rescaldo das legislativas 2011

O país já tem novo primeiro-ministro eleito, Passos Coelho.

O PSD não ganhou com maioria absoluta e a vitória ao contrário do que se vai lendo e ouvindo por aí não é indiscutível nem extraordinária. É o framing effect (efeito do enquadramento) a tentar dar cartas nos media para ver se as pessoas interiorizam o que de facto não é um facto!

Já Jerome Bruner concebia o senso comum (ou “folk psychology” na sua definição) como um conceito central para o estudo do pensamento. De acordo com o autor, todas culturas têm como um dos seus elementos constitutivos mais importantes uma psicologia popular, um conjunto de descrições mais ou menos conectadas, de carácter normativo, um sistema pelo qual as pessoas organizam a sua experiência e o seu conhecimento sobre o mundo social. Uma das características principais do senso comum é o facto de que ele tem nas narrativas, e não nos conceitos, os seus princípios organizadores. Senso comum e narração de estórias estão, portanto, vinculados. De modo similar, Norman sugere que estórias são meios maravilhosos para resumir experiências, eventos cognitivos importantes, já que a lógica não faz parte do pensamento natural. Segundo o autor, não se trata de afirmar que estórias são melhores ou superiores à lógica, mas que são esferas distintas que enfatizam critérios diferentes. Sendo que nalgumas situações, pode ser mais apropriado usar ambas no processo de tomada de decisões. As estórias são melhor compiladas e lembradas do que os factos e requerem um número maior de informações contrárias ou negativas para serem mudadas. Alguns autores chegam a afirmar que devido ao lugar central das narrativas na sociedade, o homem é essencialmente um “animal contador de estórias”.

A actividade de contar estórias é uma característica central da psicologia política e tem como base as teorias psicológicas que argumentam que os seres humanos pensam, imaginam e fazem escolhas morais baseados em estruturas narrativas. De acordo com estas teorias, estórias são meios para interpretar eventos através da construção de “padrões causais” que integram aquilo que se sabe sobre um evento, bem como aquilo que é conjuntural mas relevante para o desenvolvimento da interpretação; já as narrativas fornecem uma solução para um problema de vida fundamental: como criar uma ordem inteligível nos assuntos humanos. Além disso, as narrativas são também elementos importantes no trabalho dos profissionais dos media.

Já Hall explicava como um evento tem que se tornar uma estória antes que se torne um evento comunicacional, a construção de narrativas é uma parte integral da construção de notícias, um facto já demonstrado por diversos estudos. Por exemplo, narrativas e drama têm sido historicamente elementos centrais na cobertura das presidenciais pelos meios de comunicação nos Estados Unidos. Todavia, existe um dilema entre a norma da objectividade e o papel de contador de estórias: ao construir narrativas, os jornalistas têm que colocar os eventos nalgum tipo de enquadramento que dará sentido a estes eventos. Portanto, as narrativas têm contribuído para tornar o jornalismo numa actividade mais interpretativa. O tratamento das notícias como drama e narrativa tem outro efeito importante: ele leva à personalização do processo político, focando políticos individuais no lugar de partidos políticos, instituições e factores estruturais.

Concluindo, inconsistências e falta de coacções sistemáticas nos sistemas de crenças são factos normais do pensamento humano. As pessoas resolvem várias destas contradições e inconsistências ao desenvolver narrativas que lhes permitem interpretar temas e eventos políticos através de uma estória que os explica em termos de vínculos causais específicos.

Estes resultados eleitorais dependem por isso da forma como desenvolvemos narrativas. Como é que elas mudam? O que nós incorporamos numa narrativa depende do ponto de vista ou enquadramento a partir do quais interpretamos a realidade, já que a forma típica de enquadramento que usamos tem nas narrativas a sua forma principal. Os enquadramentos são elementos constitutivos  importantes das narrativas e do processo pelo qual fazemos sentido do mundo da política. É por isso que muitos autores investigam a relação entre enquadramentos e pensamento político.

No campo da psicologia, o conceito de enquadramento foi desenvolvido para explicar os determinantes cognitivos das escolhas, principalmente em situações de risco. As experiências conduzidas por Kahnemam e Tversky demonstram que mudanças na formulação dos problemas de escolha causam mudanças significativas nas preferências; que as escolhas e preferências políticas podem mudar não por causa de alterações das informações, mas sim devido à apresentação de enquadramentos específicos para a mesma informação. Efeitos relacionados com a formulação dos problemas e questões podem ocorrer sem que as pessoas estejam conscientes do impacto do enquadramento na decisão final e podem ser explorados de forma deliberada para manipular a atractividade das opções. Enquadramentos são, portanto, importantes instrumentos de poder.

Assim se pode perceber que o enquadramento negativo ou positivo aumente ou diminua a força das atitudes dos cidadãos. O que me leva a  um estudo realizado nos EUA por Bizer, Larsen e Petty e conduzido entre uma amostra representativa de residentes de dois estados norte-americanos durante uma campanha política real onde documentaram o efeito de enquadramento face a candidatos para os quais as pessoas já possuíam atitudes nesse contexto. Os resultados demonstraram que expressar oposição momentânea face ao candidato de quem não gostavam fez com que as pessoas estivessem mais predispostas em envolverem-se/empenharem-se em comportamentos políticos relevantes do que expressar apoio pelo candidato da sua preferência. Especialmente, entre pessoas com preferência por um candidato em detrimento de outro. Aqueles que foram induzidos a perceber as suas atitudes negativamente (ou seja, como oposição ao outro candidato) relataram estar mais dispostos a oferecer-se para a campanha, doar dinheiro e votar pelo seu candidato preferido que as pessoas que foram induzidas a perceber as suas atitudes de forma positiva (isto é, apoiar o seu candidato). Como esperavam os investigadores, não foi encontrado qualquer efeito entre pessoas que não tinham qualquer preferência. Por fim, os efeitos de enquadramento nas intenções comportamentais foram mediadas pelo impacto do enquadramento na certeza de atitudes. As pessoas tinham mais certezas quando induzidas a pensar na sua preferência eleitoral como uma de oposição em vez de apoio, e essa certeza reforçada foi responsável pelo facto do enquadramento de atitudes de forma negativa levar a uma atitude mais consistente de intenções comportamentais.

Ora, talvez assim se perceba como o PS atingiu resultados tão baixos e PSD e CDS-PP capitalizaram outros votos. Claro que podem existir outras explicações já que o comportamento eleitoral é ainda hoje campo de controvérsias e de crescente pesquisa pelo mundo fora. Contudo, à que reter da teoria dos efeitos do enquadramento que todos os dias somos bombardeados com mensagens pelos media, e outros meios de controlo informal e formal da sociedade, que de forma consciente ou inconsciente têm efeitos práticos em nós. Reconhecê-los é uma forma de poder para que não bebamos insipidamente tudo o que nos chega e compremos falsos discursos como este da grande vitória expressiva que não foi uma maioria.

A fragilidade dos resultados eleitorais destas legislativas demonstram o quão dividido está o país em termos de ideais e ideias para o presente e futuro, que não há consenso quanto às soluções, que tudo pode por isso ser pensado e possível. Boaventura Sousa Santos já falou em eleições daqui a dois anos pois não só este novo Governo não goza dessa maioria expressa, como as condições impostas pela Troika são anti-democráticas – diria eu de ingerência na soberania nacional, e, por fim, as condições sócio-económicas e estruturais em que o mundo ocidental parece habitar colapsam diante das pressões dos mercados e ultimamente sofrem, e bem, as pressões resultantes dos movimentos sociais que vão surgindo e tomando forma um pouco por todo o lado. Tudo está em aberto!

Logo, a bem da memória de Sá Carneiro, que muitos dizem estimar, convinha que não usassem os slogans quando os mesmos são inverdades. É que 1 mentira mil vezes repetida não se torna uma verdade!

O PSD não tem maioria. Ela só existe em coligação com o CDS-PP. Líder que é líder deve reconhecê-lo!

Paulo Sá eleito deputado CDU pelo Algarve

No dia da sua eleição, rtp.

Paulo Sá é o primeiro deputado eleito pela CDU por Faro desde 1987

Paulo Sá é professor associado com agregação do departamento de física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade do Algarve, doutorado em Física pelo Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa.

A importância da sua eleição prende-se com o reforço do trabalho da CDU na Assembleia da República em defesa do nosso país e mais especificamente do Algarve. Embora a CDU não tivesse deputado pelo Algarve, a CDU nunca deixou de levar os problemas do Algarve à Assembleia da República através dos outros deputados eleitos. Uma dessas situações foi o arranjo da Estrada EN264 Messines-Algoz que PS e PSD rejeitaram pois o Algarve necessitava de outras coisas mais urgentes!!!!!!!!!!!!! Olhando para o concelho de Silves não se percebe sequer o que foi feito!

Ainda quanto aos resultados obtidos pela CDU nestas legislativas, apesar de termos consolidado a expressão eleitoral – o que já havia acontecido nas legislativas de 2009, temos um longo trabalho pela frente já que de fundo não houve alteração no quadro de prática política do país com este governo PSD – CDS.  Como afirmou Jerónimo de Sousa ontem à noite:

PSD e CDS bem podem nesta noite e nestas horas mais próximas insistirem na palavrosa disputa sobre o futuro governo, as pastas e ministérios que cada um já reclamará, para iludir os previsíveis entendimentos em torno daquilo que os une e unirá: a defesa dos interesses dos grupos económicos e financeiros; a concretização de um programa, o pacto com o FMI, a UE e o BCE que é uma verdadeira declaração de guerra aos direitos e condições de vida dos trabalhadores e do povo que, todos e cada um por si, mantiveram escondido dos portugueses.

O resultado destas eleições são essencialmente expressão directa de um apoio eleitoral ditado pelo conjunto de promessas e intenções que PSD, CDS e PS semearam, iludindo sempre que o memorando que subscreveram com o FMI e a UE, constitui de facto o seu único e verdadeiro programa de acção.

Os votos agora obtidos por PSD e CDS, mas também pelo PS, podem ser apresentados como resultado do que falsamente prometeram. Mas não podem seguramente ser invocados para legitimar o programa de ingerência externa que mantiveram escondido e portanto não escrutinado, e para justificar as medidas de agravamento da exploração de quem trabalha, de acentuação das injustiças, de empobrecimento e declínio do país.

E mentira fosse que não estão todos na mesma página, cá está a 1ª página do expresso:

Convém ter em mente que embora Sócrates se vá demitir de secretário-geral do PS outros lá continuam resguardados pela sua frase de ontem em que assumiu a responsabilidade sozinho. Sangrou um para que os outros não tivessem que dar a cara. Não hajam ilusões porque não estamos em tempo de poder cometer muitos mais erros! não é com a saída de Sócrates que o PS vai passar a ser de esquerda!

hoje que é dia da criança, pensamento para 5 de Junho

“se tolerares isto, as tuas crianças serão as próximas

“if you tolerate this your children will be next”

 

The future teaches you to be alone
The present to be afraid and cold
So if I can shoot rabbits
Then I can shoot fascists

Bullets for your brain today
But we’ll forget it all again
Monuments put from pen to paper
Turns me into a gutless wonder

And if you tolerate this
Then your children will be next
And if you tolerate this
Then your children will be next
Will be next
Will be next
Will be next

O futuro ensina-te a estar sozinho
O presente a ter medo e frio
Se eu posso caçar coelhos
Então eu posso caçar fascistas

Balas para o teu cérebro hoje
Mas vamos esquecer tudo isso de novo
Monumentos passados da caneta para o papel
Tornam-me numa maravilha cobarde

E se tu toleras isso
Em seguida, os teus filhos vão ser os próximos
E se tu toleras isso
Em seguida, os teus filhos vão ser os próximos
Vão ser os próximos
Vão ser os próximos
Vão ser os próximos

cdu, para um país com futuro

sou obrigado a concordar que as campanhas do PCP são autênticas. E como sou uma pessoa de direita sou insuspeito na análise porque considero que o PCP, ou melhor, o ideal comunista, faz tanto sentido no século XXI como comprar uma charrete para ir para o trabalho. Mas em termos de mobilização, animação, ausência de patranhas ou idas à pesca de figurantes para encherem praças ou palcos o PCP continua a dar lições aos restantes partidos cheios de vícios, marketing e falsidade. E isso tem a ver com uma coisa simples: a genuinidade, a autenticidade dos militantes e principalmente do seu líder, Jerónimo – o dançarino. Just Dance!

Ai essa cabecinha sr. tiago mesquita!
Se não tem vícios, marketing e falsidade é porque o ideal comunista é de facto uma solução, e discordo se si, com o preço do gasóleo e da gasolina actual mais valia andar de charrete, farta de contribuir para alimentar burros que nem isso sabem fazer estou eu.
E se a “cassete” não muda é porque o nosso país não evoluiu. E estivéssemos enganados a história recente infelizmente mostra que não estávamos. O Euro a colapsar, solidariedade europeia zero – até porque a ideia da UE não era essa, os comunistas é que são os utópicos mas os outros é que compram facilmente os discursos populistas de treta, – e até o “Paulinho das Feiras” tem feito a sua campanha com uma das faixas da nossa cassete, a agricultura e a revitalização do tecido produtivo.
No fim do dia há os que preferem viver amedrontados com o estado actual de coisas do que encarar a possibilidade de mudança séria, honesta e progressiva para o país. No dia 5 de Junho basta votarem CDU para um outro rumo.

Em democracia a qualidade da mesma está nas nossas mãos.

SÓCRATES É GENTE A QUEM A DEMOCRACIA DEU VOTOS, MAS QUE NÃO SABE USÁ-LOS

“A PSP fez hoje uma detenção e identificou alguns membros do grupo que hoje se manifestou contra o Governo nas imediações do comício do PS em Faro, que terminou em ambiente de confusão. (…)

O secretário-geral do PS lamentou depois a manifestação, considerando que são pessoas que não sabem respeitar o direito de reunião por parte dos partidos. (…)

Para José Sócrates, a manifestação realizada à porta do seu comício foi própria de pessoas que “não sabem o que é a democracia, nem o direito de manifestação por parte dos partidos”.“Acho absolutamente lamentável o que aconteceu. Enfim, é gente a quem a democracia deu direitos, mas que não sabem usá-los”, afirmou, ainda em resposta à SIC”.

Mas ainda há quem ache que se vive democraticamente nesta Socratura…