psicologia e crise

a opinião de Telmo Baptista, bastonário da Ordem dos Psicólogos, no Expresso:psicologia e crise

e uma outra opinião, a do Professor Luís Fernandes – FPCEUP, retirada do Porto24 onde escreve habitualmente:

crisis-what-crisis

Corria o ano de 1975 e nas montras das lojas de discos aparecia, rutilante, um LP com uma capa sugestiva: um indivíduo de calções e óculos de sol refastelava-se numa cadeira gozando as delícias do verão à sombra dum guarda-sol. Coisa banal? Não. É que o que o rodeava não era a praia, mas uma lixeira. Uma bela lixeira, uma lixeira bem surtida, e ele impávido em cima dos escombros do consumismo como quem está na esplanada. Assim era a capa do Crisis? What crisis?, dos Supertramp.

Sobre o cenário da atual crise já se pronunciaram inúmeras personalidades e entidades. Cruzam-se e atropelam-se análises e opiniões, variando no grau em que são capazes de influenciar a nossa percepção do que se está a passar, daquilo que o causou ou daquilo que nos encaminhará para uma saída. E tantas coisas já se disseram, tantas e às vezes tão contrárias entre si, que já deixei de me preocupar, porque já estou incapaz de realizar uma síntese de tanto elemento disperso. Criei a minha própria versão da crise, acredito nela como um escritor acredita na sua ficção – e assim levo os dias adiante, sentado nas pequenas certezas que me tranquilizam.

De onde saem tantos opinion makers? De vários lados. Consideremos o caso dos bastonários das ordens profissionais. A relevância social de algumas profissões torna os bastonários das respetivas Ordens influentes vozes públicas. Quem não conhece Marinho Pinto? Ou José Manuel Silva? Advocacia e medicina são ofícios antigos, com o papel e a imagem mais do que consolidados.

E os psicólogos? Constituem um corpo profissional ainda jovem no panorama português. Há 30 anos, o cidadão comum sabia apenas dum modo muito vago para que serviam, e foi com a demonstração do valor da psicologia nos mais diversos contextos da vida social que os psicólogos, pouco a pouco, foram complexificando a imagem que deles hoje se tem e se foram afirmando como construtores dum saber e duma prática importantes na nossa sociedade.

Foram aumentando em número à medida que crescia – aliás exageradamente – a oferta universitária de cursos de psicologia. E, num mundo marcado pela desregulação, foram capazes da ordem – da Ordem, que finalmente, ao fim de anos de espera, se tornou realidade.

O grande público sabe quem são Marinho Pinto ou José Manuel Silva, mas poucos ainda saberão quem é Telmo Baptista. Está na hora de saberem que também o bastonário da Ordem dos Psicólogos se pronunciou sobre a crise. Ora vejamos 2 passagens do seu editorial no n.º 2 da revista da Ordem dos Psicólogos portugueses, acabada de dar à estampa em Abril: “A sociedade como um todo tem de lidar com as consequências da crise, o aumento da depressão, do suicídio, das perturbações ansiosas e do stress, o impacto generalizado na qualidade do trabalho, e talvez o pior de tudo, um sentimento de desesperança, que é prenunciador de uma falta de vontade para agir e confrontar a situação em que nos encontramos.”

Não sou capaz de desmentir as suas palavras. Nem de as reiterar, posto que não creio que se baseie em algum estudo sobre as consequências psicológicas da crise. Seja como for, o que diz é verosímil, e cada um de nós no seu contexto próximo encontrará exemplos que o ilustram. Mas há sempre o outro lado. No meio do panorama desanimador que a crise instalou, os psicólogos, pelos vistos, hão de ser dos poucos que têm razões para sorrir: atente-se na esplêndida clientela que a nefanda crise se arrisca a produzir! Atenção malta da comportamental-cognitiva, da centrada no cliente, da psicanálise (a longa e a breve), atenção malta do psicodrama (o moreniano e o psicanalítico), dos grupos de encontro, dos grupos balint, da grupanálise, da musicoterapia, da respiração holotrópica, da bioenergética – atenção, especialmente, malta da terapia pelo grito!

Não basta, porém, enunciar os problemas, é preciso apontar saídas. E é o que faz Telmo Baptista quando alerta: “Por isso temos de ser mais claros na afirmação da psicologia como um conhecimento válido e importante para sair da crise. Nós sabemos muito bem o que são crises, e o que fazer para sair delas.”

Eis aquilo que nunca me tinha ocorrido: que os psicólogos fossem o contrário dos políticos. A vocação destes para empurrarem países inteiros para o sofrimento da crise é simétrica da capacidade dos psicólogos para abrirem o caminho da saída. E, enquanto durar o período datroika, em que os psicólogos pouco poderão fazer pela crise geral, possa ao menos a Ordem tornar realidade para aqueles que representa a excelente frase “nós sabemos muito bem o que são crises e o que fazer para sair delas”.

Mais a sério agora: não ignoro nem discuto as virtualidades da intervenção psicológica perante cenários de crise, sejam pessoais, conjugais, familiares ou organizacionais. Mas tenho às vezes receio de que o fervor na afirmação do poder dos psis (psicólogos, psiquiatras e outros especialistas daquilo a que já alguém chamou sociedade terapêutica) circunscreva os problemas à sua dimensão individual, mascarando involuntariamente as suas raízes sociais.

O reducionismo individualizante tem um problema de focagem: recortando com grande nitidez o indivíduo, desfoca as razões supraindividuais daquilo que ele experimenta como problema aparentemente pessoal. E isto corresponde a esvaziar o conteúdo de denúncia política que pode conter o sofrimento individual, como é bem o exemplo da figura do desempregado de longa duração, agora coagido à “procura ativa de emprego”, como se resultasse da indolência ou duma espécie de desafeção pelo trabalho o estar na situação em que está.

A afirmação dos poderes de tendência neoliberal tem avivado os mecanismos estruturais produtores de desigualdades e dificultado a garantia pelo respeito, pela dignidade e pelos direitos dos cidadãos – porque é nessa dificuldade que reside a grande fonte do mal-estar nas sociedades ditas do bem-estar. O que esta crise tem mostrado é que a atual maneira de governar, na subjugação aos poderes financeiros e a esferas de interesses dificilmente escrutinadas pelos fragilizados mecanismos dos poderes democráticos (eis uma palavra a necessitar de ser repetida), o que esta crise tem mostrado, dizia, é que as aparentes saídas para a sua resolução estão afinal a aprofundar tais mecanismos.

A psicologização dos problemas pactua, embora involuntariamente, bem sei, com o inimigo: porque ajuda à desfocagem das razões e dos agentes que nos trouxeram até este ponto. O advento dos psicofármacos, cujo valor terapêutico não está em causa, também serviu para docilizar as massas castigadas pelo trabalho intensivo, pela rotina e pela insónia – e os que nos tiravam o sono contavam as notas enquanto engolíamos a pastilha.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Boston, 15 Abril

Depois dos ataques às Torres Gémeas a 11 de Setembro de 2001, em 2003, os professores do Centro Internacional de Resposta a Catástrofes da Universidade de Illinois em Chicago questionaram-se sobre o que tinha sido aprendido em termos das consequências do terrorismo para a saúde mental. Juntaram por isso um grupo de oradores de diversas áreas numa conferência intitulada “Cidades de Medo, Cidades de Esperança: Saúde Pública Mental da América na Era do Terrorismo”. O objectivo era explorar as reacções e respostas ao terrorismo na América Urbana. Um dos temas abordados foram as fontes de medo e fontes de esperança.

Nesta era de terrorismo as organizações governamentais e não governamentais são responsáveis por gerir os medos gerados pelos perpetradores mas também pelos medos gerados pelas contra-respostas do governo às agressões. O público considera o governo e os media como mensageiros e até determinada medida como fontes de medo. Contudo, na discussão gerada chegaram à conclusão que os media podem ser uma fonte de medo ou uma fonte de esperança. Isto porque os media podem educar através do fornecimento de informações e, por isso, devem representar não apenas o medo mas também a esperança. A ambivalência de as instituições que gerem o medo serem, também, elas capazes de veicular esperança foi algo que não se conseguiu evitar.

Vamos ver como as instituições vão gerir o medo já que um dos impactos do medo é limitar a interacção colectiva e promover o isolamento e mentalidades fechadas, todas as quais diminuem a capacidade de esperança. Contudo, tem sido positiva até agora a forma como o governo tem falado sobre o que se está a passar em Boston, tal como os media. Não se avançou com acusações infundadas sobre quem fez o quê e porquê. Aguardemos.

Espero que desenvolvam iniciativas que promovam resiliência comunitária como forma de ultrapassar o sucedido – uma das lições retiradas da CORC em 2003. A resiliência pode ser aprendida; a resiliência é uma viagem, não se resume a um único evento ou ponto no tempo; e, a viagem de cada indivíduo é diferente.

Comunicação Social e Manutenção Político-partidária

A importância da comunicação social para os políticos é óbvia. Para ganhar eleições, no curto e longo prazo, os candidatos ou os partidos políticos têm de atrair os eleitores. A maior parte das pessoas não está motivada para seguir activamente, e atenciosamente, a vida política (Iyengar & McGrady, 2005). Ao invés, as pessoas formam opiniões e preferências baseadas no que vêem e lêem nos meios de comunicação. De resto, os candidatos que gerem melhor, com mais eficácia, os meios de comunicação, são normalmente quem vence as eleições.

Como resultado de alterações que ocorreram nas campanhas políticas nos últimos 50 anos, as instituições políticas que tradicionalmente organizavam e agregavam as preferências das pessoas atrofiaram e foram substituídas pelos meios de comunicação (Polsby, 1983). Aliás, o uso/manipulação da comunicação social para promoção de objectivos políticos é essencial para a sobrevivência política, além de ser prática usual.

Com o aumento do número de canais de comunicação a competição pelas audiências também aumentou, e tal afectou a forma das notícias políticas, ajudando os políticos e os seus partidos a evitar o escrutínio de aspectos importantes respeitantes ao candidato e à forma de governar, tais como posições políticas que permitiriam aos eleitores tomar decisões políticas informadas. De modo crescente, a necessidade de cativar as audiências tomou precedência sobre a “antiga” norma jornalística de informar os leitores/espectadores (Kalb, 1998). As forças de mercado requerem que as notícias sejam apresentadas num formato de entretenimento e com um valor de interesse – mesmo que as histórias sejam duvidosas do ponto de vista cívico ou de relevância educacional (Kalb, 1998). Assim, na cobertura das campanhas políticas, a incerteza e o suspense associados à representação dos candidatos como jogadores estratégicos na tentativa de manipular os eleitores, é mais provável de captar e segurar a atenção do público que outros aspectos mais reais, com substância, da campanha (Patterson, 1993).

Dado que existem, hoje em dia, formas menos rigorosas de jornalismo, tendo em conta as necessidades do mercado, os meios de comunicação são hodiernamente menos capazes de resistir activamente a fontes institucionais e governamentais (Iyengar & McCgrady, 2005). O resultado é uma forma de “relatar” diferencial, em que a ideia do jornalista independente com a capacidade de desafiar as fontes oficiais cessou de existir (Dorman & Farhang, 1987; Bennet, 2000). Ganha especial importância a influência que as elites políticas podem exercer no público em geral, dado que os seus pontos de vista são raramente desafiados pelos meios de comunicação de massas mais genéricos, isto porque os jornalistas têm cuidado para não irritar e alienar as fontes nas quais têm que basear-se para criar as suas histórias (Iyengar & McGrady, 2005).

As elites políticas são assim mais capazes de manipular, e estão mais dependentes dos meios de comunicação que nunca (Iyengar & McGrady, 2005). É axiomático que aqueles que são capazes de influenciar o conteúdo e imagem das notícias têm sucesso em melhorar a sua permanência no tribunal da opinião pública, e ao fazê-lo estar na mó de cima, como é o recente caso de José Sócrates.

Pense-se agora no impacto, não esquecendo os jogos de bastidores, que o comentador político que entra pelas tv’s adentro pode ter. Impacto esperado e calculado quer por quem vai comentar quer por quem o convidou a ter esse espaço de opinião. No significado do comentador ter desempenhado funções políticas e estar agora a comentar as dos que exercem actualmente. Questione-se não apenas sobre Sócrates mas sobre todos os outros, na RTP, na SIC, na TVI e nos outros canais de televisão. Perceba-se o que dizem essas escolhas das linhas editoriais desses mesmos canais. Falei das televisões mas falo também dos jornais, de quem lá escreve as suas opiniões e, mais uma vez, de que os convidou.

Na imagem/representação global do país, dos seus problemas e soluções, a velha pergunta de Harold Lasswell “quem diz, o quê, a quem, como (através de que canal), e com que efeito?” coloca-se cada vez mais pertinente como forma de desconstruir esta construção social da realidade. A bipartidarização partidária, a bipartidarização das soluções para a crise que vivemos também se constrói aqui. Da mesma maneira que também foi aqui que se foi ignorando a crise, os seus aspectos e os seus actores. A manutenção dos partidos-políticos e a manutenção de algumas figuras que ganharam notoriedade por terem desempenhado funções enquanto membros desses mesmos partidos também se constrói aqui. A desconstrução, a resistência e a solução para uma sociedade mais informada passa por uma comunicação social cujos meios não estejam intrinsecamente ancorados a indivíduos ou instituições do controlo social formal.

Como é que as pessoas que apenas lêem notícias ou as visionam (são a maioria), as tais que não estão motivadas para seguir activamente a vida política (e por isso são menos activas na procura de outras informações/vias informação), conseguem ter diferentes perspectivas sobre o mundo onde vivem se a maioria dos canais que veiculam notícias têm como produtores de opinião mais do mesmo?

Vivemos na sociedade líquida, consumista e individualizada de Zygmund Bauman, onde os meios de comunicação o que nos trazem, no lugar de discussões relacionadas com os nossos modos de existência público e privado, “são lições públicas sobre a vacuidade da vida pública e sobre o vazio das esperanças postas em tudo o que seja menos privado que os problemas e as soluções particulares. Os solitários indivíduos entram hoje numa ágora e não se encontram a não ser com outros que estão tão sós como eles mesmos. Voltam para casa tranquilizados com a sua solidão reforçada.” (Bauman, 2001, p. 231)

Há, a acrescer ao que foi dito, uma desvinculação das “elites” com as comunidades de origem, as “elites” são cada vez mais globais ao contrário da maioria da população que é cada vez mais localizada (basta ir ver a origem de alguns políticos e as suas práticas antes, durante e após eleições). E é neste pano de fundo que também se jogam as relações de poder que permitem o aumento da desigualdade social que os meios de comunicação social veiculam e que contribuem para as nossas representações sociais e para a construção social da realidade.

É certo que o leitor/espectador não é tábua rasa onde se inscreve o que lê e vê, que ele interage, que os efeitos da acção dos meios de comunicação, quer no geral quer no particular, são bastante complexos, que há uma componente cognitiva-afectiva-emocional. Contudo, o ponto aqui é outro. Se o discurso disseminado é na sua grande maioria o mesmo, quem não procura informar-se estará exposto a uma visão restrita e hegemónica acerca do mundo onde vive. Não admira pois que exista de forma transversal uma bipolarização do discurso e das práticas, nos meios de comunicação social e noutras esferas da vida.

Referências:

Bauman, Z. (2001). A Sociedade Individualizada: Vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar. 

Dorman, W. A., & Farhang, M. (1987). The U.S. Press and Iran: Foreign policy and the journalism defense. Los Angeles: University of California Press;
Kalb, M. (1998). The Rise of the New News. Discussion Paper D-34. Joan Shorenstein Center, Harvard University;
Patterson, T. (1993). Out of Order. New York: Knopf;
Polsby, N. W. (1983). Consequences of Party Reform. New York: Oxford University Press;
Iyengar, S., & McGrady, J. (2005). Mass media and political persuasion. In Brock et al. (eds.) Persuasion: Psychological Insights and Perspectives.
London: Sage Publications.

notas de leitura: Carl Jung, o indivíduo e a política

Dizia Jung em 1938* Não há nenhum país civilizado nos dias de hoje onde as camadas baixas da população não estejam num estado de inquietação e de oposição. Em vários países europeus tal condição está também a tomar conta das camadas altas. Este estado de coisas é a demonstração do nosso problema psicológico numa escala gigantesca. Na medida em que as colectividades são meras acumulações de indivíduos, os seus problemas também são acumulações de problemas individuais. Um conjunto de pessoas identifica-se com o homem superior e não pode descer, e o outro conjunto identifica-se com o homem inferior e quer alcançar a superfície.

Jung descreveu a luta entre o ego e o inconsciente como uma luta de poder. Nesta luta quando um complexo inconsciente se apodera do ego há “possessão”. Quando o ego toma o controlo de certos atributos inconscientes do self existe “inflacção”. Jung comparou a transformação progressiva desta luta de poder no processo de individuação a uma sequência de regimes políticos. Ele denomina a unidade inconsciente inicial da psique de tirania do inconsciente. Na situação onde o ego é predominante ele compara-a a um sistema tirânico de um partido. Quando o ego e o inconsciente negoceiam na base da igualdade de direitos, a relação assemelha-se a uma democracia parlamentar.

Portanto, em Portugal, na maior parte das pessoas, vinga a predominância do ego nessa luta de poder?! Que importância tem esta questão? Jung acredita que a solução para os problemas com que nos deparamos de momento começa com uma mudança nos indivíduos, e que apenas a acumulação das mudanças individuais irá produzir uma solução colectiva.

Contudo, a intolerância, contraproducente à mudança do indivíduo, está em crescendo. O dia de hoje mostra com terrível clareza quão pouco as pessoas capazes estão disponíveis para que o argumento do outro seja levado em conta, apesar desta capacidade ser condição fundamental e indispensável para qualquer comunidade humana. Todo aquele que se propõe chegar a acordo com ele próprio deve contar com esse problema básico. Pois, na medida em que ele não admite a validade da outra pessoa, ele nega ao “outro” dentro de si o direito de existir – e vice-versa. A capacidade de diálogo interior é pedra de toque para a objectividade exterior. (Jung**)

Diálogo interior… essa coisa para a qual a sociedade de consumo vai arranjando desculpas para que não tenha lugar, porque não há tempo, porque as tarefas são muitas, porque parar é morrer… muitas vezes morre-se, vai-se definhando, porque não se pára! Parar para termos consciência do nosso auto-desenvolvimento, de forma a entendermos a nossa particularidade, como nos tornamos nós próprios em nós mesmos – a individuação de Jung; não a individualização corrente da sociedade do consumo, feita pela diferenciação do que se tem e deixa de se ter em termos materiais. A análise importante é quem se foi, é, e pode vir a ser. Sendo nós seres humanos animais de hábitos, como tudo, o diálogo interior exige prática.

Claro, este diálogo interior necessita de diálogo e integração com o contexto em que vivemos, as suas regras, as suas instituições, as suas práticas***… – a que a linguagem dá corpo – não o pactuar complacente com o status quo mas o seu questionamento. A nosso ver, tanto a psicologia como a ciência política partilham o objectivo comum de ajudar-nos a pensar o que fazemos.

*Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1958). The collected works of C.G. Jung: Vol. 2. London: Routledge and Kegan Paul.

**Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1977). The collected works of C.G. Jung: Vol. 18. London: Routledge and Kegan Paul.

*** Beger, P. & Luckmann, T. (2010). A construção social da realidade: Tratado de sociologia do conhecimento. Lisboa: Dinalivro.

Última Chamada! Inquérito aos Psicólogos em Contexto Escolar

Partilho aqui o apelo da minha colega doutoranda Sofia Mendes. Apelo que colaborem nesta investigação.

“O prazo para preenchimento do “Inquérito aos psicólogos em contexto escolar” encontra-se a chegar ao fim (31 de Julho). Sublinhamos que é do nosso interesse obter a maior amostra possível, a fim de produzir resultados consistentes e que permitam retratar o que tem sido a implementação da psicologia e da prática psicológica nos contextos educativos portugueses. Porque se trata de um estudo de caráter nacional, e que abarca diversos contextos, aspiramos captar a variabilidade decorrente de um estudo com estas características, pelo que cada resposta se torna ainda mais relevante.

Agradeço a vossa colaboração na divulgação desta informação!”

Podem aceder ao inquérito aqui.

Violência, Linguagem e Psicologia: enquadramento de uma imagem!

Foto de criança palestiniana lavando o chão do sangue do irmão assassinado por bombas das Forças de Defesa Israelitas (IDF)

Vi esta imagem que o Pedro Pereira Neto tinha partilhado no seu facebook. O texto que originalmente vinha com ela era este~

Alguém no facebook dizia que a censura das fotos de nus e sexo, se devia às crianças, que agora podem ter acesso ao face. Uma criança não tem maldade, essa maldade e repúdio é lhes transmitidas pelos adultos, preocupa me bem mais a violência macabra a que milhares de crianças estão sujeitas diariamente pelos adultos. “Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.” John Lennon

O Pedro por sua vez fez uma observação pertinente:

“se fosse na Síria seria notícia de 1ª página/abertura em todos os media ….. é na Palestina “é um dano colateral que lamentamos”

E é sobre esse enquadramento que muitas vezes se dá a algo que acontece recorrendo, para tal, a umas palavras em detrimento de outras que me quero debruçar. Já pensaram por que é que os agentes do governo se referem a civis mortos por bombas militares como “dano colateral” ou a assassinatos como “privação ilegal da vida?”. Porque estes termos expressam muito pouca emoção. E porquê usar palavras que têm pouca carga emotiva? Porque tu e eu geralmente respondemos somente a coisas que nos preocupam, explica a psicologia. Se as palavras ou imagens ou acções despertam nenhum sentimento em nós, não somos susceptíveis de responder a elas. Se não respondemos a elas, não vamos pensar sobre elas. Se nós não pensamos sobre elas, não vamos fazer nada sobre elas. Se não fizermos alguma coisa sobre elas, então quem está no poder pode continuar a fazer tudo o que deseja. Mesmo que não tenham o nosso consentimento, não despertam sequer a nossa oposição, se não tivermos consciência deste efeito.

No outro extremo do uso de linguagem amorfa, não-emotiva que nos impede de responder e pensar em realidades desagradáveis, existem aqueles que usam a linguagem principalmente pelo seu poder emotivo. Aí usam palavras que funcionam como os nomes dos detergentes ou assassinos em série: palavras que principalmente ou exclusivamente transmitem sentimentos, palavras que têm pouco ou nenhum conteúdo cognitivo. Exemplo disso são as associações contra o aborto que usam palavras cujo objectivo é despertar muitas emoções com muitas referências a matar “inocentes” ou “indefesos” por nascer.

Muitas palavras e expressões transmitem nada mais do que uma atitude positiva ou negativa. Palavras como distinguir um empresário de uma empresária. Um empresário é assertivo; uma empresária é insistente. Um empresário é meticuloso, uma empresária é exigente. Ele perde a paciência, ela é mal-intencionada. Ele fica deprimido, ela é temperamental. Ele é persistente, ela é histérica. Ele está confiante e auto-confiante, ela é arrogante. Ele é um solitário, ela é indiferente. Ele é firme, ela é teimosa. Ele é firme, ela é bombástica. Ele é uma pessoa privada, ela é secreta. Ele toma decisões rápidas, ela é impulsiva. Ele é apenas humano, ela é emocional. A diferença de atitude explica por que termos diferentes são usados para descrever um mesmo comportamento tratando-se de homens e mulheres, uma diferença geralmente designada pelo termo altamente emotivo, “sexismo”.

Como linda, maravilhosa, boa, grande e bela normalmente são usadas para expressar aprovação, considerando-se palavras como tendo um conteúdo emotivo positivo. Palavras como repugnante, desprezível, mau, estúpido e feio são usadas geralmente para expressar desaprovação. Algumas palavras, como tangente e neutrão, não têm conteúdo emotivo, não são usadas para expressar uma atitude, mas são usadas apenas pelo seu conteúdo descritivo ou cognitivo. Muitas palavras, no entanto, são usadas para expressar um significado cognitivo e emotivo, a sua função não é apenas descrever algo ou transmitir informações, mas também expressar uma atitude sobre isso. Por exemplo, o que uma pessoa poderia chamar de “um assassinato bárbaro e selvagem”, outra pode referir-se como “um homicídio.” As suas atitudes diferentes são expressas pela sua escolha de palavras diferentes, embora o seu significado cognitivo seja idêntico (ambas as expressões descrevem o assassinato de um ser humano).

Os profissionais da persuasão seja no aceitar/veicular ideias ou valores, incentivar à compra de produtos ou votar em candidatos, sabem como seleccionar palavras e imagens que são susceptíveis de provocar respostas emocionais. Eles sabem o poder da linguagem carregada, ou seja, linguagem altamente emotiva que visa evocar uma resposta através de emoções, como o medo e a esperança, ao invés de através do pensamento. Como um defensor anti-aborto americano, que ouvi, disse uma vez, basta juntar as palavras “bebé” e “matar” – ninguém resiste a essa!

Na persuasão da opinião pública com o intento de a ganhar para a persecução de determinadas políticas passa-se o mesmo.

A imagem que aqui deixo é arrepiante. Imaginem uma criança vossa conhecida a ter de passar por isto, como vos é próxima o pensamento sobre torna-se impensável! Como colocou Diogo Cunha, um amigo do Pedro, e eu subscrevo na íntegra:

Essa imagem é a manifestação visual da degradação da humanidade; da má divisão do trabalho e do poder, do errado uso do conhecimento, da hierarquização nefasta. É o Terceiro Mundo na medida em que não há nem deuses, nem homens, apenas sobram as brumas da morte. Que imagem terrível, mas, simultaneamente, profética: será esse o futuro? Degeneramos ou regeneramos?

“A arrogância do pensamento inevitável é o contrário da liberdade”

Crise, enquadramento nacional para todas as políticas que hoje em dia são levadas a cabo no nosso país. Tornou-se a desculpa perfeita, o leitmotiv mesmo quando não existe qualquer causa lógica conexiva entre a realidade vivida pelos portugueses e o colocar em prática de políticas que supostamente deveriam dirigir-se aos problemas existentes.

Ora, quando ouvimos falar o reitor da Universidade Nova, Sampaio da Nóvoa, ficamos com a sensação que existindo pessoas com a sua capacidade de análise algo de inexplicável acontece no processo de ensino para termos gente tão mal preparada a governar-nos. Ou será a governar-se?!

O que nos leva à questão do papel das universidades, do papel que desempenham, não do outro!, no seio da nossa sociedade. Para quê? Para quem? Como? Do ideal da constituição da república portuguesa para a prática real o ensino superior, tal como os restantes níveis de ensino, a sensação que fica é a do vácuo de um fio condutor numa das áreas mais importantes para a formação e desenvolvimento dos seres humanos. Afinal que papel tem, para os decisores políticos, a educação na nossa sociedade? Reconhece-se ou não potencial transformador à educação e ao ensino? Reconhecendo-se, queremos implementar um sistema que permite a todos o acesso ao ensino ou queremos esquartejá-lo para fomentar uma genética sócio-económica e cultural?

A frase que me fica da intervenção de Sampaio da Nóvoa, além da do título deste post, talvez por defeito de formação e profissional da psicologia é

“não conseguiremos ser alguém na Europa e no mundo se formos ninguém em nós”

Pior que ser-se ignorante é não se saber reconhecer as limitações que possuímos, principalmente, quando essas limitações hipotecam sem direito o futuro de todos nós. E fosse mentira esta notícia, do corte das bolsas de doutoramento a estudantes no estrangeiro, seria outra.

Independentemente dos esforços políticos para tal, “as palavras, infelizmente, não mudam a realidade mas ajudam-nos a pensar, a conversar, a tomar consciência e a consciência, essa sim, pode mudar a realidade”. Para continuar a ouvir com muita atenção!

Investigação: papel do psicólogo e prática psicológica no sistema educativo português

Faço um apelo! A todos os que tiverem contacto com este post  que sejam e conheçam psicólogos que estejam a desempenhar funções em contexto escolar, mais precisamente a assegurar o funcionamento de Serviços de Psicologia e Orientação (SPO), ou outros serviços com atribuições similares em estabelecimentos de ensino público e privado que considerem preencher e/ou lhes dêem conhecimento do Inquérito aos Psicólogos em Contexto Escolar.

Este estudo está a ser conduzido na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, pela minha excelentíssima colega de doutoramento Sofia Mendes, sob orientação da Professora Doutora Isabel Macedo Pinto (FPCE-UP) e do Professor Doutor Leandro Almeida (IE-Univ. Minho), com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT).

A pertinência deste estudo e da sua participação prende-se com “a escassez de produção teórica e empírica, consistente e sistematizada, que possibilite contribuir para um maior reconhecimento e visibilidade do papel do psicólogo e da prática psicológica no sistema educativo português“.

A participação é voluntária e está assegurada a confidencialidade do tratamento das respostas.

Em caso de dúvidas podem entrar em contacto com a investigadora através do mail geral@psicologiaemcontextoescolar.com

O projecto tem uma página no facebook onde pode ir acompanhado os desenvolvimentos da investigação.

Para que a ciência nos possibilite outros caminhos de intervenção e respostas aplicadas às diferentes realidades do nosso mundo é necessário envolvermo-nos. Obrigada pela vossa atenção e disponibilidade.

rescaldo das legislativas 2011

O país já tem novo primeiro-ministro eleito, Passos Coelho.

O PSD não ganhou com maioria absoluta e a vitória ao contrário do que se vai lendo e ouvindo por aí não é indiscutível nem extraordinária. É o framing effect (efeito do enquadramento) a tentar dar cartas nos media para ver se as pessoas interiorizam o que de facto não é um facto!

Já Jerome Bruner concebia o senso comum (ou “folk psychology” na sua definição) como um conceito central para o estudo do pensamento. De acordo com o autor, todas culturas têm como um dos seus elementos constitutivos mais importantes uma psicologia popular, um conjunto de descrições mais ou menos conectadas, de carácter normativo, um sistema pelo qual as pessoas organizam a sua experiência e o seu conhecimento sobre o mundo social. Uma das características principais do senso comum é o facto de que ele tem nas narrativas, e não nos conceitos, os seus princípios organizadores. Senso comum e narração de estórias estão, portanto, vinculados. De modo similar, Norman sugere que estórias são meios maravilhosos para resumir experiências, eventos cognitivos importantes, já que a lógica não faz parte do pensamento natural. Segundo o autor, não se trata de afirmar que estórias são melhores ou superiores à lógica, mas que são esferas distintas que enfatizam critérios diferentes. Sendo que nalgumas situações, pode ser mais apropriado usar ambas no processo de tomada de decisões. As estórias são melhor compiladas e lembradas do que os factos e requerem um número maior de informações contrárias ou negativas para serem mudadas. Alguns autores chegam a afirmar que devido ao lugar central das narrativas na sociedade, o homem é essencialmente um “animal contador de estórias”.

A actividade de contar estórias é uma característica central da psicologia política e tem como base as teorias psicológicas que argumentam que os seres humanos pensam, imaginam e fazem escolhas morais baseados em estruturas narrativas. De acordo com estas teorias, estórias são meios para interpretar eventos através da construção de “padrões causais” que integram aquilo que se sabe sobre um evento, bem como aquilo que é conjuntural mas relevante para o desenvolvimento da interpretação; já as narrativas fornecem uma solução para um problema de vida fundamental: como criar uma ordem inteligível nos assuntos humanos. Além disso, as narrativas são também elementos importantes no trabalho dos profissionais dos media.

Já Hall explicava como um evento tem que se tornar uma estória antes que se torne um evento comunicacional, a construção de narrativas é uma parte integral da construção de notícias, um facto já demonstrado por diversos estudos. Por exemplo, narrativas e drama têm sido historicamente elementos centrais na cobertura das presidenciais pelos meios de comunicação nos Estados Unidos. Todavia, existe um dilema entre a norma da objectividade e o papel de contador de estórias: ao construir narrativas, os jornalistas têm que colocar os eventos nalgum tipo de enquadramento que dará sentido a estes eventos. Portanto, as narrativas têm contribuído para tornar o jornalismo numa actividade mais interpretativa. O tratamento das notícias como drama e narrativa tem outro efeito importante: ele leva à personalização do processo político, focando políticos individuais no lugar de partidos políticos, instituições e factores estruturais.

Concluindo, inconsistências e falta de coacções sistemáticas nos sistemas de crenças são factos normais do pensamento humano. As pessoas resolvem várias destas contradições e inconsistências ao desenvolver narrativas que lhes permitem interpretar temas e eventos políticos através de uma estória que os explica em termos de vínculos causais específicos.

Estes resultados eleitorais dependem por isso da forma como desenvolvemos narrativas. Como é que elas mudam? O que nós incorporamos numa narrativa depende do ponto de vista ou enquadramento a partir do quais interpretamos a realidade, já que a forma típica de enquadramento que usamos tem nas narrativas a sua forma principal. Os enquadramentos são elementos constitutivos  importantes das narrativas e do processo pelo qual fazemos sentido do mundo da política. É por isso que muitos autores investigam a relação entre enquadramentos e pensamento político.

No campo da psicologia, o conceito de enquadramento foi desenvolvido para explicar os determinantes cognitivos das escolhas, principalmente em situações de risco. As experiências conduzidas por Kahnemam e Tversky demonstram que mudanças na formulação dos problemas de escolha causam mudanças significativas nas preferências; que as escolhas e preferências políticas podem mudar não por causa de alterações das informações, mas sim devido à apresentação de enquadramentos específicos para a mesma informação. Efeitos relacionados com a formulação dos problemas e questões podem ocorrer sem que as pessoas estejam conscientes do impacto do enquadramento na decisão final e podem ser explorados de forma deliberada para manipular a atractividade das opções. Enquadramentos são, portanto, importantes instrumentos de poder.

Assim se pode perceber que o enquadramento negativo ou positivo aumente ou diminua a força das atitudes dos cidadãos. O que me leva a  um estudo realizado nos EUA por Bizer, Larsen e Petty e conduzido entre uma amostra representativa de residentes de dois estados norte-americanos durante uma campanha política real onde documentaram o efeito de enquadramento face a candidatos para os quais as pessoas já possuíam atitudes nesse contexto. Os resultados demonstraram que expressar oposição momentânea face ao candidato de quem não gostavam fez com que as pessoas estivessem mais predispostas em envolverem-se/empenharem-se em comportamentos políticos relevantes do que expressar apoio pelo candidato da sua preferência. Especialmente, entre pessoas com preferência por um candidato em detrimento de outro. Aqueles que foram induzidos a perceber as suas atitudes negativamente (ou seja, como oposição ao outro candidato) relataram estar mais dispostos a oferecer-se para a campanha, doar dinheiro e votar pelo seu candidato preferido que as pessoas que foram induzidas a perceber as suas atitudes de forma positiva (isto é, apoiar o seu candidato). Como esperavam os investigadores, não foi encontrado qualquer efeito entre pessoas que não tinham qualquer preferência. Por fim, os efeitos de enquadramento nas intenções comportamentais foram mediadas pelo impacto do enquadramento na certeza de atitudes. As pessoas tinham mais certezas quando induzidas a pensar na sua preferência eleitoral como uma de oposição em vez de apoio, e essa certeza reforçada foi responsável pelo facto do enquadramento de atitudes de forma negativa levar a uma atitude mais consistente de intenções comportamentais.

Ora, talvez assim se perceba como o PS atingiu resultados tão baixos e PSD e CDS-PP capitalizaram outros votos. Claro que podem existir outras explicações já que o comportamento eleitoral é ainda hoje campo de controvérsias e de crescente pesquisa pelo mundo fora. Contudo, à que reter da teoria dos efeitos do enquadramento que todos os dias somos bombardeados com mensagens pelos media, e outros meios de controlo informal e formal da sociedade, que de forma consciente ou inconsciente têm efeitos práticos em nós. Reconhecê-los é uma forma de poder para que não bebamos insipidamente tudo o que nos chega e compremos falsos discursos como este da grande vitória expressiva que não foi uma maioria.

A fragilidade dos resultados eleitorais destas legislativas demonstram o quão dividido está o país em termos de ideais e ideias para o presente e futuro, que não há consenso quanto às soluções, que tudo pode por isso ser pensado e possível. Boaventura Sousa Santos já falou em eleições daqui a dois anos pois não só este novo Governo não goza dessa maioria expressa, como as condições impostas pela Troika são anti-democráticas – diria eu de ingerência na soberania nacional, e, por fim, as condições sócio-económicas e estruturais em que o mundo ocidental parece habitar colapsam diante das pressões dos mercados e ultimamente sofrem, e bem, as pressões resultantes dos movimentos sociais que vão surgindo e tomando forma um pouco por todo o lado. Tudo está em aberto!

Logo, a bem da memória de Sá Carneiro, que muitos dizem estimar, convinha que não usassem os slogans quando os mesmos são inverdades. É que 1 mentira mil vezes repetida não se torna uma verdade!

O PSD não tem maioria. Ela só existe em coligação com o CDS-PP. Líder que é líder deve reconhecê-lo!

deambulações da procura de significado psicológico para as trajectórias de vida dos ditos “desviantes”

Passados dois dias enfiada numa biblioteca qual rato que procura informação para resolução de problema complicado na transversalidade da psicologia, crime, justiça, política e superfícies discursivas descubro mais uma vez como alguém pode ficar alheado do mundo que tem lugar e acontece todos os dias.

Nem notícias, nem tv, apenas artigos, livros, teses e afins que abordem a transversalidade dos temas acima referidos. A obsessão, em que é impossível não se entrar, quando se procura o fio condutor de uma lógica que ainda não se conhece mas que se desvela à medida que as questões se adensam na proporção contrária às respostas que se obtêm torna a tarefa desafiante mesmo perante o cansaço dos olhos e da mente que não consegue gerir a informação no espaço-tempo que se desejaria.

O mais interessante, e nem por isso menos óbvio, é o facto de quaisquer autores andarem à procura sistematicamente do pedaço de realidade que irá tornar tudo mais perceptível, nem por isso mais aceitável, no âmbito dos comportamentos humanos. A panóplia de perspectivas é tão grande que uma pessoa sente-se tentada a tentar congregá-las todas para ver se assim falta menos qualquer coisa no grande mosaico que é o conhecimento científico de um determinado objecto/assunto.

Talvez as disciplinas precisassem de um outro diálogo para tornar mais perceptível a enormidade da complexidade que é o ser humano em determinados contextos, nem digo no contexto do que é ser-se humano em todas as vertentes! Em pleno século XXI continua a ser óbvia a compartimentalização do ser humano em caixas de conhecimento em que as disciplinas, até por motivos de categorização e arrumação face ao mundo em que vivemos, o colocam.

Não haverá por acaso um caminho mais ou menos errante, é um percurso que se baseia também nas nossas crenças e na forma de ver o mundo. Claro, o cientista é obrigado a confrontar as suas crenças com as descobertas científicas da realidade que se impõe, não estou a falar da que é fabricada – porque o conhecimento também se fabrica alicerçado em leituras do mundo que tendem a moldar as descobertas e as condutas. Nada de novo!

Nesta perspectiva a realidade de vivermos numa sociedade de classes, onde as pessoas não nascem há partida na mesma condição e não têm há partida os mesmos direitos – por mais estranho que isso ainda seja para mim à época em que vivo, onde existe a história que nos pode guiar e de onde devemos tirar as devidas lições. Onde existe o indivíduo (com a sua personalidade) e a sociedade, portuguesa ou outra, que abarca diversas culturas. Onde o indivíduo é produto de si próprio mas num contexto específico. E ainda assim, um mundo que procura respostas gerais para coisas tão particulares e que as procura em disciplinas como a psicologia para quem cada caso é um caso e não existem dois iguais. Uma disciplina que por vezes parece estar ao serviço de outras, como se não tivesse uma leitura própria do mundo ou um papel a desempenhar, aliás vários. Como ter a psicologia ao serviço do direito sem que esta se questione do seu papel, do seu lugar? Numa perspectiva behaviorista e arcaica onde o biológico não contempla o social, como se uma coisa e outra não perpassassem os indivíduos e nessa mescla se formasse e produzisse o indivíduo…

É talvez das questões mais básicas da epistemologia das ciências sociais que nascem as maiores inquietações, talvez por também serem as mais amplas sem directório de conformidade imposto à partida. Afinal o exame dos actos interessa mais ao direito pela possibilidade de ordenar a sociedade ou à psicologia por permitir outras direcções na abordagem do comportamento humano?! E sendo a última a minha preferencial, ou a que eu acho que devia ser seguida, porque fazemos ainda, nós psicólogos, avaliações e exames que permitem aos outros organizar o seu mundo para que não tenham pesadelos à noite ao invés de potenciarmos o desenvolvimento do indivíduo por forma a que escolha o seu rumo de forma consciente? e já agora da sociedade? presumo que nem Freud fosse psicólogo de se ficar pelo divã!

Society, have mercy on me
Hope you’re not angry if I disagree…
Society, crazy indeed
Hope you’re not lonely without me…

Leave it to me as I find a way to be
Consider me a satellite, forever orbiting
I knew all the rules, but the rules did not know me
Guaranteed