Mogli

Cheguei a casa. Desço para te ir dar de comer. Vou à cozinha. Coloco a comida na tua tigela. Atravesso o quintal às escuras. Como não te vejo penso que estás na tua casota a dormir. Vislumbro a tua boca virada para cima, e dentro dela um emaranhado de fios.  Estes fios eram de uma máquina que estava ligada à electricidade, no quintal. Jogo a mão para te mexer. Estás rígido. Frio. Sem vida. Grito. PAI. MÃE. O MOGLI MORREU, grito a chorar e aos soluços. Tento tirar-te os fios da boca. Não consigo. O teu maxilar está super rígido. Tu estás em cima de terra molhada. A sensação é de impotência, o sofrimento que sinto horrível.

O Mogli entrou na minha família ainda não há um ano. Foi-me oferecido por uma pessoa que muito estimo, que muito me ensinou acerca da minha profissão e das pessoas, das suas emoções, maneiras de viver, e de se relacionarem com os outros. O nome Mogli foi escolhido pelas suas filhas. Desde o início o teu significado foi de um sentimento de amor.  Por isso não suportava quando no início resistiram em ficar contigo. Contudo, ao fim de umas semanas estavas entranhado no nosso coração, na nossa vida, na nossa rotina… O Mogli é (era) um beagle raçado de podengo, tricolor. Aventureiro, brincalhão, teimoso, cativante, carinhoso, meigo, inteligente, um amigo.

Quando o trouxe para casa nas primeiras noites dormiu comigo. Latia quando se sentia sozinho. Acordava às 3h/4h da madrugada e queria brincar, mimos, festas… Adorava a sua manta branca e felpuda que carregava consigo para qualquer lado, para se deitar em cima dela, presumo que não gostasse do frio. Embora tivesse nascido nesse tempo.

A comida favorita do Mogli era frango cozido, a que a minha mãe o habituou. Tal como a roer os ossos em cima do tapete que se encontrava à entrada da porta da cozinha. Das poucas coisas que aprendeu à primeira! O Mogli era o membro mais novo da nossa família. Sempre alegre por nos ver. Por ter a nossa companhia. Por brincar connosco.

A minha mãe era quem mais tempo passava com ele. Aliás, ouvindo-lhe os passos na rua, começava logo a latir para ela o ir ver, fazer mimos, e soltá-lo. A posição de cumprimento normal era deitar-se e rolar no chão, ficando de barriga para cima para lhe fazermos festas na barriga. Traquinas roubavas os tapetes, ou outra qualquer coisa, quando ralhávamos contigo. Roías tudo quanto apanhavas. Adoravas roubar a garrafa de iogurte ao avô quando ele acabava de o beber e o deixava na bancada da cozinha. Conseguias tirar a tampa sem danificar a garrafa, e deliciavas-te com o restinho que tinha ficado na embalagem. Apreciava tantas, mas tantas coisas em ti. Eu, e o resto da nossa família. Como é que morres desta maneira?!

Amanhã de manhã não vais andar a correr pelas ruas perto de nossa casa. Nem nos vais cumprimentar com a tua alegria, sempre com o rabo a-dar-a-dar. Nem saltar até à altura das nossas cabeças para apanhar o osso. Nem entrar pela cozinha a cheirar em todo o lado, a ver se te calha alguma delícia para petiscares. Amanhã não estás presente.

Tenho saudades tuas. Muitas. Sentimos todos a tua falta. A esta hora ainda ninguém dorme. O pensamento é o mesmo. Nunca imaginámos que partirias tão cedo… e ainda por cima desta maneira… Merda! Puta de vida que nos faz passar por estes momentos em que os que amamos partem mesmo à nossa frente, e não podemos fazer nada para o impedir.

Sei que o teu corpo está lá em baixo no quintal. Esforço-me para não ir para perto de ti, para me lembrar de ti com vida. Mas não consigo esquecer que já não estás aqui.  Mais logo vamos enterrar-te na horta. Eu e o David. Com ele brincavas até à exaustão. Com todos nós, metias-te com todos nós para brincarmos contigo. Sempre que ias à da avó saltavas-lhe para cima da cama, depois de fazeres a ronda a cheirares a casa toda… fazias o mesmo na casa do avô…

Meu amor, quantas saudades deixas. E o mais insuportável termos passado contigo menos de um ano… Apesar de não me servir de consolo de momento, espero que o teu espírito corra livre, como sempre foste.

Estiveste connosco pouco tempo. Foi melhor que nenhum. Adeus nosso fiel amigo e companheiro.

7 thoughts on “Mogli

  1. Meu amor, fiquei estupefacta de ler a tua msg… Sinto muito mesmo pelo Mogli. Tão pouco tempo e já partiu… mas pensa assim como tens pensado, mais vale pouco tempo e bom que nenhum, ou muito e mau. Tenho a certeza que o fizeste sentir o cão mais feliz do Mundo. Beijo grande amiga

  2. oh linda… Já falei contigo e parece que agora tudo ficou mais triste outra vez. Mas é mesmo, o Mogli era um doido bem feliz. O sentimento de impotência é muito, mas pensa que realmente aproveitaram muito bem este tempo que estiveram juntos, os dois e mais o resto da família.
    Esqueceste de dizer uma coisa: quando ele te lambia a face desenfreadamente e tu não conseguias parar de rir com isso… Aqui fica o momento…

    Xi-coração bem apertado

  3. Querida Tânia
    Hoje já chorei por si e pelo Mogli. Não vou dizer nada às minhas filhas. Uma coisa é certa, o Mogli teve muita sorte porque tinha a dona mais querida do mundo.
    Beijinhos

  4. Engraçado como todos nós, temos dificuldades de descrever os nossos sentimentos para com os que nos são próximos, e o mesmo não se passa com os nossos animais.. Já pensaste nisso?
    Acho que é porque o amor dos animais é tão incondicional e arrebatador.. k rebate todas as nossas “complicações”.
    Lamento o k aconteceu ao Mogli. Mas tenho a certeza k ele, do ceú dos animais, te vai enviar uma lambidela virtual, sempre k estares triste como agora..
    : / ganda Bjinho

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