais para a vida? Como é que eles fazem projectos para as gerações futuras e como é que agem de forma a cumprir esses objectivos? Como é produzida a dependência (por exemplo, através da obrigação moral) e que recursos é que providencia? Como é que estas práticas estão envolvidas com modos particulares de responsabilidade? Como é que os significados particulares de bom e mau comportamento (concepções morais) influenciam áreas específicas de interacção?”*

em  Narotzky, S (2012). Europa em crise: economias populares e a viragem antropológicaEtnográfica, 16 (3), 627-638.

* tradução livre, minha

Espanha_Indignados

o primeiro-ministro preferia um nobel!

Sabe a psicologia que o nosso sistema sistema nervoso central não reconhece a negativa, talvez Passos Coelho interiorizasse melhor o que se passa no nosso país se no lugar da Moção de Censura se falasse do Nobel da Mentira; também desconfio que a cobertura jornalística fosse muito maior, mais séria, e as audiências também.

Até o calor abrasador que se sente no Algarve é bem mais sério que a abordagem que o Primeiro-Ministro Passos Coelho fez à Moção de Censura que muito bem e a tempo lhe foi apresentada.

A moção de censura do PCP ao Governo é dirigida contra o mundo e a realidade – Passos Coelho

Talvez a abordagem fosse mais séria se se tratasse do Nobel da Mentira. Passos, e este  governo, não perceberam ainda que “contra o mundo e a realidade”, pior contra os cidadãos portugueses são as políticas que têm aplicado.  Mas como se não bastasse a falta de consciência que a frase acima revela, continuou:

Quem nunca se deixou enganar pelo PCP foi o povo português – Passos Coelho

Pois! O PCP nunca enganou o povo é verdade, a história assim o tem demonstrado. Durante todos estes anos não contribuiu para o estado miserável em que se encontra o país; até com a actual crise do Euro se preocupou atempadamente. Em boa verdade os factos são que o PCP coloca as questões, incómodas ou não, na altura  devida. Quando há 20 anos atrás ninguém queria discutir o EURO, não havia interessados, o que interessava era avançar para a frente de maneira que ninguém visse a pertinência das questões levantadas e as consequências que agora esbarram connosco todos os dias, desemprego jovem a aumentar, condições de vida piores, assimetrias sociais e económicas em crescendo, etc. muitos quiseram mas como sempre foram etiquetados de “comunistas” que é como quem diz “são os gajos da cassete, dizem sempre o mesmo, não interessa, vivem alheados da realidade”. Nota-se! Nota-se o alheados que vivem da realidade…

Factos consumados, o PSD enganou reiteradamente, e continua a enganar, os cidadãos mas isto parece fazer pouca mossa na consciência dos quadros do partido (PSD) que continuam a tentar desviar o assunto sempre que se tenta perceber as incoerências intersticiais da sua organização. Vai daí, adoptam como estratégia – pouco elaborada, gasta como as cassetes desse tempo – o discurso populista que aqui se traduziu nas frases proferidas pelo Primeiro-Ministro e que aqui citámos.

Contudo, como vivemos numa era tecnológica – que chegou a ser a paixão de um outro primeiro-ministro que agora estuda filosofia em Paris depois de ajudar ao belo brilharete de afundar esta nação à beira-mar plantada – deixo aqui uma recolha das conversas que o actual primeiro-ministro andou a fazer durante a campanha eleitoral, uma compilação da autoria do blogue Aventar.

É sempre bom recordar: quem é que engana quem!?

Afinal vejamos algumas das passagens da a moção de censura do PCP ao governo:

Após mais de um ano de Governo e de aplicação do pacto de agressão, ao povo e ao país, que
constitui o memorando preparado e assinado com a União Europeia e o FMI pelo Governo PS,
subscrito por PSD e CDS e posto em prática pelo atual Governo, a situação nacional é
desastrosa. (…)

O projeto de regressão económica e social e de amputação da soberania aplicado pelo Governo
PSD/CDS está a destruir o país. (…)

Provoca uma recessão económica cada vez mais profunda, fazendo recuar a economia para
níveis de há sete anos atrás, destruindo vastos sectores de atividade, depauperando ainda mais o
setor produtivo e estrangulando as micro, pequenas e médias empresas. A falta de crédito à
economia, a manutenção de elevados custos de produção (designadamente energia,
combustíveis e telecomunicações), a destruição do poder de compra das famílias com a retração
violenta do mercado interno, a que se acrescenta um severo abrandamento das exportações,
deixam a economia nacional cada vez mais fragilizada e dependente.

É desfasada da realidade esta análise? Não é isto que se passa todos os dias? Dos que produzem aos que consomem? Ou as empresas têm aumentado os lucros? E os ordenados foram aumentados? E todos os cidadãos portugueses têm emprego digno? e condições de vida dignas? E o sistema nacional de saúde funciona cada vez melhor? E o ensino também teve melhorias?

Quando Passos Coelho diz que a análise do PCP “é dirigida contra o mundo e a realidade” está a dizer que não sabe nada do país que está a governar, ou melhor, que não lhe interessam as condições de vida e as vidas dos cidadãos que está a governar. É uma afirmação de protecção de um ego que se quer preservar a todo o custo, nem que isso signifique colocar milhões em sofrimento. Ora, é mesmo esta postura que se espera de um primeiro-ministro, de um governo e de partidos que não enganam o povo… Já que me quer roubar o futuro e à maioria dos portugueses ao menos que seja intelectualmente honesto! E radical sr. primeiro-ministro é a sua constante falta de consideração pela inteligência dos cidadãos portugueses; bem como a austeridade a que nos condena cegamente enquanto subserviente de uma ditadorazeca. Se o país tivesse um partido radical a esta altura não se dialogava na assembleia da república…

Quanto aos que nunca enganaram o povo, aqui fica a intervenção de Bernardino Soares

União Desportiva Messinense: futebol senior

Publico aqui o comunicado que me chegou da União Desportiva Messinense.

COMUNICADO

UDM suspende Futebol Sénior

A União Desportiva Messinense suspendeu sine die o futebol sénior por deliberação da Assembleia Geral Extraordinária realizada em 22 de de Junho do corrente, abdicando de participar, quer no próximo Campeonato Nacional da 3.ª Divisão quer nas provas Distritais.

A decisão tomada baseia-se em dois pressupostos: (i) o desinteresse competitivo do Nacional da 3.ª Divisão para a quase totalidade das equipas que vão descer aos distritais pelo facto deste escalão se extinguir na próxima época, e os elevados custos financeiros (sem nexo) que tal participação provocaria; (ii) a violenta crise financeira, económica e social que afeta o país, com reflexos negativos na angariação de patrocínios, donativos, subsídios e demais receitas, que por sua vez, conduz à criação de passivos elevados e incumprimento de compromissos.

Problemas complexos exigem soluções conscientes e corajosas sem mais delongas.

A UDM manterá e reforçará o projeto do futebol juvenil em todos os escalões, envolvendo cerca de duas centenas de atletas, numa linha de orientação estratégica, que levará ao reforço das ligações do Clube à comunidade local, e à autossustentabilidade financeira e desportiva no futuro.

A UDM optou por dar um passo atrás, convicta de que no tempo próximo, dará dois passos em frente, efetivando o saneamento financeiro, e retomando o projeto do futebol sénior com ambição mas à medida das capacidades próprias.

É fundamental a unidade entre Corpos Sociais, massa associativa e adeptos, por forma a que o Clube ultrapasse o momento crítico – o mais rapidamente possível -, e recupere a sua posição privilegiada no contexto do futebol regional, onde ganhou pergaminhos durante mais de uma década.

A Direção
24 de Junho de 2012

Nota minha: Felizmente que a vontade e a motivação de lutar pelo que se acredita não depende da crise. Ao clube e a todos os envolvidos desejo força, união e um futuro próspero.

Krugman e o regime do rendeiro

O que explica essa oposição a toda e qualquer tentativa de atenuar o desastre económico? Consigo pensar numa série de causas, mas Kuttner faz uma boa constatação: tudo o que estamos a assistir faz sentido se pensarmos na direita como representando os interesses dos rendeiros, dos credores que têm crédito do passado – obrigações, empréstimos, dinheiro – ao contrário de pessoas que realmente tentam viver através da produção material. A deflação é um inferno para os trabalhadores e os proprietários das empresas, mas é o paraíso para os credores.

(…)

Pensar no que está a acontecer como a regra dos rendeiros, que estão a ter os seus interesses servidos às custas da economia real, ajuda a fazer sentido da situação.

O que os finlandeses não sabem sobre Portugal | What Finns don’t know about Portugal

O vídeo que se segue foi apresentado pelo presidente da Câmara Municipal de Cascais, ontem, no encerramento das Conferências do Estoril. Independentemente de não concordar com as negociatas do Governo com a troika, nem com o plano de enterro financeiro do país elaborado pelos anteriores, o vídeo não será apenas para os Finlandeses mas também para que os Portugueses recordem quem são! Muitos parecem andar adormecidos e talvez este vídeo seja uma inspiração para despertarem!

The following video was presented by the Mayor of Cascais, yesterday, at the closure of the Estoril Conferences. Whether I disagree with the Government’s bargaining with the troika, or with the burial plan prepared by the country’s financial past, I think this video will not only serve to tell Finns who we are but also to remember the Portuguese who they are! Many seem to go numb and perhaps this video is an inspiration for awakening!

  

“Islândia, a aldeia viking que resiste”

Há coisas estranhas. Uma delas é a inexistência de notícias sobre um dos primeiros países sobre o qual se abateu esta crise. Vemos reportagens sobre a Irlanda e sobre a Grécia, mas nada, rigorosamente nada, nos contam sobre essa pequena e gelada ilha que decidiu seguir um caminho diferente: a Islândia. E assim se convence toda a gente que a austeridade, a recessão e a destruição do Estado Social são inevitáveis. Como uma lei da natureza que nem vale a pena discutir.

Em 2009, a esmagadora maioria dos islandeses disse, em referendo, que não queria a “ajuda” do FMI nas condições previstas para pagar as dívidas da sua banca. Irresponsáveis, disseram muitos. Entregavam-se ao suicidio. Foram para eleições e no dia 25 de Abril desse ano tinham um novo governo, dirigido por uma renovada Aliança Social Democrata aliada ao Movimento Verde de Esquerda. Saiam do poder os que foram responsáveis pela cedência dos recursos naturais islandeses a multinacionais e pela privatização dos três principais bancos. Os mesmos bancos que viriam a enfiar a Islândia numa aventura financeira com um fim catastrófico depois de, em 5 anos, emprestarem o correspondente a dez vezes o PIB nacional. Sairam do poder os que fizeram o que, há uns anos, os sábios que agora culpam o excesso de Estado pelo estado em que estamos diziam ser inevitável.

Os islandeses mudaram a Constituição, desvalorizaram a moeda, avançaram com uma reforma fiscal severa, cortaram na despesa sem destruir os serviços públicos de que se orgulham. Houve uma renegociação com o FMI, para garantirem o financiamento, mas, graças à posição firme que os islandeses demonstraram nas ruas e nas urnas, em condições bem diferentes das que aqui, na Irlanda e na Grécia foram aceites. Ou era isto ou a Islândia daria o exemplo ao Mundo de como mandar a dívida às malvas. Os islandeses fizeram sacrifícios. Mas fizeram todos eles e com o objetivo real de sair da crise. No terceiro trimestre de 2010 já tinham saído da recessão.

Esta semana, os islandeses voltaram a rejeitar o pagamento da dívida dos bancos ao Reino Unido e à Holanda. Acham, coisa estranha, que não têm de pagar pelos erros dos banqueiros e pela decisão daqueles países em usar dinheiros públicos para cobrir prejuízos privados.

Neste segundo referendo apenas sessenta por cento votou contra o pagamento, contrariando a posição do governo de esquerda e indo de encontro à posição do Presidente. No anterior, o “não” tinha recebido 93 por cento dos votos. Desta vez o que estava em causa era cobrir o mínimo de vinte mil euros por depositante e não o total pago aos investidores pelos governos britânico e holandês. Desta vez os juros eram entre 3,0 e 3,3 cento, a pagar entre 2016 e 2046, e não os mais de cinco por cento que antes lhes eram exigidos. Desta vez, só dez por cento dos pagamentos viriam dos impostos, sendo o resto conseguido através dos recursos obtidos com a venda de ativos do banco Landsbanki, casa-mãe do Icesave.

Graças ao isolamento financeiro de que são alvo e das ameaças judiciais, é provável que os islandeses acabem por ceder. Mas em condições bem diferentes das que foram aceites pela Irlanda. Porque em vez de comer e calar estão a fazer um braço de ferro. Porque estão a medir forças numa negociação, não estão a aceitar imposições de quem se está nas tintas para a sobrevivência da sua economia. Também eles estavam e estão em estado de necessidade. Mas não aceitaram ser liquidados sem luta.

Holanda e Reino Unido prometem processar a Islândia por tamanha ousadia. A Europa diz que o País só será aceite na União se pagar as suas dívidas. A banca está a fazer um cerco ao País. Mas a verdade é que os desobedientes islandeses estão bem melhor do que os irlandeses e do que os gregos. Orgulhosos por serem a pequena aldeia gaulesa que mostra ao mundo que é possível dizer “não” ao processo global de transferência de recursos públicos para cofres privados. No fim encontrarão uma solução. Os que não resistiram apenas apenas encontraram a rendição.

no Expresso

é assim que se lida e responsabilizam os que geraram e fomentaram a crise. E se fizéssemos o mesmo?

O parlamento islandês decidiu julgar, num tribunal especial, o ex-primeiro-ministro, que estava em funções quando o país faliu. Segundo a agência «France Press», Geir Haarde será acusado de «negligência» no processo que culminou com o crash do sistema financeiro do país em Outubro de 2008.

A decisão foi alvo de votação e aprovada por uma curta margem de 33 votos a favor e 30 contra.

Geir Haarde, de 59 anos, tinha chegado ao poder em 2006 e foi reeleito em 2007. Renunciou em Janeiro de 2009, por sofrer de um cancro.

Segundo várias sondagens, a maioria dos islandeses defende que Geir Haarde e vários ex-ministros sejam julgados pelo seu papel na crise que assolou o país, nomeadamente por nacionalizarem «de urgência» os principais bancos do país que tinham falido.

Para Portugal sair da crise, Boaventura de Sousa Santos

Em artigo publicado nesta sexta-feira no jornal Público, o sociólogo Boaventura de Sousa Santos diz que a receita do Fundo Monetário Internacional (FMI) para Portugal só vai causar o aprofundamento da crise, a exemplo de outros países onde ela foi aplicada. “Claro que pode haver complicadores”, ressalta. “Os portugueses podem revoltar-se. O FMI pode admitir que fez um juízo errado e reverter o curso, como aconteceu na crise da Ásia Oriental, em que as políticas do FMI produziram o efeito contraproducente”.

Começo por descrever os próximos passos do aprofundamento da crise para de seguida propor uma estratégia de saída. O que neste momento se está a definir como solução para a crise que o país atravessa não fará mais que aprofundá-la. Eis o itinerário. A intervenção do FMI começará com declarações solenes de que a situação do país é muito mais grave do que se tem dito (o ventríloquo pode ser o líder do PSD, se ganhar as eleições). As medidas impostas serão a privatização do que resta do sector empresarial e financeiro do Estado, a máxima precarização do trabalho, o corte nos serviços e subsídios públicos, o que pode levar, por exemplo, a que o preço dos transportes ou do pão suba de um dia para o outro para o triplo, despedimentos na função pública, cortes nas pensões e nos salários (a começar pelos subsídios de férias e de Natal, um “privilégio” que os jovens do FMI não entendem) e a transformação do SNS num serviço residual.

Tudo se fará para obter o seal of approval do FMI que restabelece a confiança dos credores no país. O objectivo não é que pague as dívidas (sabe-se que nunca as pagará), mas antes que vá pagando os juros e se mantenha refém do colete de forças para mostrar ao mundo que o modelo funciona.

Este itinerário não é difícil de prever porque tem sido esta a prática do FMI em todos os países onde tem intervindo. Rege-se pela ideia de que one size fits all, ou seja, que as receitas são sempre as mesmas, uma vez que as diferentes realidades sociais, culturais e políticas são irrelevantes
ante a objectividade dos mercados financeiros.

Feita a intervenção de emergência – que os portugueses serão induzidos a ver como uma necessidade e não como um certificado de óbito às suas justas aspirações de progresso e de dignidade –, entra o Banco Mundial para fornecer o crédito de longa duração que permitirá “reconstruir” o
país, ou seja, para assegurar que serão os mercados e as agências de rating a ditar ao país o que pode e não pode ser feito. Serão ocultadas as seguintes irracionalidades:

Que o modelo imposto ao mundo está falido na sua sede, os EUA; que o FMI faz tudo para servir os interesses financeiros norte-americanos, até para se defender do movimento que houve no Congresso para o extinguir;
que o maior credor dos EUA, a China, e segunda maior economia do mundo, tem o mesmo poder de voto no FMI que a Bélgica; que as agências de rating manipulam a realidade financeira para proporcionar aos seus clientes “rendas financeiras excessivas”.

Claro que pode haver complicadores. Os portugueses podem revoltar-se. O FMI pode admitir que fez um juízo errado e reverter o curso, como aconteceu na crise da Ásia Oriental, em que as políticas do FMI produziram o efeito contraproducente, como reconhece Jagdish Bhagwati, um respeitado economista e free trader convicto, em In Defense of Globalization. Se tal acontecer, não é sequer imaginável que o FMI indemnize o país pelo erro cometido.

Perante este agravamento concertado da crise, como buscar uma saída que restitua aos portugueses a dignidade de existir? Não discuto aqui quem serão os agentes políticos democráticos que tomarão as medidas necessárias nem o modo como os portugueses se organizarão para os pressionar nesse sentido. As medidas são as seguintes:

Realizar uma auditoria da dívida externa que permita reduzi-la à sua proporção real, por exemplo, descontando todos os efeitos de rating por contágio de que fomos vítimas nos últimos meses. Resolver as necessidades financeiras de curto prazo contraindo empréstimos, sem as condicionalidades do FMI, junto de países dispostos a acreditar na capacidade de recuperação do país, tais como a China, o Brasil e Angola. Tomar a iniciativa de promover um diálogo Sul-Sul, depois alargado a toda a Europa, no sentido de refundar o projecto europeu, já que o actual está morto. Promover a criação de um mercado de integração regional transcontinental, tendo como base a CPLP e como carros-chefes Brasil, Angola e Portugal. Usar como recurso estratégico nessa integração a requalifi cação da nossa especialização industrial em função do extraordinário avanço do país nos últimos anos nos domínios da formação avançada e da investigação científica.

(*) Director do Centro de Estudos Sociais, Laboratório Associado, da Universidade de Coimbra

é preciso ter consciência