psicologia política e a questão social

Face ao perigo das nossas sociedades colapsarem algumas disciplinas desenrolam um papel importante no combate aos nossos problemas e preocupações. Uma reacção frequente à hostilidade do mundo exterior é as pessoas refugiarem-se nelas próprias, i. e., elas recorrem à psicologização. Isto não se refere tanto a um indivíduo independente, que se sente único e seguro da sua individualidade, ou a uma pessoa com problemas mentais que vai ao consultório do terapeuta, mas “a um processo de estabelecer no interior do self subjectivo um tipo de existência subterrânea, uma alma entendida como a fonte e a raíz de todas as coisas, um princípio vital imaterial que pode ser explorado e analisado […] na medida da existência individual ser convertida numa espécie de imersão infinita nas profundezas do self psicológico» (Álvarez-Uria, 2006:106).

As raízes deste processo de psicologização têm origem no individualismo característico do homo economicus, da pessoa que é um produto da sociedade industrial. Assim, o desenvolvimento de uma personalidade psicologizada aparece como o reverso de um capitalismo voraz que transforma seres humanos em bens/mercadorias. Neste cenário a procura nas profundezas do self por um refúgio do mundo hostil poderia agir como uma força para resistir ao processo capitalista de tratar as pessoas como coisas. De qualquer modo, esta procura incessante também envolve o abandono da vida pública e social, i.e., o espaço político da sociedade como um todo.

Daí que analisar o processo de psicologização do self numa sociedade de indivíduos envolva perguntarmos a nós próprios como e porquê alguns indivíduos se tornam despegados/separados do seu mundo social. O que leva/induz à criação deste espaço interior? Que grupos sociais é que a psicologização do self afecta principalmente e porquê? e que comportamento, que valores e genealogia de estilos de pensamento adoptam esse estilo de vida?

Convém ter em consideração, como aliás referiu Norbert Elias, que estes processos não são o resultado de uma mudança súbita no mundo interno do indivíduo, a análise destas transformações requere que discriminemos entre o peso de diferentes instituições e a sua conexão com diferentes processos na adopção de um estilo de vida com diferentes graus de psicologização na sociedade contemporânea.

Será o caso da política que é vista pelos jovens como algo da geração dos seus pais!? “Parece que há poucas soluções utópicas que restem e a afirmação do indivíduo, reagindo a um mundo que é um problema, permite ao menos manter viva a crença na possibilidade da autonomia do self” dizem Gordo e Jan de Voz. Mas isto será mais uma ilusão porque essa autonomia encapotada não é mais que o poder do capital que não se traduz numa verdadeira independência pessoal. Comprar bens é no mínimo sinónimo de ter dinheiro para os adquirir, comprá-los como forma de ser-se independente é escravatura do capital. Reduzem-se assim as pessoas a números e o mundo a um vazio de trocas de moeda em que não há lugar para pensar as relações que estabelecemos com os outros, como e porquê?!

É preciso ousar ser-se independente sendo-se uno! Não na lógica monetária mas na lógica dos ideais, esses que internamente nos dão a esperança de um mundo melhor, a esperança de sermos pessoas melhores, motivando-nos para criar e viver de acordo com esses ideais. Não é o dinheiro nem a política que faz o homem mas o homem que faz o dinheiro e a política. Convém não perder de vista esses factos uma vez que é na capacidade criadora e criativa que existe em cada um de nós que reside o potencial tranformador do mundo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s