notas de leitura: Carl Jung, o indivíduo e a política

Dizia Jung em 1938* Não há nenhum país civilizado nos dias de hoje onde as camadas baixas da população não estejam num estado de inquietação e de oposição. Em vários países europeus tal condição está também a tomar conta das camadas altas. Este estado de coisas é a demonstração do nosso problema psicológico numa escala gigantesca. Na medida em que as colectividades são meras acumulações de indivíduos, os seus problemas também são acumulações de problemas individuais. Um conjunto de pessoas identifica-se com o homem superior e não pode descer, e o outro conjunto identifica-se com o homem inferior e quer alcançar a superfície.

Jung descreveu a luta entre o ego e o inconsciente como uma luta de poder. Nesta luta quando um complexo inconsciente se apodera do ego há “possessão”. Quando o ego toma o controlo de certos atributos inconscientes do self existe “inflacção”. Jung comparou a transformação progressiva desta luta de poder no processo de individuação a uma sequência de regimes políticos. Ele denomina a unidade inconsciente inicial da psique de tirania do inconsciente. Na situação onde o ego é predominante ele compara-a a um sistema tirânico de um partido. Quando o ego e o inconsciente negoceiam na base da igualdade de direitos, a relação assemelha-se a uma democracia parlamentar.

Portanto, em Portugal, na maior parte das pessoas, vinga a predominância do ego nessa luta de poder?! Que importância tem esta questão? Jung acredita que a solução para os problemas com que nos deparamos de momento começa com uma mudança nos indivíduos, e que apenas a acumulação das mudanças individuais irá produzir uma solução colectiva.

Contudo, a intolerância, contraproducente à mudança do indivíduo, está em crescendo. O dia de hoje mostra com terrível clareza quão pouco as pessoas capazes estão disponíveis para que o argumento do outro seja levado em conta, apesar desta capacidade ser condição fundamental e indispensável para qualquer comunidade humana. Todo aquele que se propõe chegar a acordo com ele próprio deve contar com esse problema básico. Pois, na medida em que ele não admite a validade da outra pessoa, ele nega ao “outro” dentro de si o direito de existir – e vice-versa. A capacidade de diálogo interior é pedra de toque para a objectividade exterior. (Jung**)

Diálogo interior… essa coisa para a qual a sociedade de consumo vai arranjando desculpas para que não tenha lugar, porque não há tempo, porque as tarefas são muitas, porque parar é morrer… muitas vezes morre-se, vai-se definhando, porque não se pára! Parar para termos consciência do nosso auto-desenvolvimento, de forma a entendermos a nossa particularidade, como nos tornamos nós próprios em nós mesmos – a individuação de Jung; não a individualização corrente da sociedade do consumo, feita pela diferenciação do que se tem e deixa de se ter em termos materiais. A análise importante é quem se foi, é, e pode vir a ser. Sendo nós seres humanos animais de hábitos, como tudo, o diálogo interior exige prática.

Claro, este diálogo interior necessita de diálogo e integração com o contexto em que vivemos, as suas regras, as suas instituições, as suas práticas***… – a que a linguagem dá corpo – não o pactuar complacente com o status quo mas o seu questionamento. A nosso ver, tanto a psicologia como a ciência política partilham o objectivo comum de ajudar-nos a pensar o que fazemos.

*Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1958). The collected works of C.G. Jung: Vol. 2. London: Routledge and Kegan Paul.

**Read, H. E., Fordham, M., & Adler, G. (1977). The collected works of C.G. Jung: Vol. 18. London: Routledge and Kegan Paul.

*** Beger, P. & Luckmann, T. (2010). A construção social da realidade: Tratado de sociologia do conhecimento. Lisboa: Dinalivro.

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