13 de Junho de 2005

Há 7 anos, nessa data, faleceram dois homens indissociáveis da história do nosso país, Álvaro Cunhal e Eugénio de Andrade.

Cunhal político, artista plástico e escritor. Andrade poeta. Deixaram-nos vasta obra, ideais, sonhos e histórias de vida inspiradoras.

Em 1968 Andrade questionava nos Afluentes do Silêncio:

 Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras. E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em «cadáver adiado que procria», como poderia a arte deixar de reflectir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade – eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão.

Questionamento tão actual hoje como em 68, sinal de que apesar de terem ocorrido mudanças nas condições de vida do nosso povo muitas coisas não mudaram. Apenas adormeceram subterfugiamente para se tornarem hoje tão prementes quanto o eram antes, talvez nunca tenham deixado de o ser ou então, quem adormeceu fomos nós embalados pelas palavras das supostas boas intenções políticas que traziam veladas caminhos já antes percorridos. A pauperização da humanidade é exponencial à crescente valorização da moeda e das finanças numa cada vez maior exploração do homem pelo homem. Marx e o capital, paradigma actual que nos leva de Andrade a Cunhal.

Cunhal que lutou, com tantos outros seus camaradas na clandestinidade, contra a ditadura fascista de Salazar e continuou a lutar pós 25 de Abril por um país melhor, com futuro, mais igualitário, mais solidário, mais social, mais justo. Cunhal que deixou um legado que outros como ele ajudaram a construir no seio do Partido Comunista Português. Aliás, o historiador Borges Coelho, sustentou confundir-se a vida de Cunhal, “numa boa parte”, com a vida do PCP dizendo de Cunhal que “no fim das contas, é afinal um homem profundamente envolvido nas lutas e sofrimento deste século e transfigurado pelo mito”. Podemos recordá-lo no poema Sophia de Mello Breyner cantado por Francisco Fanhais

É preciso recordá-los, dá-los a conhecer, às suas obras, às suas palavras, às suas ideias. Cada vez mais. Neste tempo que se rege unicamente pelo valor monetário, pelo despotismo, pelo pensamento acrítico, pelo bipartidarismo, pelas muitas exclusões – sejam sociais, económicas, educacionais – é preciso, é urgente recordar gente que passou uma vida a lutar pela liberdade individual e colectiva de se pensar, de se construir, de se ser criativo, de se ser e viver. Como disse Cunhal n’ “O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista” (1970):

No papel é fácil escrever e ao microfone é fácil gritar: “chegou a hora do assalto final!” Para o assalto final, não basta escrever ou gritar. É preciso, além de condições objectivas, que exista uma força material, a força organizada, para se lançar ao assalto, ou seja, um exército político ligado às massas e as massas radicalizadas, dispostas e preparadas para a luta pelo poder, para a insurreição (…) Os radicais pequeno-burgueses são incapazes de compreender que os objectivos fundamentais da revolução não se alcançam reclamando-os, mas conquistando-os.

A luta faz-se lutando, e essa não se ganha através do apoio à selecção nacional de futebol!*, faz-se através do apoio e da luta pelos nossos direitos, na escola, na universidade, no local de trabalho, nas associações sociais e desportivas. E aos que ao ler isto perguntam pelos deveres, claro que devemos cumprir com os nossos deveres mas atentemos numa coisa, os nossos deveres não são aqueles que à revelia do contrato social, unilateral e ditatorialmente nos são impostos.

Vivêssemos realmente em democracias nesta (des)União Europeia e nem haveria neste tempo nosso censura a livros em Espanha, o caso do livro Hay Alternativas de Vicenç Navarro, Juan Torres y Alberto Garzón com prólogo de Noam Chomsky, nem a ditadura das políticas de desemprego e a retirada de subsídios de invalidez ou a não atribuição de reformas por invalidez, quando constam na lei e são dever do Governo, a quem deles necessita em Portugal.

 *sendo importante todas as formas de participação, a crítica que aqui é feita é que muitas vezes as pessoas importam-se com o acessório e não com o essencial. A selecção também merece apoio mas o cenário que se vive hoje em dia de preocupação com o EURO 2012 quando o país tem questões mais importantes que precisam da participação de todos os cidadãos para que a sua resolução se efective e a maior parte deles demite-se de participar e tomar essas decisões é no mínimo caricata. É triste quando a realidade ao impôr-se nos transmite um tempo de futebol, fado e família semblante e conteúdo da ditadura que assolou o nosso país durante quarenta anos.

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