Visto de fora!

Os moralistas da dívida

por Paul Krugman, Publicado em 05 de Novembro de 2010 no I

Se o Estado cortar os incentivos à economia, como querem os moralistas, vamos cavar a própria ruína, com a estagnação a prolongar-se e o desemprego a aumentar.

“Quantos de vocês querem pagar a hipoteca do vosso vizinho, que tem uma casa de banho a mais e não consegue pagar o que deve?” É esta a famosa pergunta que Rick Santelli, da CNBC, fez em 2009, numa tirada a que em geral se atribui o nascimento do movimento Tea Party.

Este sentimento domina não só nos Estados Unidos, mas em grande parte do mundo neste momento. O tom difere de lugar para lugar – ao ouvir um responsável político alemão perorar contra os défices, a minha mulher desabafou: “Vão dar-nos chicotes a todos para nos flagelarmos.” A mensagem é sempre a mesma: o endividamento é demoníaco, os devedores devem expiar os seus pecados e de agora em diante temos todos de viver dentro das nossas posses.

Este moralismo é a razão por que a economia está num marasmo de que não se vê saída.

Os anos anteriores à crise de 2008 e que conduziram a ela foram de facto marcados por um endividamento insustentável, que foi muito para além da crise do subprime, que muitos ainda julgam, erradamente, ter estado na raiz do problema. Na Florida e no Nevada a especulação atingiu níveis absurdos, mas o mesmo aconteceu em Espanha, na Irlanda e na Letónia. E foi tudo pago com dinheiro emprestado.

No conjunto, estes empréstimos não tornaram o mundo mais rico nem mais pobre: a dívida de uns é o ganho de outros. No entanto, tornou-o mais vulnerável. Quando os credores de repente acharam que já tinham emprestado de mais, que os níveis de endividamento eram excessivos, os devedores foram obrigados a cortar bruscamente os gastos. Isto levou o mundo à pior recessão desde 1930. Além disso, a recuperação tem sido fraca e incerta – o que seria de esperar, na ressaca da crise da dívida.

O que devemos ter em mente acima de tudo é que para o mundo no seu conjunto os gastos equivalem ao rendimento. Se há pessoas – as excessivamente endividadas – forçadas a cortar os gastos para reduzir as suas dívidas, das duas uma: ou alguém começa a gastar mais ou o rendimento do mundo no seu conjunto tem de diminuir.

No entanto, as partes do sector privado que não estão sobrecarregadas com endividamento excessivo não estão a ver razão para aumentar os gastos. As empresas têm liquidez – mas para quê expandirem se grande parte da capacidade instalada já está inactiva? Os consumidores que não estão endividados podem obter empréstimos com juros baixos, mas esse incentivo para gastar é largamente superado pela preocupação com a perda eventual dos empregos. No sector privado ninguém está na disposição de preencher o vazio criado pela ameaça da dívida.

Então que fazer? Em primeiro lugar, quando o sector privado não gasta deviam ser os estados a fazê-lo, para permitir que os devedores paguem as suas dívidas, em vez de perpetuarem a estagnação global. Em segundo lugar, deviam promover o auxílio aos endividados: reduzir as obrigações para níveis que os devedores possam suportar é a maneira mais rápida de eliminar a ameaça que representa o endividamento.

No entanto, nada disto serve aos moralistas. Para começar, denunciam o aumento do défice, declarando que não é possível resolver o problema do endividamento aumentando a dívida. Depois denunciam o auxílio aos devedores como um prémio aos menos dignos.

Quando demonstramos que os argumentos não colhem, lançam-se numa fúria indignada. Se tentarmos explicar que se os endividados deixam de gastar e mais ninguém o fizer a economia se afunda, chamam-nos comunistas. Se tentarmos defender que o apoio aos endividados é melhor do que executar hipotecas e vender as casas com perdas monstruosas e lançam-se em diatribes como a de Santelli. Do que não há dúvida é de que os moralistas são criaturas apaixonadas. Já as pessoas mais informadas parecem sofrer de falta de convicção. John Boehner, líder da minoria republicana no Congresso, foi amplamente citado quando, o ano passado, declarou que estava na altura de “o governo apertar o cinto” – perante um sector privado em queda o governo deve gastar mais, e não menos. No entanto, desde então o presidente Barack Obama tem usado repetidamente a mesma metáfora, prometendo fazer corresponder o aperto de cinto no Estado ao do sector privado. Será que lhe falta coragem para desafiar os lugares-comuns ou tratar-se-á de preguiça intelectual? Seja como for, se o presidente não defender a lógica da sua própria política, quem o fará por ele?

Entretanto, o programa de consolidação das hipotecas – o tal que inspirou a fúria de Santelli – acabou por não obter praticamente resultados. Em parte isto deveu-se à preocupação dos responsáveis com a possibilidade de serem acusados de ajudar os não merecedores, que acabou por levá-los a não ajudar quase ninguém.

É por tudo isto que os moralistas estão a levar a melhor. Cada vez mais eleitores, tanto nos Estados Unidos como na Europa, estão convencidos de que aquilo de que precisamos é de um bom castigo, e não de incentivos à economia. Os governos devem apertar os cintos e os devedores pagar a quem devem. O mais irónico é que na sua determinação de punir os pecadores os eleitores estão na realidade a punir-se a eles mesmos: ao rejeitar o estímulo fiscal e a ajuda aos devedores, estão a perpetuar os altos níveis de desemprego. Na realidade, estão a despedir-se dos próprios empregos só para chatear os vizinhos.

O problema é que não sabem que o estão a fazer, e por isso a estagnação perpetua-se.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times

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