liberdade e democracia: perspectivas do governo e do povo!

Disse o Governo, hoje, em comunicado que ”manifestações como aquela a que se assistiu nas instalações do ISCTE suscitam necessariamente o repúdio da parte de todos quantos prezam e defendem as liberdades individuais, designadamente o direito à livre expressão no respeito pelas regras democráticas”. Comunicado como reacção do Governo aos apupos dos estudantes do ISCTE com que Relvas se viu confrontado quando ia falar numa conferência que a TVI organizou de forma a comemorar os seus 20 anos de existência. Título da conferência “Como vai ser o jornalismo nos próximos 20 anos”.

Condição fundamental para que haja liberdade e democracia é o respeito, o respeito por nós próprios e o respeito pelos outros. Já sabendo o senso comum que para se ser respeitado há que dar-se ao respeito. Ora, este Governo tem em alguns dos seus membros o oposto desta lógica. Ou seja, não se dão alguns dos ministros ao respeito. Dizer que levar Relvas à universidade para versar sobre jornalismo, a não ser que vá falar sobre o totalitarismo e o lápis azul na comunicação social – tem experiência nisso, basta lembrar o caso em que o senhor ameaçou a jornalista do Público, é gozar com a cara da maioria dos portugueses, é pouco. É de facto um insulto. Querem maior prova de falta de respeito por todo um povo que os milhões que andam a injectar nos bancos privados à conta da exploração fiscal e económica de todos nós?!

Depois, muito mais insultuosa é a postura de alguns jornalistas da praça como José Alberto de Carvalho (TVI) que considera que o que os alunos fizeram foi um abuso, que ultrapassaram a sua liberdade de expressão porque interferiram com a do outro, neste caso a de Relvas. Ou seja, a TVI que se autodenominou nas palavras de J. A. Carvalho como sendo um canal de informação de referência (deixem-me rir que é para não chorar) faz uma manipulação do que aconteceu no ISCTE. Fica a parecer que os estudantes amarraram Relvas ao palanque, imobilizando-o, colocando-lhe fita cola na boca, para que ele não abrisse o piu!, ou então que o raptaram da sala! Não foi nada disto que aconteceu. Relvas escolheu, em conferência com J. A. Carvalho (como se pode ver no vídeo acima), ir-se embora. Podia ter ficado, esperava que os apupos acabassem (se acabassem) e falava. Decidiu que não tinha condições, que não estava mais para aturar as palavras que lhe eram dirigidas e saiu da sala. (Dinheiro Vivo foi dos poucos meios de informação que relatou de forma fiel o que se vê no vídeo). Também me parece, no mínimo, pouco inteligente que pensassem que levar Relvas a uma qualquer Universidade não ia causar indignação!…

A postura dos estudantes quanto muito dignifica a academia, traz alento a quem já não tem esperança de que as coisas mudem. É sinal que a academia está viva, que ainda se formam Pessoas na Universidade, seres pensantes e não papagaios. Pessoas que sentem na pele a incerteza do futuro pelo qual lutam dia-a-dia no presente. A academia sempre teve, desde que existe, ao longo dos períodos mais conturbados da nossa história um papel importante na construção da democracia do nosso país, lembro as lutas académicas dos anos 50 e 60. Pelos vistos os jornalistazecos, os comentadorzecos, os politicozecos, e outros tantos, que por aí andam a criticar a postura dos estudantes como se eles tivessem roubado alguém, deviam cultivar-se. Deviam indignar-se e revoltar-se, e comentar, e escrever sim, mas sobre os que há anos vilipendiam os sonhos de muitos, os que se fazem eleger com palavras ocas e depois vendem o povo e o país por meia dúzia de tostões só pra proverem ao seu próprio umbigo. Por certo o canal de televisão TVI, daqui a 20 anos, não irá convidar para falar sobre jornalismo uma figura que obteve o seu grau académico de forma, digamos, pouco transparente e pouco meritória – se aprendeu qualquer coisa com o que se passou ontem!

Num país assolado pela falta de ideais, pela falta de políticas coerentes, sérias e progressistas, pela má distribuição do dinheiro, pelas dificuldades que daí decorrem, pelas pessoas que não têm que comer ou que têm cada vez menos, o jornalismo sério e de referência – tal como a política – precisa de gente séria que o leve a cabo, que o cumpra. Tomara que o exemplo que os estudantes deram hoje se multiplicasse país fora. Podia ser que alguns ganhassem consciência, prefiro-a ao medo, que é a arma que o Governo tem andado a utilizar para estrangular a democracia neste país. Vêm depois qual paladinos falar de democracia e liberdade. Forjem uma consciência, talvez precisassem mesmo de ir frequentar a universidade, ou um trabalho que os colocasse cara-a-cara com as pessoas que todos os dias lutam e trabalham por um país melhor. Este discurso higiénico sobre a democracia e as liberdades deviam ser obrigados a engoli-lo em consciência, tivessem-na e, algum sentido de decência, de carácter.

O país é o reflexo do ideal colectivo que venceu nas últimas eleições, como as políticas deste Governo reflectem o ideal colectivo de país definido e executado pelos seus membros. O que não quer dizer que o ideal colectivo de país definido e executado em vigor seja o mesmo que venceu nas últimas eleições. Basta lembrar as promessas eleitorais e olhar para o que de facto foi, e é, feito.

Contudo, a democracia e a liberdade de expressão política não se esgotam no voto. O problema dos políticos “profissionais” (que muita gente gosta de defender, como se a política não estivesse inerente à maioria das actividades quotidianas de todos nós) é que vivem da bíblia que depois de serem eleitos já não precisam de quem os elegeu para nada; mas o problema maior é que quem neles votou não é o primeiro a pedir-lhes responsabilidades e a exigir que se demitam quando está mais que visto que capacidades para governar o país são inexistentes.

NOTA: Caso alguém tenha dúvidas, ou falta de bom senso, o protesto é uma forma de liberdade de expressão democrática. Para alguns saudosos do Salazarismo é que esta coisa de se ser confrontado com as escolhas políticas que se fazem em nome de todos nós (também isto é participação política) é além de chato, “asfixia democrática”.

P.S.: espero que o curso que a TVI anunciou que irá promover juntamente com o ISCTE não tenha professores do calibre de Relvas.

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