Consultas no veterinário

Há 4 anos que tenho um cão. É um facto trivial, bem sei. Não interessa a ninguém, nem mesmo ao meu cão. Mas o meu cão tem-me ensinado várias coisas sobre várias coisas. Podia aqui dar muitos exemplos, mas não tenho especial interesse em dissertar sobre cães, tive uma vizinha que gostava mais do cão do que das pessoas e desconfio das pessoas que gostam mais de cães do que de gente – embora deva confessar que já me tem acontecido. Por exemplo, no caso dessa vizinha: o cão era realmente melhor pessoa do que ela.

Queria destacar aquele que considero o maior ensinamento que o Leão me trouxe. (Se revelo aqui a sua identidade, à revelia dos códigos deontológicos e da comissão nacional de proteção de dados, é porque vai gostar de ler o seu nome no jornal). Que ensinamento foi esse? O Leão fez-me descobrir os médicos veterinários. Não quero alongar-me, não quero sequer a piada estafada: “ai não sabias que havia veterinários?”. Vou direito ao assunto: desde que levo o Leão ao veterinário, tenho meditado sobre as diferenças entre este e os médicos dos animais humanos. E, posto no prato da balança o que anda a passar-se na área da saúde que tem como objeto – sublinho: objeto – os humanos, pondero passar a consultar-me no veterinário. Razões:

– para assuntos correntes da patologia reúno evidência de que é tão competente como os seus colegas que tratam humanos. E os humanos, do ponto de vista biológico, não passam de animais;

– é mais barato;

– tem muito mais tempo para estar com os clientes do que os médicos do centro de saúde;

– os serviços de urgência são muito mais rápidos do que os dos hospitais, não se paga taxa moderadora  e não funcionam com a triagem no sistema de Manchester;

– percebe os clientes sem estes terem de falar. Não que eu goste de não falar quando vou ao médico, mas normalmente não consigo;

– tem menos peneiras: assobia, diz “bichano, bichano!”, põe-se de gatas para tratar gatos, de cócoras para tratar cães, em bicos de pés para tratar cavalos. Os médicos dos humanos só se põem em bicos de pés;

– fruto da caraterística anterior, admite o erro. Quanto aos dos animais humanos, são especialistas no binómio reconhecimento/não-reconhecimento: reconhecem a entidade mórbida, normalmente à custa duma série de exames ultratecnológicos cujo funcionamento foi inventado a leste da medicina, mas não reconhecem a hesitação ou o engano. A nós, confrontados com a crueza dos factos, resta-nos mudar de médico, enquanto eles mudam de paciente – e não é à toa que se chama paciente;

– dá-se ao trabalho de fazer observação clínica: toca, apalpa, avalia a olho clínico, fiel à natureza primeira da medicina, que sabia ler o corpo, dialogava com ele e fazia o seu cuidado numa luta corpo a corpo com a doença. Detesto ir ao médico dos animais humanos e este estar fixado no ecrã do computador, não olhar nem de relance para a zona de que me queixo e se limitar a passar uma série de exames auxiliares de diagnóstico fingindo que eu não estou à sua frente. Quem me garante que em vez de estar a escrever na minha ficha clínica não está a jogar Tetris?

– escuta os familiares, envolvendo a consulta num tom comunicativo em que todos podem exprimir a dor que vai na alma do cão ou do gato. Tecnicamente chama-se a isto modelo sistémico, e é surpreendente que sejam os veterinários a praticá-lo, produzindo com isso o paradoxo de tornar aquela consulta animal muito humana, enquanto muitos dos seus colegas de gente envolvem por vezes o setting clínico numa certa animalidade. É fácil constatar empiricamente o que digo escutando os comentários à saída de certas consultas num serviço de urgência ou num centro de saúde: “pensam que sou algum animal?”.

– não está em fuga para os HPPs, hospitais da CUF e clínicas disto e daquilo, descapitalizando do ponto de vista da competência técnica o serviço nacional de saúde. Os veterinários estão onde é preciso, e não onde se paga como um cão;

– as salas de espera são muito mais divertidas: há vários tipos de bicharada, ótimo para quem gosta de contemplar a diversidade do reino animal, os clientes não contam a história enfadonha das suas maleitas e pode urinar-se nas esquinas.

Há também vantagens do lado do profissional de saúde: generalizando aos humanos os seus métodos, pode assaimar alguns clientes incapazes de se calarem. Por qualquer razão este género de clientes acorre muito aos médicos, atrasando o fluxo das consultas e exacerbando a tendência destes para não terem paciência para ouvir.

Outra vantagem está do lado daqueles que têm realmente vocação para ser médicos, que têm legítimas aspirações a sê-lo e não conseguem entrar em nenhuma das nossas poucas faculdades de medicina. Como é sabido, só acedem a este curso indivíduos com média de candidatura próxima do 19, ou seja, pessoas que não são normais. E do que nós precisamos é de pessoas normais a irem para medicina, pessoas que depois continuem normais e que convertam a medicina numa ciência e prática ao serviço da comunidade e de cada um de nós. Os realmente vocacionados, não entrando nesses cursos onde só entram os raros, iriam cursar veterinária e fariam depois um desses mestrados de agora, um mestrado rápido e em inglês sobre animais humanos – e pronto, toca a atender o pessoal nos centros de veterinária. Porque, afinal, não passamos de animais – nós, os veterinários e os médicos.

Luís Fernandes escreve segundo o novo acordo ortográfico

Nasceu no Porto, em 1961. Professor associado da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto. Tem dedicado os seus trabalhos de investigação à expressão do fenómeno droga em contexto urbano. A evolução deste fenómeno conduziu-o à pesquisa sobre o sentimento de insegurança, a violência urbana, a marginalidade e a exclusão social. Durante vários anos foi cronista dos jornais “O Comércio do Porto”, “A Página da Educação” e “Público”. Mantém actividade literária com o pseudónimo João Habitualmente.