Ter memória: o que faz falta é avisar a malta!

Em 1975, Novembro, apesar dos trabalhadores da construção civil em greve se terem manifestado frente à Assembleia da República e terem visto o VI Governo Provisório, após 3 dias de cerco, dizer que iria satisfazer os seus pedidos de aumento de salários e melhores condições de vida, deu-se a contra-revolução que nos trouxe pela mão de uns poucos ao estado a que o país se encontra hoje!
Portugal já não tinha colónias apesar dos fascistas infiltrados nas forças armadas terem tentado adiar a descolonização. De forma a limitar os direitos dos trabalhadores em Portugal, há pouco conquistados e marcar uma posição, o VI Governo Provisório recusou demitir-se e entrou em confronto com os militares ditos revolucionários no geral. O VI Governo não podia permitir que as classes trabalhadoras ditassem as regras, afinal a burguesia já tinha perdido os investimentos feitos em Luanda. Com as divisões no seio do Movimento das Forças Armadas que já vinham detrás e, sem organização de resistência os Comandos controlados pela direita prenderam os militares conotados com a esquerda. Os Comandos que tinham servido na guerra colonial foram usados como meio para quebrar a luta das classes trabalhadoras. O Governo parou as negociações com os trabalhadores e não aumentou os salários como tinha prometido aos trabalhadores da construção civil. O estado social já na altura deu lugar ao estado policial. O VI Governo voltou a armar a polícia e a guarda nacional republicana para conter e lutar contra os trabalhadores em greve pelos seus direitos, para retirar as pessoas das casas que tinham sido ocupadas a seguir ao 25 Abril. Os indivíduos conotados com a esquerda foram removidos da rádio e televisão, os jornais passaram para controlo do Governo. Juntamente com os Comandos a GNR fez rusgas a casas e cooperativas à procura de armas mas nunca as encontraram. Os agricultores conotados com a direita organizaram ataques às cooperativas e à reforma agrícola.
O VI Governo recusou-se a reconhecer a liderança de Angola pelo MPLA e neste contexto os ataques bombistas conotados com Spínola aumentaram, principalmente a escritórios angolanos e moçambicanos, sedes de partidos de esquerda e à embaixada de Cuba.
Quando oiço dizer que o 25 de novembro trouxe a democracia não sei se hei-de rir do ridículo da afirmação ou de chorar porque no fundo o que o VI Governo Provisório colocou em marcha foi o restabelecimento do controlo do país pela burguesia (fascista ou não) e a sua soberania sobre as classes trabalhadoras. Plano sempre encapotado pelo discurso que se vestia de democracia e de liberdade mas que vendia o trabalho português descapitalizado de forma a ser atractivo para investimentos estrangeiros.
Otelo concorre a eleições para a Presidência da República, Eanes na altura Tenente-Coronel, depois de ter dirigido as operações do 25 de Novembro, também concorreu. Ainda que em campanha em Évora os seus seguranças tenham disparado sobre cidadãos portugueses, que se manifestavam desarmados, causando mortos e feridos, Eanes ganhou na mesma as eleições com sessenta e tal por cento dos votos!!!!!! Entretanto Eanes nomeou Mário Soares primeiro-ministro do I e II Governos Constitucionais, afinal tinha sido eleito com o apoio do PS. Outro facto fantástico: ano e meio depois, Spínola* que tinha sido exilado (Espanha e Brasil) pôde regressar a Portugal e foi reintegrado no Exército. O ciclo de sucessivas governações que nos trouxeram aqui começou lá bem atrás e as reivindicações de hoje não são muito diferentes das de antigamente. Podemos ter melhores condições materiais de vida hoje do que há trinta e tal anos atrás, mas como na altura essas condições estão agora em perigo de se tornarem cada vez mais precárias. Se é que o trabalho foi vilipendiado num tão curto espaço de tempo como agora…

*Spínola que queria preservar o aparelho da Pide na sua maioria!, como refere o capitão de Abril, Dinis de Almeida.

Moral da história: as conquistas ou são concretizadas até ao fim ou se ficam pelo meio, e se deixam amenizar pela conquista de umas poucas reivindicações que já foram direitos conquistados, mais tarde ou mais cedo são retiradas uma e outra e outra vez. De facto, a história repete-se. Esperemos que o fim seja outro!

O que faz falta é avisar a malta! O que faz falta!

Para uma análise mais pormenorizada do 25 de Novembro, “a Verdade e a Mentira na Revolução de Abril: A contra-revolução confessa-se

Alemanha vs. Portugal

A Alemanha derrota-se em Portugal através da participação cívica e política e não em Lviv na Ucrânia. Como hoje nas ruas do Porto onde mais de 30 mil saíram à rua. Nem a chuva os demoveu.

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banca privada ganhou 340 milhões € num dia

No dia a seguir a saber-se que Portugal ia recorrer ao Fundo Europeu a banca privada em Portugal ganhou 340 milhões €.

Oiça a Raquel Freire aqui.

Pelos vistos apenas os islandeses “acham (…) que não têm de pagar pelos erros dos banqueiros e pela decisão daqueles países em usar dinheiros públicos para cobrir prejuízos privados”.

Keep you doped with religion and sex and TV,
And you think you’re so clever and classless and free,
But you’re still fucking peasents as far as I can see,
A working class hero is something to be

Mantêm-te dopado com religião e sexo e TV,
E tu pensas que és tão inteligente e sem classes e livre,
Mas continuam a ser ignorantes do meu ponto de vista,
Um herói da classe trabalhadora é algo para ser

o FMI não vem para ajudar, o que é preciso é mudar o rumo da política

Em última análise a culpa de aqui estarmos hoje é não apenas dos que nos governam mas dos que os escolheram para nos governar, em 30 anos não aprenderam nada.

Não há diluição, não pode haver diluição, das responsabilidades. É preciso apurá-las e responsabilizar quem nos trouxe até aqui. Afinal, o que se faz hoje ao nosso país é criminoso, pura criminalidade económica e essa também deve ser punida.

Quando foi adoptado o Euro a Alemanha tinha uma balança comercial deficitária para com a UE, agora está na mó de cima.

Andamos a financiar quem? Uma pista: lucro para o FMI 520 milhões €. Lucro para os países da UE 1060 milhões €.

Andamos a pagar a crise de quem?! A da banca e a financiar os outros países como a Alemanha para que não cheguem eles a este ponto!

Algarve e as Pescas: código contributivo e pesca artesanal. Caso de Armação de Pêra

Ao longo deste mês várias têm sido as notícias sobre a alteração ao código contributivo da segurança social para o sector das pescas. O mesmo vem agora agravar a situação dos trabalhadores considerados independentes, ou seja os proprietários das embarcações, com uma taxa superior à aplicada aos que estão ao abrigo do regime geral penalizando assim os proprietários das pequenas embarcações, que no Algarve são bastantes*, e que se dedicam à pesca artesanal.

* este mapa interactivo permite ver as quotas de pesca para cada país, as frotas por zona costeira, entre outros dados. Infelizmente só pode ser consultado em Inglês, Alemão e Francês. Contudo, o site, segundo a União Europeia, encontra-se actualizado.

No passado dia 11 de Fevereiro as 12 associações do Algarve filiadas na Federação das Associações de Pesca do Sul (FAPS) reuniram-se em Faro concluindo que:

para além das dificuldades práticas de implementação e das situações de injustiça social que se estão a verificar em todo o país, tais alterações terão consequências sócio-económicas gravíssimas não só para a pesca como para o país. Os dirigentes do Algarve consideram que as novas exigências porão em causa a sobrevivência de muitas pequenas empresas de pesca, como fortes impactos ao nível das comunidades piscatórias, e em nada beneficiam a economia nacional: por um lado, o sector da pesca, que não tinha dívidas à segurança social, passará a tê-las e, por outro, aumentará a fuga à lota. Por isso, os dirigentes algarvios consideram que o novo regime contributivo alargará a mancha da economia negra do sector e influenciará negativamente no esforço de valorização social das profissões da pesca e de rejuvenescimento do seu capital humano.

As associações do Algarve decidiram, por isso, lutar pela reposição do anterior regime contributivo de segurança social da pesca, em vigor há mais de meio século sem ser contestado, exactamente por ser adaptado ao sector e eficaz na protecção social dos pescadores.

A especificidade do sistema contributivo da pesca artesanal em Portugal, que permite o pagamento das contribuições para os regimes de protecção social através de desconto em lota, é vulgarmente estudado e elogiado por muitos países, porque permite garantir, de uma forma fácil e eficaz, a protecção de um segmento em que os rendimentos dependem de se poder pescar ou não, da quantidade das capturas e do preço que por elas se conseguir obter na 1ª venda. Um segmento em que esta incerteza de ganhos é partilhada pelo armador e a tripulação, onde ele próprio se inclui. Um segmento onde os rendimentos da embarcação e das famílias são reduzidos e se dividem por partes.

O novo regime aumentará a carga burocrática, ao introduzir tal variedade de regimes que um barco com 3 pescadores pode ser abrangido por 3 regimes contributivos diferentes, o que é caricato num Estado que se orgulha de estar a implementar o SIMPLEX. Mas – mais importante – criará situações de estrangulamento económico num segmento que representa a maioria esmagadora do tecido económico da pesca (85% das embarcações têm menos de 9 metros**) e de injustiça social, obrigando ao pagamento fixo de contribuições mesmo que não haja rendimentos, fazendo com que pescadores ganhando igual salário, às vezes mesmo pagando igual contribuição, possam ser calculados pela SS [Segurança Social] salários diferentes, tendo já criado tratamento diferenciado e situações de dupla tributação relativamente aos pescadores estrangeiros de países terceiros, que exercem as mesmas funções dos pescadores portugueses.

(…)

A concentração que vamos realizar no Algarve é o pontapé de partida para uma luta que estamos dispostos a travar e que pode ser endurecida se for necessário. Estamos, mesmo, dispostos a avançar para uma paralisação da frota, caso o governo continue a não entender a especificidade da pequena pesca e os perigos para a sua sobrevivência que o novo regime contributivo representa.

** no mapa interactivo pode confirmar-se a quantidade de pequenas embarcações que existem.

Sobre a concentração de protesto que teve lugar no Algarve destacamos estas notícias:

Pescadores protestam contra novo regime contributivo no Jornal do Algarve:

“O regime anterior considerava que todas as pessoas inscritas marítimas estavam contempladas nos 10 por cento descontados na lota”, explicou João Lopes [FAPS] ao JA. Com o novo regime, todos os pequenos proprietários de embarcações de pesca passam a integrar um novo sistema de contribuições fixo, mensal, na ordem dos 118, 64 euros, mesmo que não tenham rendimentos.

Pescadores Algarvios manifestam-se contra novo regime contributivo para a segurança social no Barlavento Online

Com a imposição de uma verba adicional aos pequenos armadores, «o mais certo é que venham a surgir dívidas e eventual arrestamento de bens».
Em muitos casos, avisou João Lopes, a situação poderá não chegar a este ponto porque os pequenos proprietários terão a tendência «para encostar as suas embarcações», com reflexos nos níveis de emprego do setor.
Os reflexos para os trabalhadores serão duplos. Para além da possibilidade de diminuição da oferta de trabalho, «vai sair um protocolo de procedimentos entre a Segurança Social e a Doca Pesca que autoriza o armador a ir buscar parte deste valor aos 10 por cento descontados em lota».
«Desta forma, os trabalhadores são prejudicados, porque veem diminuído o valor de contribuição para as suas futuras reformas».

No nosso concelho a situação é deveras preocupante. A Associação de Pescadores de Armação de Pêra fez um comunicado a 15 de Fevereiro onde se pode ler:

Com a entrada de Portugal na União Europeia iniciou-se o processo de aniquilação das pequenas comunidades de pesca artesanal que caracterizam o nosso país.

Os pescadores de Portugal, sob o domínio de governos que sabem “mascarar” a realidade, têm sido alvo de todo o tipo de pressões.

Foram impostas condições que têm afectado, particularmente, as comunidades de pesca artesanal que, caracterizadas por pequenas embarcações, muitas com apenas um pescador a bordo, têm sido alvo de exigências que, só com muito sacrifício, têm conseguido cumprir.

(…)

O novo regime contributivo para a Segurança Social parece ser a última medida governamental de abate a embarcações.

Os pescadores vão ao mar por necessidade, não são homens que procuram uma vida fácil ou lucrativa, são os resistentes, os que não querem facilidades, querem o simples direito de viver a vida que lhes foi imposta pelas circunstâncias.

Indiferentes a esta realidade estão os nossos representantes, autárquicos e governamentais, prova disto é este novo regime contributivo, que ditará o nosso fim, um crime social protegido pela lei!

(…)

A Associação de Pescadores de Armação de Pêra tem muitos associados que não têm condição económica para cumprir com o novo código contributivo.

Temos atravessado momentos difíceis e toda a comunidade se encontra fragilizada economicamente. São muitas as dívidas aos fornecedores de redes, ao mecânico, ao pagamento dos serviços prestados pela Associação.

A Associação de Pescadores de Armação de Pêra é absolutamente contra o novo regime contributivo. Só no dia 10 de Fevereiro é que nos alertaram para este novo regime e para a obrigatoriedade do pagamento.

Praticamente sem pescas realizadas porque o tempo não o permite e o peixe escasseia, alguns porque são detentores de licenças que não são de pesca durante esta época do ano, sem outra fonte de rendimento que não seja esta, com famílias a cargo e encargos financeiros regulares, os pescadores desta vila não têm como suportar mais este encargo, que não depende da quantidade de pesca realizada: são obrigados a pagar mesmo sem terem rendimento algum!

Acreditamos que temos o direito de ver esclarecida esta situação e de serem considerados todos os factores que condicionam a actividade profissional dos pescadores, para que seja mantido o antigo regime e seja considerado tripulante da embarcação o pescador armador.

Reservamo-nos o direito de não aderir ao novo código contributivo por considerarmos que esta situação impossibilitará a grande maioria dos pescadores a exercer a sua actividade.

As contribuições dos pescadores de Armação de Pêra estão pagas até ao momento. O ano de 2011 iniciou-se com o regime de pagamento que melhor nos serve e assim deverá continuar.

Ao nosso governo deixamos uma simples mensagem:

Deixem-nos terminar o nosso percurso de vida com a dignidade que merecemos!

O sector das pescas tem vindo a sofrer alterações ao longo do tempo sempre para pior, quer quanto às condições de trabalho e aos direitos dos pescadores, quer quanto às frotas, às quotas de pesca, às licenças e traçados.

Embora seja sempre lembrado com saudosismo o tempo das descobertas está mais que visto que o discurso é o do passado e o presente e futuro próximos não apresentam sinais de uma acção eficaz e favorável à dignificação do sector e dos seus profissionais, bem como à solidificação do sector como forma de progresso para o país.

Situação preocupante numa região onde o desemprego está a avançar de forma galopante e onde as perspectivas de trabalho são cada vez menores, mesmo quando o mar é a nossa maior riqueza e dele dependem já uma maioria esmagadora de famílias que não possuem outros rendimentos. O pior não é acabar-se com uma tradição!, a pesca artesanal, o pior é acabar-se com o sustento das pessoas, o pior é não serem efectuadas alterações estruturais que melhorem as condições de vida daqueles que providenciam o nosso alimento. Como se já não bastasse a discrepância que existe no preço do peixe que o consumidor final paga para o preço a que é vendido na lota ao revendedor, situação muito injusta e que na área alimentar se repete também na agricultura – prejudicando o produtor, neste caso o pescador, exige-se ainda uma parte de um trabalho que nem sequer foi levado a cabo – como se percebe pelo comunicado da Associação de Pescadores de Armação de Pêra.

Tempos difíceis em que a resignação não é o caminho mas sim a luta. Sou solidária com esta luta tal como a CDU Silves, sendo que, a vereadora Rosa Palma já efectuou diligências juntos dos deputados do PCP eleitos na Assembleia da República para que intervenham nesta matéria.

É necessário divulgar esta situação para que as pessoas tomem conhecimento e se solidarizem com os pescadores, os de Armação de Pêra, mas também todos os outros da região Algarvia e os do País.

Caricato é os membros do governo parecerem não entender as consequências das suas acções:

Após inaugurar a lota de Albufeira, no Algarve, Serrano [ministro da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas] explicou que «a taxa para os independentes é superior ao do regime geral, aos dos trabalhadores por conta de outrém, que é calculada com base nos 10 por cento da venda em lota», mas frisou que «ainda assim é inferior à de outros sectores de atividade».

e do Brasil boas ideias para colocar em prática: pescado artesanal deve integrar merenda escolar

últimas da TSF: Inspector Geral da Agricultura e Pescas apresenta demissão!

testemunho do país real!

Deixo aqui o apelo de um cidadão português, idade 50 anos, casado, pai de dois rapazes. Chama-se António Oliveira, vive em Torres Vedras. O testemunho seguinte é dele mas existem na sua situação muitos mais…

A quem ler estas minhas palavras quero desde já pedir desculpa se de alguma forma poderei ser maçador por escrever com tantas palavras, mas não conseguiria expressar o que sinto de outra forma, por isso peço desculpa e se puderem leiam até ao fim. Obrigado.

Desde que fiquei desempregado à cinco anos a minha vida transformou-se completamente, na minha vida profissional activa de então tinha um rendimento acima da média como director da empresa que representava , a minha esposa também devido à função que exercia tinha também um bom vencimento, nos últimos anos de trabalho consegui concretizar alguns sonhos, fazer poupanças, para que pudesse melhor assegurar um futuro para os meus filhos, viajar um pouco para conhecer-mos outras realidades, comprar os carros dos nossos sonhos, obter para a nossa casa o que de melhor nos poderia dar conforto, poder oferecer à minha esposa algumas lembranças que marcassem pelo menos os onze anos que já estamos juntos e que nos trouxeram também as felicidades dos nascimentos do meu filho de dez anos, o André e do meu filho de três anos, o António, enfim uma vida normal de uma família de classe média.

Nunca antes estivera desempregado e mesmo quando me defrontei com esta realidade desconhecida para mim, achei que rapidamente esta situação mudaria, até porque na área em que trabalhava sempre fui considerado um profissional acima da média, mas a realidade tem sido bem diferente, talvez devido à minha idade nunca mais consegui arranjar trabalho como gestor, aliás cheguei à conclusão que o melhor era esquecer tudo para que me preparei ao longo de anos, não só com a minha formação académica mas também outras formações mais especificas direccionadas para a minha vertente profissional.

Tive que optar por outras alternativas profissionais para as quais nem sabia que tinha capacidades, como motorista de pesados, trabalhador agrícola, servente de pedreiro, carpinteiro, mas mesmo assim não consegui até agora um trabalho que tenha durado mais de dois meses e sempre como temporário, o que me traz grandes preocupações sobre como gerir as necessidades da minha casa e da minha família, em Dezembro consegui um trabalho de motorista de pesados que pensei que iria ser permanente mas no final desse mês devido ao decréscimo de serviços da empresa fui dispensado.

Quando fiquei desempregado e comecei a receber o subsídio de desemprego, por iniciativa própria fiz um contrato de prestação de serviço com o IEFP de Torres Vedras, achei que assim, como cidadão, que tem deveres para com a sociedade, poderia desta forma contribuir para ter um País socialmente mais justo, engano o meu, quando o subsídio chegou ao fim e deixei de ser um “encargo” para o Estado fui pura e simplesmente “despedido” apesar da necessidade que prevalece relativamente ao trabalho e funções que exercia na Escola Secundária Madeira Torres.

A minha esposa que também está desempregada à cerca de dois anos também não tem conseguido trabalho nem como doméstica, ambos pusemos na minha pagina do facebook ofertas de serviços que podemos prestar, para além dos anúncios de ofertas de trabalho a que respondemos todos os dias, mas até agora não houve qualquer resultado.

Entretanto ao longo deste tempo fui gastando todas as economias que tinha, liquidei os PPRs e seguros de saúde e para sobreviver fui vendendo todos os bens que tinha, primeiro vendi antiguidades e peças de valor que tinha em casa, depois as jóias da minha esposa, e a seguir os carros, também troquei de casa pois devido a não ter já condições tive que mudar para uma casa arrendada, que agora também não consigo pagar devido a não ter mais valores ou rendimentos para fazer face a todas as despesas mensais de casa, para além disso sofremos o corte dos apoios que tínhamos conseguido através da Seg. Social, primeiro deixamos de receber o subsidio de apoio à renda de casa e a seguir tivemos um corte de 50% no valor dos abonos dos nossos filhos, actualmente já não recebemos qualquer subsídios de desemprego.

Felizmente tenho ainda comida em casa graças a algumas pessoas que me ajudaram, mas se não conseguir urgentemente um trabalho até estes acabarão, se não conseguir depressa um trabalho terei que ir viver para a rua pois estou na iminência de receber do senhorio ordem para abandonar a casa devido a já ter duas rendas em atraso, tenho mesmo que conseguir um trabalho pois está em causa a sobrevivência da minha família.

Todas as instituições que contactei no sentido de conseguir algum apoio, deram resultados negativos, ou seja, nada consegui, o Estado não consegue que a miríade de institutos e instituições que alegadamente rolam à volta de cada cidadão funcionem com eficácia , na verdade os direitos que a constituição consagra a todos os cidadãos que cumprem os seus deveres já não existem, na verdade o estado social esqueceu a dimensão de família, na verdade estes direitos estão reféns desta cleptocracia vergonhosa, imposta por todos os profissionais da politica que governam o nosso País de forma irresponsável e impune esquecendo os direitos e valores sociais porque tanto se lutou e que agora apenas servem de estandarte para a concretização dos seus objectivos pessoais.

Sinto uma angústia muito grande dentro de mim, sinto uma enorme frustração por não conseguir apenas um trabalho para poder dar uma vida minimamente digna aos meus filhos, sinto um desencanto total por esta sociedade em que vivo, não sei o que poderá acontecer amanhã, não sei o que terei que fazer para evitar cair numa situação em que depois aqueles que me deviam ajudar, poderão, devido à minha situação precária, fragmentarem a minha família separando-me dos meus filhos com a desculpa de que o estado está preocupado com o bem estar das minhas crianças e que só está a pensar no que é melhor para elas.

Nunca irei deixar que essa situação possa acontecer, eu amo muito os meus filhos e também só quero o melhor para eles eu amo muito a minha família (minha esposa e meus filhos) e por eles farei o que for necessário para nos manter juntos e se para isso eu tiver que pensar em fazer alguma coisa menos digna não pensarei duas vezes, pois estou cansado de apelar, estou cansado de pedir ajuda e não ter resposta, estou farto de ter que mendigar por alguma atenção para a minha situação que é dramática, e eu não irei sujeitar a minha esposa e filhos a viverem na rua ou num abrigo da segurança social, se é que existem.

Cada vez é mais difícil para mim viver neste estado permanente de ansiedade, nesta angústia do dia-a-dia sem saber se amanhã terei comida ou tecto para dar aos meus filhos, não aguento mais viver assim, mas também sei que tenho que ser forte, e tenho que ser forte para porventura engolir os meus princípios morais pelos quais sempre tentei ser um homem justo, tenho porventura que esquecer o meu carácter de honestidade de sensatez de sinceridade de justiça que sempre tentei seguir ao longo da até agora minha curta vida e pensar que terei que fazer tudo o que nunca pensei fazer para salvar a minha família de uma situação a que nunca pensei chegar.

Será que tem que ser assim, será esta a nova sociedade em que temos que aprender a viver, em que o que conta é ser o mais forte, o mais inteligente, o mais esperto, o menos honesto e menos escrupuloso ?

Nunca pensei sequer que algum dia teria estes pensamentos a trespassarem a minha cabeça, que alguma vez poria tantas coisas em causa, que alguma vez teria tantas dúvidas acerca de tantas coisas e acerca de mim próprio, acerca do que a vida me está a fazer passar, mas uma coisa eu sei, que não quero perder a minha família.

Eu só quero poder trabalhar, eu só quero trabalho para mim e para a minha esposa, só queremos ter o direito de dar uma vida digna aos nossos filhos, só queremos ter o direito de ser uma família.

Por favor ajudem-nos, ajudem-nos a encontrar alguém que nos dê uma oportunidade para trabalhar, só queremos poder trabalhar, precisamos urgentemente de um trabalho pois estamos muito aflitos com o risco de receber-mos a qualquer momento uma ordem de despejo da casa que habitamos.

Só peço a quem ler estas minhas palavras que me ajude enviando nossos currículos para os contactos que acharem mais pertinentes nesta nossa procura desesperada por um trabalho, poderei enviar estes directamente para esses contactos ou reencaminhar por e-mail para onde me solicitarem, também está na minha página uma lista de serviços (biscates) que podemos prestar de forma pontual ou temporária mas que tem alguma limitação geográfica.

Agradeço desde já a todos os que leram esta minha carta o tempo e a atenção que me deram.

Um Pai e Responsável de Familia Aflito.

António Oliveira

918779970