Violência, Linguagem e Psicologia: enquadramento de uma imagem!

Foto de criança palestiniana lavando o chão do sangue do irmão assassinado por bombas das Forças de Defesa Israelitas (IDF)

Vi esta imagem que o Pedro Pereira Neto tinha partilhado no seu facebook. O texto que originalmente vinha com ela era este~

Alguém no facebook dizia que a censura das fotos de nus e sexo, se devia às crianças, que agora podem ter acesso ao face. Uma criança não tem maldade, essa maldade e repúdio é lhes transmitidas pelos adultos, preocupa me bem mais a violência macabra a que milhares de crianças estão sujeitas diariamente pelos adultos. “Vivemos num mundo onde nos escondemos para fazer amor! Enquanto a violência é praticada em plena luz do dia.” John Lennon

O Pedro por sua vez fez uma observação pertinente:

“se fosse na Síria seria notícia de 1ª página/abertura em todos os media ….. é na Palestina “é um dano colateral que lamentamos”

E é sobre esse enquadramento que muitas vezes se dá a algo que acontece recorrendo, para tal, a umas palavras em detrimento de outras que me quero debruçar. Já pensaram por que é que os agentes do governo se referem a civis mortos por bombas militares como “dano colateral” ou a assassinatos como “privação ilegal da vida?”. Porque estes termos expressam muito pouca emoção. E porquê usar palavras que têm pouca carga emotiva? Porque tu e eu geralmente respondemos somente a coisas que nos preocupam, explica a psicologia. Se as palavras ou imagens ou acções despertam nenhum sentimento em nós, não somos susceptíveis de responder a elas. Se não respondemos a elas, não vamos pensar sobre elas. Se nós não pensamos sobre elas, não vamos fazer nada sobre elas. Se não fizermos alguma coisa sobre elas, então quem está no poder pode continuar a fazer tudo o que deseja. Mesmo que não tenham o nosso consentimento, não despertam sequer a nossa oposição, se não tivermos consciência deste efeito.

No outro extremo do uso de linguagem amorfa, não-emotiva que nos impede de responder e pensar em realidades desagradáveis, existem aqueles que usam a linguagem principalmente pelo seu poder emotivo. Aí usam palavras que funcionam como os nomes dos detergentes ou assassinos em série: palavras que principalmente ou exclusivamente transmitem sentimentos, palavras que têm pouco ou nenhum conteúdo cognitivo. Exemplo disso são as associações contra o aborto que usam palavras cujo objectivo é despertar muitas emoções com muitas referências a matar “inocentes” ou “indefesos” por nascer.

Muitas palavras e expressões transmitem nada mais do que uma atitude positiva ou negativa. Palavras como distinguir um empresário de uma empresária. Um empresário é assertivo; uma empresária é insistente. Um empresário é meticuloso, uma empresária é exigente. Ele perde a paciência, ela é mal-intencionada. Ele fica deprimido, ela é temperamental. Ele é persistente, ela é histérica. Ele está confiante e auto-confiante, ela é arrogante. Ele é um solitário, ela é indiferente. Ele é firme, ela é teimosa. Ele é firme, ela é bombástica. Ele é uma pessoa privada, ela é secreta. Ele toma decisões rápidas, ela é impulsiva. Ele é apenas humano, ela é emocional. A diferença de atitude explica por que termos diferentes são usados para descrever um mesmo comportamento tratando-se de homens e mulheres, uma diferença geralmente designada pelo termo altamente emotivo, “sexismo”.

Como linda, maravilhosa, boa, grande e bela normalmente são usadas para expressar aprovação, considerando-se palavras como tendo um conteúdo emotivo positivo. Palavras como repugnante, desprezível, mau, estúpido e feio são usadas geralmente para expressar desaprovação. Algumas palavras, como tangente e neutrão, não têm conteúdo emotivo, não são usadas para expressar uma atitude, mas são usadas apenas pelo seu conteúdo descritivo ou cognitivo. Muitas palavras, no entanto, são usadas para expressar um significado cognitivo e emotivo, a sua função não é apenas descrever algo ou transmitir informações, mas também expressar uma atitude sobre isso. Por exemplo, o que uma pessoa poderia chamar de “um assassinato bárbaro e selvagem”, outra pode referir-se como “um homicídio.” As suas atitudes diferentes são expressas pela sua escolha de palavras diferentes, embora o seu significado cognitivo seja idêntico (ambas as expressões descrevem o assassinato de um ser humano).

Os profissionais da persuasão seja no aceitar/veicular ideias ou valores, incentivar à compra de produtos ou votar em candidatos, sabem como seleccionar palavras e imagens que são susceptíveis de provocar respostas emocionais. Eles sabem o poder da linguagem carregada, ou seja, linguagem altamente emotiva que visa evocar uma resposta através de emoções, como o medo e a esperança, ao invés de através do pensamento. Como um defensor anti-aborto americano, que ouvi, disse uma vez, basta juntar as palavras “bebé” e “matar” – ninguém resiste a essa!

Na persuasão da opinião pública com o intento de a ganhar para a persecução de determinadas políticas passa-se o mesmo.

A imagem que aqui deixo é arrepiante. Imaginem uma criança vossa conhecida a ter de passar por isto, como vos é próxima o pensamento sobre torna-se impensável! Como colocou Diogo Cunha, um amigo do Pedro, e eu subscrevo na íntegra:

Essa imagem é a manifestação visual da degradação da humanidade; da má divisão do trabalho e do poder, do errado uso do conhecimento, da hierarquização nefasta. É o Terceiro Mundo na medida em que não há nem deuses, nem homens, apenas sobram as brumas da morte. Que imagem terrível, mas, simultaneamente, profética: será esse o futuro? Degeneramos ou regeneramos?

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