Comunicação Social e Manutenção Político-partidária

A importância da comunicação social para os políticos é óbvia. Para ganhar eleições, no curto e longo prazo, os candidatos ou os partidos políticos têm de atrair os eleitores. A maior parte das pessoas não está motivada para seguir activamente, e atenciosamente, a vida política (Iyengar & McGrady, 2005). Ao invés, as pessoas formam opiniões e preferências baseadas no que vêem e lêem nos meios de comunicação. De resto, os candidatos que gerem melhor, com mais eficácia, os meios de comunicação, são normalmente quem vence as eleições.

Como resultado de alterações que ocorreram nas campanhas políticas nos últimos 50 anos, as instituições políticas que tradicionalmente organizavam e agregavam as preferências das pessoas atrofiaram e foram substituídas pelos meios de comunicação (Polsby, 1983). Aliás, o uso/manipulação da comunicação social para promoção de objectivos políticos é essencial para a sobrevivência política, além de ser prática usual.

Com o aumento do número de canais de comunicação a competição pelas audiências também aumentou, e tal afectou a forma das notícias políticas, ajudando os políticos e os seus partidos a evitar o escrutínio de aspectos importantes respeitantes ao candidato e à forma de governar, tais como posições políticas que permitiriam aos eleitores tomar decisões políticas informadas. De modo crescente, a necessidade de cativar as audiências tomou precedência sobre a “antiga” norma jornalística de informar os leitores/espectadores (Kalb, 1998). As forças de mercado requerem que as notícias sejam apresentadas num formato de entretenimento e com um valor de interesse – mesmo que as histórias sejam duvidosas do ponto de vista cívico ou de relevância educacional (Kalb, 1998). Assim, na cobertura das campanhas políticas, a incerteza e o suspense associados à representação dos candidatos como jogadores estratégicos na tentativa de manipular os eleitores, é mais provável de captar e segurar a atenção do público que outros aspectos mais reais, com substância, da campanha (Patterson, 1993).

Dado que existem, hoje em dia, formas menos rigorosas de jornalismo, tendo em conta as necessidades do mercado, os meios de comunicação são hodiernamente menos capazes de resistir activamente a fontes institucionais e governamentais (Iyengar & McCgrady, 2005). O resultado é uma forma de “relatar” diferencial, em que a ideia do jornalista independente com a capacidade de desafiar as fontes oficiais cessou de existir (Dorman & Farhang, 1987; Bennet, 2000). Ganha especial importância a influência que as elites políticas podem exercer no público em geral, dado que os seus pontos de vista são raramente desafiados pelos meios de comunicação de massas mais genéricos, isto porque os jornalistas têm cuidado para não irritar e alienar as fontes nas quais têm que basear-se para criar as suas histórias (Iyengar & McGrady, 2005).

As elites políticas são assim mais capazes de manipular, e estão mais dependentes dos meios de comunicação que nunca (Iyengar & McGrady, 2005). É axiomático que aqueles que são capazes de influenciar o conteúdo e imagem das notícias têm sucesso em melhorar a sua permanência no tribunal da opinião pública, e ao fazê-lo estar na mó de cima, como é o recente caso de José Sócrates.

Pense-se agora no impacto, não esquecendo os jogos de bastidores, que o comentador político que entra pelas tv’s adentro pode ter. Impacto esperado e calculado quer por quem vai comentar quer por quem o convidou a ter esse espaço de opinião. No significado do comentador ter desempenhado funções políticas e estar agora a comentar as dos que exercem actualmente. Questione-se não apenas sobre Sócrates mas sobre todos os outros, na RTP, na SIC, na TVI e nos outros canais de televisão. Perceba-se o que dizem essas escolhas das linhas editoriais desses mesmos canais. Falei das televisões mas falo também dos jornais, de quem lá escreve as suas opiniões e, mais uma vez, de que os convidou.

Na imagem/representação global do país, dos seus problemas e soluções, a velha pergunta de Harold Lasswell “quem diz, o quê, a quem, como (através de que canal), e com que efeito?” coloca-se cada vez mais pertinente como forma de desconstruir esta construção social da realidade. A bipartidarização partidária, a bipartidarização das soluções para a crise que vivemos também se constrói aqui. Da mesma maneira que também foi aqui que se foi ignorando a crise, os seus aspectos e os seus actores. A manutenção dos partidos-políticos e a manutenção de algumas figuras que ganharam notoriedade por terem desempenhado funções enquanto membros desses mesmos partidos também se constrói aqui. A desconstrução, a resistência e a solução para uma sociedade mais informada passa por uma comunicação social cujos meios não estejam intrinsecamente ancorados a indivíduos ou instituições do controlo social formal.

Como é que as pessoas que apenas lêem notícias ou as visionam (são a maioria), as tais que não estão motivadas para seguir activamente a vida política (e por isso são menos activas na procura de outras informações/vias informação), conseguem ter diferentes perspectivas sobre o mundo onde vivem se a maioria dos canais que veiculam notícias têm como produtores de opinião mais do mesmo?

Vivemos na sociedade líquida, consumista e individualizada de Zygmund Bauman, onde os meios de comunicação o que nos trazem, no lugar de discussões relacionadas com os nossos modos de existência público e privado, “são lições públicas sobre a vacuidade da vida pública e sobre o vazio das esperanças postas em tudo o que seja menos privado que os problemas e as soluções particulares. Os solitários indivíduos entram hoje numa ágora e não se encontram a não ser com outros que estão tão sós como eles mesmos. Voltam para casa tranquilizados com a sua solidão reforçada.” (Bauman, 2001, p. 231)

Há, a acrescer ao que foi dito, uma desvinculação das “elites” com as comunidades de origem, as “elites” são cada vez mais globais ao contrário da maioria da população que é cada vez mais localizada (basta ir ver a origem de alguns políticos e as suas práticas antes, durante e após eleições). E é neste pano de fundo que também se jogam as relações de poder que permitem o aumento da desigualdade social que os meios de comunicação social veiculam e que contribuem para as nossas representações sociais e para a construção social da realidade.

É certo que o leitor/espectador não é tábua rasa onde se inscreve o que lê e vê, que ele interage, que os efeitos da acção dos meios de comunicação, quer no geral quer no particular, são bastante complexos, que há uma componente cognitiva-afectiva-emocional. Contudo, o ponto aqui é outro. Se o discurso disseminado é na sua grande maioria o mesmo, quem não procura informar-se estará exposto a uma visão restrita e hegemónica acerca do mundo onde vive. Não admira pois que exista de forma transversal uma bipolarização do discurso e das práticas, nos meios de comunicação social e noutras esferas da vida.

Referências:

Bauman, Z. (2001). A Sociedade Individualizada: Vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Zahar. 

Dorman, W. A., & Farhang, M. (1987). The U.S. Press and Iran: Foreign policy and the journalism defense. Los Angeles: University of California Press;
Kalb, M. (1998). The Rise of the New News. Discussion Paper D-34. Joan Shorenstein Center, Harvard University;
Patterson, T. (1993). Out of Order. New York: Knopf;
Polsby, N. W. (1983). Consequences of Party Reform. New York: Oxford University Press;
Iyengar, S., & McGrady, J. (2005). Mass media and political persuasion. In Brock et al. (eds.) Persuasion: Psychological Insights and Perspectives.
London: Sage Publications.

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