Comemoração Centenário Álvaro Cunhal em Silves

No âmbito das comemorações do centenário de Álvaro Cunhal realiza-se hoje, às 21horas, na biblioteca municipal de Silves sessão pública e a passagem de um filme.

Participa!

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Álvaro Cunhal: exposição em S. B. Messines

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Carta a um amigo que não soube

A propósito da Sessão Cultural Evocativa do Centenário de Álvaro Cunhal

Fizeste-me falta, pá! Não por mim, que lá estive, mas por ti que não soubeste… Eu sei da felicidade que retiras destas coisas e da partilha que dela fazes. Foi isso que me fez falta: a tua felicidade.
Sabes como a malta é, pusemos a mesa com microfones e tudo, chamámos os jornais, chamámos as rádios, chamámos as televisões… Só para te avisar, pá. Era a forma mais expedita que tínhamos à mão, e gostávamos tanto de te ter por perto. Mas não, a coisa não saiu, ou saiu envergonhadamente. Sinais destes tempos sem vergonha.
Depois o Álvaro não é tipo que se ignore e o número era redondo – o centenário – mas mesmo assim tu ficaste sem saber. Tiraram-te esse direito.
Foi tão bonita a festa, pá.
Lembras-te daquela tirada do Álvaro que começa assim: «Arte é liberdade. É imaginação, é fantasia, é descoberta e é sonho. É criação e recriação da beleza pelo ser humano e não apenas imitação da beleza que o ser humano considera descobrir na realidade que o cerca»? Lembras-te? Foi o nosso guião. Foi o guião dos músicos, dos cantores e dos actores que passaram pelo palco. A melhor maneira de comemorar a liberdade é exercê-la e, como tu sabes, pá, evocar o Álvaro é projectá-la para os dias que hão-de vir, para as liberdades que hão-de vir. E são tantas, amigo, e são tantas as liberdades que nos faltam…
O Álvaro teve a casa cheia, pelas costuras. Tu sabes como a malta é, abrimos as portas de casa para que alguém te fizesse chegar uma pequena luz do que lá se passou. Mas, enfim, foi o costume: tiraram-te esse direito.
Fizeste-me falta, pá. Mas ainda te vou ver a sorrir. Temos uma prenda para ti: filmámos tudo. E assim damos um outro sentido à falta que me fizeste.
É que, como diz o Palma, “enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar, a gente vai continuar”.

Um abraço, pá
E até já!

Fernanda Lapa
Joana Manuel
João Monge
Luísa Ortigoso
Rita Lello
Samuel Quedas
Tavares Marques
Zeca Medeiros

“Álvaro Cunhal tinha razão. Os portugueses estão a pagar”

Hoje, quando a União Europeia navega em águas agitadas sem rumo perceptível e em que os chamados países periféricos sofrem as consequências de decisões que parecem tudo menos inocentes, é oportuno recordara voz lúcida de Álvaro Cunhal que na altura muitos acusaram de “velho do Restelo”. Quando os responsáveis políticos embandeiravam em arco com a adesão à Comunidade Económica Europeia e a entrada no “clube dos ricos”, quando a maioria do povo português embarcava na euforia da festa das remessas dos fundos estruturais e se empanturrava em betão a troco do abandono da agricultura, da extinção da frota pesqueira, do esvaziamento da marinha mercante, do encerramento de indústrias de base, Álvaro Cunhal alertava e repetia: os portugueses irão pagar isto. Era ouvido com cepticismo. Não me excluo, a palavra de Álvaro Cunhal levava-me a reflectir, mas deixava-me dúvidas.
Álvaro Cunhal tinha razão. Os portugueses estão a pagar isso.

Pedro Pezarat Correia

memória, presente e futuro

Álvaro Cunhal “[…] A revolução, com a liquidação dos grandes grupos capitalistas dominantes, com as nacionalizações e a reforma agrária, significou importantes e significativos passos na área social e na democratização cultural. A contra-revolução, na medida em que foi reconstituindo e restaurando o capitalismo monopolista, foi impondo e continua a impor medidas antidemocráticas nessas duas áreas.
A Revolução de Abril foi uma afirmação de independência nacional. A contra-revolução, uma história de capitulação ante interesses e imposições do estrangeiro.
No tempo da ditadura, da revolução e da contra-revolução, lutando com objectivos correspondentes a tão distintas situações, o PCP manteve sempre e mantém no horizonte o objectivo da construção de uma sociedade socialista em Portugal.
Uma sociedade nova e melhor, libertada da exploração e das grandes desigualdades e injustiças sociais.
A luta por este objectivo não contraria, antes dá mais claro sentido, à luta presente pela democracia e independência nacional. […]”
A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril – A contra-revolução confessa-se

 

Ter memória: o que faz falta é avisar a malta!

Em 1975, Novembro, apesar dos trabalhadores da construção civil em greve se terem manifestado frente à Assembleia da República e terem visto o VI Governo Provisório, após 3 dias de cerco, dizer que iria satisfazer os seus pedidos de aumento de salários e melhores condições de vida, deu-se a contra-revolução que nos trouxe pela mão de uns poucos ao estado a que o país se encontra hoje!
Portugal já não tinha colónias apesar dos fascistas infiltrados nas forças armadas terem tentado adiar a descolonização. De forma a limitar os direitos dos trabalhadores em Portugal, há pouco conquistados e marcar uma posição, o VI Governo Provisório recusou demitir-se e entrou em confronto com os militares ditos revolucionários no geral. O VI Governo não podia permitir que as classes trabalhadoras ditassem as regras, afinal a burguesia já tinha perdido os investimentos feitos em Luanda. Com as divisões no seio do Movimento das Forças Armadas que já vinham detrás e, sem organização de resistência os Comandos controlados pela direita prenderam os militares conotados com a esquerda. Os Comandos que tinham servido na guerra colonial foram usados como meio para quebrar a luta das classes trabalhadoras. O Governo parou as negociações com os trabalhadores e não aumentou os salários como tinha prometido aos trabalhadores da construção civil. O estado social já na altura deu lugar ao estado policial. O VI Governo voltou a armar a polícia e a guarda nacional republicana para conter e lutar contra os trabalhadores em greve pelos seus direitos, para retirar as pessoas das casas que tinham sido ocupadas a seguir ao 25 Abril. Os indivíduos conotados com a esquerda foram removidos da rádio e televisão, os jornais passaram para controlo do Governo. Juntamente com os Comandos a GNR fez rusgas a casas e cooperativas à procura de armas mas nunca as encontraram. Os agricultores conotados com a direita organizaram ataques às cooperativas e à reforma agrícola.
O VI Governo recusou-se a reconhecer a liderança de Angola pelo MPLA e neste contexto os ataques bombistas conotados com Spínola aumentaram, principalmente a escritórios angolanos e moçambicanos, sedes de partidos de esquerda e à embaixada de Cuba.
Quando oiço dizer que o 25 de novembro trouxe a democracia não sei se hei-de rir do ridículo da afirmação ou de chorar porque no fundo o que o VI Governo Provisório colocou em marcha foi o restabelecimento do controlo do país pela burguesia (fascista ou não) e a sua soberania sobre as classes trabalhadoras. Plano sempre encapotado pelo discurso que se vestia de democracia e de liberdade mas que vendia o trabalho português descapitalizado de forma a ser atractivo para investimentos estrangeiros.
Otelo concorre a eleições para a Presidência da República, Eanes na altura Tenente-Coronel, depois de ter dirigido as operações do 25 de Novembro, também concorreu. Ainda que em campanha em Évora os seus seguranças tenham disparado sobre cidadãos portugueses, que se manifestavam desarmados, causando mortos e feridos, Eanes ganhou na mesma as eleições com sessenta e tal por cento dos votos!!!!!! Entretanto Eanes nomeou Mário Soares primeiro-ministro do I e II Governos Constitucionais, afinal tinha sido eleito com o apoio do PS. Outro facto fantástico: ano e meio depois, Spínola* que tinha sido exilado (Espanha e Brasil) pôde regressar a Portugal e foi reintegrado no Exército. O ciclo de sucessivas governações que nos trouxeram aqui começou lá bem atrás e as reivindicações de hoje não são muito diferentes das de antigamente. Podemos ter melhores condições materiais de vida hoje do que há trinta e tal anos atrás, mas como na altura essas condições estão agora em perigo de se tornarem cada vez mais precárias. Se é que o trabalho foi vilipendiado num tão curto espaço de tempo como agora…

*Spínola que queria preservar o aparelho da Pide na sua maioria!, como refere o capitão de Abril, Dinis de Almeida.

Moral da história: as conquistas ou são concretizadas até ao fim ou se ficam pelo meio, e se deixam amenizar pela conquista de umas poucas reivindicações que já foram direitos conquistados, mais tarde ou mais cedo são retiradas uma e outra e outra vez. De facto, a história repete-se. Esperemos que o fim seja outro!

O que faz falta é avisar a malta! O que faz falta!

Para uma análise mais pormenorizada do 25 de Novembro, “a Verdade e a Mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se

13 de Junho de 2005

Há 7 anos, nessa data, faleceram dois homens indissociáveis da história do nosso país, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade.

Cunhal político, artista plástico e escritor. Andrade poeta. Deixaram-nos vasta obra, ideais, sonhos e histórias de vida inspiradoras.

Em 1968 Andrade questionava nos Afluentes do Silêncio:

 Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras. E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade – eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.

Questionamento tão actual hoje como em 68, sinal de que apesar de terem ocorrido mudanças nas condições de vida do nosso povo muitas coisas não mudaram. Apenas adormeceram subterfugiamente para se tornarem hoje tão prementes quanto o eram antes, talvez nunca tenham deixado de o ser ou então, quem adormeceu fomos nós embalados pelas palavras das supostas boas intenções políticas que traziam veladas caminhos já antes percorridos. A pauperização da humanidade é exponencial à crescente valorização da moeda e das finanças numa cada vez maior exploração do homem pelo homem. Marx e o capital, paradigma actual que nos leva de Andrade a Cunhal.

Cunhal que lutou, com tantos outros seus camaradas na clandestinidade, contra a ditadura fascista de Salazar e continuou a lutar pós 25 de Abril por um país melhor, com futuro, mais igualitário, mais solidário, mais social, mais justo. Cunhal que deixou um legado que outros como ele ajudaram a construir no seio do Partido Comunista Português. Aliás, o historiador Borges Coelho, sustentou confundir-se a vida de Cunhal, “numa boa parte”, com a vida do PCP dizendo de Cunhal que “no fim das contas, é afinal um homem profundamente envolvido nas lutas e sofrimento deste século e transfigurado pelo mito”. Podemos recordá-lo no poema Sophia de Mello Breyner cantado por Francisco Fanhais

É preciso recordá-los, dá-los a conhecer, às suas obras, às suas palavras, às suas ideias. Cada vez mais. Neste tempo que se rege unicamente pelo valor monetário, pelo despotismo, pelo pensamento acrítico, pelo bipartidarismo, pelas muitas exclusões – sejam sociais, económicas, educacionais – é preciso, é urgente recordar gente que passou uma vida a lutar pela liberdade individual e colectiva de se pensar, de se construir, de se ser criativo, de se ser e viver. Como disse Cunhal n’ “O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista” (1970):

No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.

A luta faz-se lutando, e essa não se ganha através do apoio à selecção nacional de futebol!*, faz-se através do apoio e da luta pelos nossos direitos, na escola, na universidade, no local de trabalho, nas associações sociais e desportivas. E aos que ao ler isto perguntam pelos deveres, claro que devemos cumprir com os nossos deveres mas atentemos numa coisa, os nossos deveres não são aqueles que à revelia do contrato social, unilateral e ditatorialmente nos são impostos.

Vivêssemos realmente em democracias nesta (des)União Europeia e nem haveria neste tempo nosso censura a livros em Espanha, o caso do livro Hay Alternativas de Vicenç Navarro, Juan Torres y Alberto Garzón com prólogo de Noam Chomsky, nem a ditadura das políticas de desemprego e a retirada de subsídios de invalidez ou a não atribuição de reformas por invalidez, quando constam na lei e são dever do Governo, a quem deles necessita em Portugal.

 *sendo importante todas as formas de participação, a crítica que aqui é feita é que muitas vezes as pessoas importam-se com o acessório e não com o essencial. A selecção também merece apoio mas o cenário que se vive hoje em dia de preocupação com o EURO 2012 quando o país tem questões mais importantes que precisam da participação de todos os cidadãos para que a sua resolução se efective e a maior parte deles demite-se de participar e tomar essas decisões é no mínimo caricata. É triste quando a realidade ao impôr-se nos transmite um tempo de futebol, fado e família semblante e conteúdo da ditadura que assolou o nosso país durante quarenta anos.